domingo, 31 de maio de 2009

41 - SEU LUNGA VARZEALEGRENSE





             Desconheço a razão. Mas quando joguei no time de futebol infantil de “Zé Taíde” as bolas constantemente furavam. Por isso, no meio do treinamento, várias vezes fui com outros pequenos atletas levar as bolas murchas para Mundin remendar. O artífice era um dos primeiros moradores de uma área da cidade que hoje abriga o populoso bairro Varjota.

            Sempre mal humorado, Mundin da Varjota recebia em sua casa aquele grupo de garotos barulhentos. Porém, mesmo carrancudo, nos atendia com presteza, rapidamente costurando as sofridas bolas de couro. Permitia, assim, a continuidade das prazerosas partidas de futebol na quadra da Escola Municipal Presidente Castelo Branco.

           Aquela cara amarrada e seu comportamento estressado tinham lá seus motivos. Na delicadeza e cortesia, ou na sua falta, Mundin empatava com Seu Lunga, o famoso Juazeirense. Contam, em Várzea Alegre, que, certa noite, quando já deitado, Mundin foi acordado por sua esposa Cecília, que, sentido fortes dores no abdômen, reclamou:

          - Mundin, tá me dando uma coisa.
 
          - Se tão dando, receba – respondeu secamente o marido.

         - Mas é coisa ruim – insistiu a esposa Cecília.

         - Então não queira muié – gritou Mundin, cobrindo o rosto com um lençol de saco de açúcar.


(imagem Google)

sábado, 30 de maio de 2009

40 - O DESEJADO CRATO

             Arivaldo Siebra, primo de Alberto, morava no desenvolvido município do Crato, mas com freqüência passava as férias em Várzea Alegre, hospedando-se na casa dos tios Seu Zé Augusto e Dona Zulmira. Como havia nascido e se criado no progressista município caririense sempre trazia novidades e brincadeiras diferentes que deixavam os meninos Antônio Ulisses e Alberto boquiabertos.

             Numa dessas vindas à “Terra do Arroz”. Arivaldo convidou seu primo Alberto para ir ao Cariri, conhecer as novidades e os progressos daquela região.

             Antônio Ulisses, ouvindo atentamente o convite, desejou acompanhar seu amigo e vizinho na viagem. Porém, como não poderia, pediu a Alberto que, quando voltasse do passeio, lhe contasse detalhadamente como era o Crato. Alberto, muito sabido, asseverou que só contaria se o colega levasse sua mala até o caminhão misto de Seu Lourival Clementino, que partiria da frente da Prefeitura. Na época, não existiam as sofisticadas e leves malas de hoje. Estas eram feitas em madeira e pesavam bastante, mesmo quando ainda vazias.

            Sem conseguir esconder a ansiedade, no dia marcado para o retorno, o garoto esperou o misto na entrada da cidade, onde é hoje o bairro Betânia, aproveitando pra pegar um “bigu”, pendurado na traseira do caminhão do Seu Lourival. Na boléia, cheio de pose, vinha o turista Alberto.

             Ao chegar no ponto de desembarque, Alberto determinou que seu amigo apanhasse a mala na carroceria do caminhão e a levasse de volta pra casa. Em face das novidades trazidas do Cariri, a bagagem pareceu ainda mais pesada; contudo o carregador, desejoso de ouvir as histórias, cumpriu com muito esforço a tarefa de trazer a mala até o interior da residência do Sr. Zé Augusto. Ao chegar ao destino, ainda ofegante, disse:

           — Pronto, Alberto, me conte agora como foi a viagem.

           O amigo, com muita banca, afirmou que, por estar cansado, iria se deitar e, somente no dia seguinte, falaria sobre a viagem. Assim, Antônio Ulisses já amanheceu o dia debaixo do hoje sexagenário “Pé de Figo”.

           Lá pelas tantas, finalmente, Alberto se acordou, e seu amigo passou a implorar pelas histórias prometidas. O pequeno turista disse que só contaria depois que merendasse. Ao findar o café da manhã, Alberto finalmente resolveu contar as novidades ao seu amigo.

           Antônio Ulisses ouviu atentamente todas as histórias. Se, em Várzea Alegre, a água era trazida para as casas no lombo dos animais, dentro das ancoretas, no Crato, o precioso líquido jorrava de dentro das paredes das casas. Se aqui o velho motor gerador, de responsabilidade de Seu Julio e Zé Saldanha, só funcionava em parte da noite, no vizinho e à época distante município, a luz acendia de dia e de noite. Na capital do Cariri, havia gelo com gosto de goiaba, abacaxi e várias outras frutas. O nosso pobre menino não conhecia o delicioso picolé; só havia provado do gelo do bar do Seu Zé de Souza, que funcionava próximo do prédio onde hoje é o Armazém Progresso, de Seu Vandir Viana.

           Alberto não esqueceu de contar que, na Serra de São Pedro, na ida e na volta, ficou impressionado com a denominada “curva da morte”. Antônio Ulisses exigiu detalhes daquele perigoso e comentado trecho da estrada. Alberto, sem medo de exagerar, contou que a curva era tão fechada que, no meio dela, da boléia, dava para ver a traseira e a placa do caminhão.

            Por fim, Alberto disse que, no Cariri, havia o fascinante transporte ferroviário. O trem era uma fila de carros amarrados um no rabo do outro e o da frente dizendo:

            — Café com pão, bolacha, não; café com pão, bolacha, não.

            Em frente à estação ferroviária, havia uma bela praça e, naquele lugar, Alberto viu um galeguinho, parecidíssimo com o amigo de Várzea Alegre. Ouvindo calado e atento a todas essas maravilhosas histórias, Antônio Ulisses, com voz forte e suspirante, exclamou:
         — Ah se fosse eu!


* extraído do Livro Conte Essa, Conte Aquela - Histórias de Antônio Ulisses.

domingo, 24 de maio de 2009

39 - CARA OU COROA




          Eu não devia ter mais que 8 anos. Como todo menino, aliás, como todo ser humano, já gostava de dinheiro. Assim, deitado no chão, de boca aberta, usando uma faca de mesa, violava o recheado cofre da minha irmã Flaviana, quando, por descuido, engoli uma moeda que escapou pela fenda da cobiçada caixa.

          Logo após sentir o objeto escorrer com dificuldade pela garganta, eu mesmo disparei o alarme, gritando e confessando minha peripécia. Uma correria se instalou em minha casa, todos preocupados com o inusitado acontecimento. Temiam que a moeda entupisse minhas tripas. Naquele mesmo dia fui encaminhado ao vizinho município de Iguatu, onde um médico, examinando uma radiografia de tórax, concluiu que a peça de metal já passara pelos tubos mais delicados do meu aparelho digestivo.

         De todo modo, por cautelosa recomendação médica, minhas fezes passaram a sofrer intensa investigação. Fiquei proibido de usar a privada. Somente depois de três dias, o dinheiro foi expelido no quintal da casa de tia Rosa Amélia. Carregando a moeda já um pouco enferrujada ou amarelada por outro motivo, eu e meu primo Serginho corremos em direção à Bodega do meu pai para comunicar a boa nova. Quando chegamos, tio José Cavalcante Cassundé, em meio a fregueses, conversava com meu pai no balcão do pequeno comércio. Diante de todos, “sem papa na língua” e com sua “voz de megafone”, tio Zé do Norte, como conhecido, espantado com o estranho fato, imediatamente comentou:

        - Meu irmão Luiz agora enrica de vez. Tem um filho cagando dinheiro.


(imagem Google)

sábado, 23 de maio de 2009

38 - O MENINO DAS CAJAZEIRAS

Durante toda sua vida, Antônio Ulisses freqüentou o Sítio Cajazeiras. Manteve estreitos laços de amizade com vários moradores daquela conhecida comunidade rural.

Numa dessas constantes visitas, após jantar um saboroso baião de dois, com fava e carne de porco torrada, sentou-se na agradável calçada da residência de Dudu de Chico Costa. Dali viu passar pela estrada um grupo de barulhentos garotos, dentre os quais um que se destacava pela falta de beleza. Sobre a aparência física do menino, comentou:

— Dudu, quando esse menino terminar de ficar feio, no que é que vai dar?


* extraído do livro “Conte Essa, Conte Aquela – Histórias de Antônio Ulisses”

sábado, 16 de maio de 2009

37 - MÃO E CONTRAMÃO

No início tarde do sábado, no programa televisivo Estrelas, da loiríssima Angélica, o cantor Xororó afirmou não beber, não fumar, nem fazer outras extravâncias, diferente do seu irmão e parceiro Chitãozinho. E que, por conta da vida disciplinada, sempre recebe do bem-humorado sertanejo Leonardo o seguinte comentário:

- Xororó não quer viver, quer durar.

É verdade que cada pessoa escolhe o estilo e o ritmo de sua vida. Uns preferem um comportamento mais recatado, sem exageros. Outros, uma trajetória mais ousada, com extravagâncias e aventuras.

O conterrâneo Chico Piau foi um dos muitos que desde jovem trilhou por caminhos mais tortuosos, preocupando bastante sua religiosa mãe, dona Heroína. Certo dia, depois de escutar demorados conselhos de sua querida mãe, que desejava mudanças no comportamento atirado do filho, Chico se saiu com esse original e polêmico argumento:

- Mãe fala assim porque não sabe como é bom ser rim.

sábado, 9 de maio de 2009

36 - ORELHA QUENTE



No ano de 1968 vivia-se o auge da Jovem Guarda, movimento que mesclava música, comportamento e moda. Mas em resistência à massificação do ritmo iê-iê-iê, os rádios brasileiros tocavam o seguinte xote:

"Cabra do cabelo grande
Cinturinha de pilão

Calça justa bem cintada

Custeleta bem fechada

Salto alto, fivelão

Cabra que usa pulseira

No pescoço medalhão

Cabra com esse jeitinho

No sertão de meu padin

Cabra assim não tem vez não(…)”

Os versos bem humorados do Xote dos Cabeludos, do grande compositor varzealegrense José Clementino, imortalizados pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga, traduzem a desconfiança do sertanejo com a aparência pouco convencional dos membros e adeptos da Jovem Guarda.

Alguns anos depois, quando adolescentes, eu e vários outros primos, entre os quais Hildemburg (Nenê) e Hildemberg (Bega), decidimos usar brincos. Além das dores decorrentes da inflamação nas orelhas, sofremos comentários e críticas em face do à época pouco comum comportamento de jovens do interior cearense.

Em um fim de tarde estávamos reunidos no Calçadão Antônio Costa, no Bar de Toinha Boa Água, quando nosso tio Francisco da Chagas (Chico Nenê) se aproximou e passou a nos observar. Estranhando seus sobrinhos com adornos enfeitando as orelhas, Chico, com sua voz retumbante e indiscreta sinceridade, comentou:

- Meus sobrinhos, não se enfeze comigo não, mas se tivesse com vontade de dar o cu eu não faria esse arrodeio todo não.


segunda-feira, 4 de maio de 2009

35 - DEPILANDO OS PADRÕES

Mesmo não acompanhando mais detidamente o enfadonho Big Brother Brasil da Rede Globo, ouvimos atentamente as discussões acerca dos padrões de beleza surgidos com a última versão do controvertido programa. A participante Priscila, com suas roliças pernas, pôs em risco a ditadura de beleza da mulher magra e esquálida imposta pelas quase anoréxicas modelos de passarela.

Bom lembrar que essas mudanças nos padrões de beleza feminina ocorrem desde o começo do mundo. E o recente debate sobre a grossura das pernas de Priscila fez ressurgir uma história sempre contada pela conhecida e dedicada educadora de Várzea Alegre, professora Rivandir.

Há algumas décadas, a adolescente Rivandir depilava suas pernas quando o seu querido pai Raimundo Nonato de Moraes, Mundin Tibúrcio, simpático escrivão da coletoria de impostos, comentou:

- Rivandi, minha filha, suas pernas já são finas e você ainda tirando os pelos. Vão ficar ainda mais finas.

Rivandi, sempre inteligente e bem humorada, logo respondeu:

- Ora, papai. Sabe por que são finas? O senhor teve dezesseis filhos, faltou material para tanta gente.



Colaboração: Rivandir Moraes de Menezes

sexta-feira, 1 de maio de 2009

34 - MOTORISTA BOA PRAÇA



Durante algumas décadas, os motoristas de praça, conduzindo com segurança passageiros em corcéu, belina, fusca, jipe e outros veículos, realizaram valoroso trabalho em Várzea Alegre. Hoje, a tradicional atividade sofre com a forte concorrência dos inúmeros mototaxistas que surgiram nos últimos anos.

Idelfonso Ferreira Lima, ou apenas Delfonso, misto de agricultor e motorista, conhecido por sua simpatia e reações bem humoradas, sempre animou os debates da Praça do Abrigo, único ponto de táxi de Várzea Alegre.

Certo dia, já tarde da noite, Delfonso e sua esposa Enedi, moradores da Rua do Figueredo, em frente ao Pronto Socorro, foram chamados para ajudar na retirada de uma gorda senhora de dentro da ambulância.

Delfonso, atencioso, saiu imediatamente para prestar sua colaboração. Sua esposa, Enedi, antiga e valorosa funcionária da Justiça Eleitoral, muito organizada, ainda se vestindo, alertou:

- Delfonso, espera aí, vai pelo menos colocar tua chapa.

O motorista, em um repente, com avoz modificada pela falta da dentadura, retrucou:

- Ô besteira Nedi, eu vou é ajudar a muié, né morder ela não.



Colaboração: Klébia Fiúza

quarta-feira, 29 de abril de 2009

33 - ESPANANDO A CRISE

Em tempos de dificuldade financeira as grandes empresas planejam melhores estratégias para aumentar o seu faturamento. Buscam reduzir custos, inovar na propaganda, aproximar os clientes, incrementando mais ainda a forte concorrência do mercado. Mas a acirrada disputa e busca de alternativas não são exclusividades dos maiores estabelecimentos comerciais.

Em Várzea Alegre, na década de sessenta, em meio a uma crise nas vendas, o comerciante Zé Petronílio, recém estabelecido no centro da cidade, recebeu alguns clientes em sua pequena bodega. Todos perguntavam se no comércio havia espanadores, utensílios com cabos em madeira e penas de pássaros na ponta, usados principalmente para “espalhar poeira”. O novo comerciante, temendo afastar a clientela, sempre se desculpava com os interessados:

- Rapaz, eu fiz um pedido de espanador pr'uma firma da Capital. Sem demora eu recebo a mercadoria.

A intensa procura dos clientes pelo produto se justificava. Era mês de setembro, tempo de terras secas, época em que os “ridimue” (redemoinhos) do sertão levantam muita poeira. A partir de então, Zé Petronílio passou a observar no comércio local quem possuía o cobiçado espanador. Já na "cabeça" da ladeira da antiga Rua do Juazeiro Zé Petronílio encontrou o produto no comércio de José Alves de Lima, o Zé de Ginu. Para não perder a oportunidade de bons negócios, Petronílio não economizou, comprando todo o volumoso estoque de espanadores que Zé de Ginu possuía.

Feliz com a compra, à espera dos bons negócios, Zé Petronílio pendurou vários espanadores na entrada do seu pequeno comércio. Eram tantos que a bodega parecia um poleiro de aves.

Porém, decorridas várias semanas, para decepção de Zé Petronílio, ninguém procurou pelos espanadores. Só depois de algum tempo descobriu-se que Zé de Ginu pedira a várias pessoas para indagar se no comércio de Zé Petronílio havia espanador para vender.



* Colaboração: Klébia Fiúza

domingo, 26 de abril de 2009

32 - DEVASSA NA BODEGA





        Pode não ser verdade que nós cearenses temos o comércio no sangue, mas na minha família todo mundo sempre gostou da intermediação. Há várias gerações muitos se dedicam à atividade comercial.

        Meu querido pai, desde bem jovem, trabalha por trás do balcão, vendendo açúcar, sabão, querosene, rapadura e outras inúmeras mercadorias. O pequeno comércio – Casa São Raimundo - foi inaugurado em abril de 1946 por meu avô paterno Raimundo Cavalcante, conhecido por Raimundo Silvino.

         Se hoje os pequenos empresários sofrem com a complexidade das regras tributárias, quando meu avó se iniciou no comércio era ainda mais difícil compreender as normas do fisco.

        Essa dificuldade transformou as visitas dos fiscais da fazenda em momentos extremamente desagradáveis para os pequenos comerciantes. Tudo se agravava porque nunca possuíram condições de contratar os serviços especializados de um contador, o antigo guarda-livros.

        No final da década de 50, meu avô recebeu em sua bodega uma dessas antipáticas equipes de fiscalização. Ao ver os livros obrigatórios, os fiscais estranharam no registro de saída sempre um mesmo valor todos os dias durante o ano inteiro.

      O arrogante chefe da fiscalização, desejando amedrontar o pequeno comerciante, e, possivelmente, propor um imoral acerto, comunicou que tal fato geraria uma grande multa ao estabelecimento.

        Mas meu avô, destemido e inteligente, com seu jeito matuto e extrovertido, desarmou logo o fiscal com sua justificativa:

        - Ôxi seu Dotô, quando junto cem cruzeiro na gaveta, já fico sastifeito com o apurado, fecho a budega e vou pra casa.


sábado, 25 de abril de 2009

31 - O SENTINELA APAIXONADO*

Cabe lembrar que se vivia um dos auges do militarismo no Brasil. Naquele período, o país era sucessivamente presidido por generais, de modo que pertencer a qualquer das forças armadas representava um enorme destaque na sociedade.

Nessa época, depois de algum tempo na caserna, Antônio Ulisses foi escalado para tirar serviço como sentinela na residência oficial do Comandante-Geral da 10ª Região Militar, em Fortaleza.

Sua tarefa, bem mais fácil que as desempenhadas no interior do quartel-general, era vigiar uma bela mansão localizada na Aldeota. Na enorme casa, viviam apenas o general, a esposa, e uma bela filha do graduado militar.

Mesmo para os soldados que desempenhavam suas tarefas na residência era difícil ver mais detidamente a linda filha do Comandante, pois a moça passava o dia no interior da casa. Nas raras saídas, era acompanhada do seu pai, e, temendo possíveis punições, os soldados não se atreviam a olhar para aquela jovem.

Certa tarde, quando Antônio Ulisses cumpria seu mister no portão de entrada da mansão, a moça, por várias vezes, apareceu na janela da casa e dirigiu o olhar em direção à guarita onde estava o Sd Costa Filho. Toda vez que a moça surgia, o coração de Antônio Ulisses batia forte, pois sentia que a jovem estava lhe paquerando.

Os colegas de farda não iriam acreditar quando soubessem que ele em breve namoraria a cobiçada filha do Comandante. Por um instante, sonhou entrar naquela mansão de braços dados com a linda moça. Seu conseqüente casamento com a donzela, além de preencher seu coração, abriria as portas para uma promissora carreira militar. Logo deixaria a difícil vida de praça e alcançaria o cobiçado oficialato. Por várias horas aquela agradável fantasia habitou a mente do jovem militar, até porque a moça continuou a olhar em direção à frente da residência-oficial.

No entanto, de repente, chamou a atenção o barulho de um avião que sobrevoava a cidade. Não demorou, em frente à residência, estacionou um táxi trazendo um jovem rapaz vestindo galante uniforme azul da Aeronáutica. Infelizmente, o elegante oficial que desembarcava era o namorado da filha do General. A moça, ansiosa, não aguardou a entrada da sua paixão. Veio correndo do interior da residência e, chamando-o de meu amor, se jogou nos braços do rapaz.

A romântica cena aconteceu a poucos metros da guarita e diante dos olhos frustrados do nosso humilde soldado. O castelo de sonhos construído naquela tarde desabou completamente.



*extraído do livro "Conte Essa, Conte Aquela - Histórias de Antônio Ulisses

terça-feira, 21 de abril de 2009

30 - A CAIXA DA RODOVIÁRIA

Quando estudei em Fortaleza, aos cuidados da minha querida avó Maria Amélia, toda tarde de domingo eu ia à Rodoviária apanhar uma caixa com mantimentos enviada de Várzea Alegre por meu pai. Eu não era o único. No mesmo dia, vários adolescentes cumpriam meio a contragosto aquela tarefa, que findava se transformando em um agradável encontro de estudantes.

Nas várias caixas de papelão, bem amarradas com barbantes, despachadas do sertão, havia um pouco de tudo. Não faltava feijão verde, paçoca de carne seca, queijo de coalho, carne de criação, tijolo de leite, bolacha maria e cream cracker, mariola, pasta kolynos, sabonete phebo. E, claro, algumas barras da apreciada e indispensável rapadura.

Em um desses domingos, depois de muito procurar no bagageiro do ônibus, fui informado por seu Guimarães, conhecido motorista da empresa Vale do Jaguaribe, que meu pai não estivera naquela manhã no ponto de Zé de Ginu, onde costumeiramente despachava a caixa.

Quando voltei para casa ainda sem entender o acontecido, minha avó admitiu que meu pai telefonara pela manhã avisando que não enviara a encomenda naquele domingo. Eu fiquei inconformado por não ser alertado, pois aproveitaria para assistir no castelão ao clássico rei – Ceará versus Fortaleza. Minha querida avó, com seu jeito original de controlar as coisas, certamente temendo que eu me viciasse no futebol do domingo e largasse a responsabilidade semanal da caixa, buscou em vão me convencer:

- Flavin, foi bom você ter ido pra rodoviária mesmo. Vai que seu pai se enganou e mandou a caixa.

domingo, 19 de abril de 2009

29 - BARAÚNAS

Na fase adulta reaparece com mais ênfase aquilo de bom e marcante da nossa infância. Nos últimos anos, pensamentos recorrentes surgiram em minha mente trazendo ótimos momentos vividos em passeios pela zona rural de Várzea Alegre e municípios vizinhos. Adorava ir para São Cosme, Cajazeiras, Cotovelo, Baraúnas, Vacaria e outros sítios.

Quando visitava Baraúnas, dos meus tios Valter e Rita, receava dormir, pois temia que aquele tão esperado momento fosse apenas um sonho. Ali eu fazia tudo que criança adora. Corria livremente, brincava, caçava armado com baladeira, assistia a lida diária com os animais, observava o duro trabalho no campo. Éramos recebidos com uma irretocável hospitalidade. Tanto nossos tios, como os primos Vanusa e Romeu, nos acolhiam nas Baraúnas com enorme carinho e atenção.

Tio Válter nos deixava circular pelos currais, armazéns, riachos e roças. Apresentava um cuidado especial no tratamento dos animais, especialmente com os cavalos. Eduardo Bitu, também sobrinho e freqüentador do lugar, afirmou que até hoje se recorda da maneira detalhista e cuidadosa como o Tio Válter se vestia e preparava seu animal para as Cavalhadas e Vaquejadas.

Por um curto tempo, a alegre Vanusa passou a estudar em nossa casa na sede do município. Já eu, menino, não era muito receptivo em meu terreiro. Certo dia, quando servido o almoço, reparando o acentuado apetite da menina Vanusa, comentei:

- Tio Válter devia mandar um saco de arroz da Baraúna na bagagem de Vanusa.

sábado, 18 de abril de 2009

28 - GUIA RODOVIÁRIO



Meu tio Sérgio Pinto de Carvalho, conhecido comerciante de Várzea Alegre, sempre apreciou o estudo de mapas rodoviários. Mesmo antes dos atuais e modernos guias de estrada e sistemas de localização por GPS, ele já conhecia todas as distâncias e percursos entre as principais cidades.



Por uma época, para facilitar o transporte das suas cargas, tio Sérgio adquiriu um caminhão marca Mercedes-Benz juntamente com o comunicativo Raimundo Bezerra de Queiroz, Barroso.


Sempre que o caminhão seguia suas viagens, conduzido por Barroso, tio Sérgio, do seu birô, acompanhava todo o roteiro através dos mapas existentes em seu Armazém.


Numa das viagens, com previsão de poucos dias, o experiente Barroso demorou o dobro do tempo esperado para voltar a Várzea Alegre. Bastou estacionar o caminhão em frente ao Armazém, tio Sérgio foi logo cobrando:


- Barroso, por que você demorou tanto tempo?


- Sérgio, seu mapa mostra os buracos e atoleiros da estrada do algodão ?


Como os mapas não conseguiam acompanhar o surgimento dos buracos e atoleiros de nossas sofridas estradas, tio Sérgio e Barroso resolveram negociar o caminhão.


(imagem Google)

sábado, 11 de abril de 2009

27 - A MÍMICA DA PROFESSORA



Visitando o meu Ceará mato a saudade de lindas paisagens. Nesta época de chuvas, numa incrível mudança, o verde toma conta de boa parte do cenário. Bem diferente dos meses de setembro a dezembro, chamados borrobros, quando a cor cinza monopoliza as imagens do sertão.

Observando a bucólica paisagem e sua incrível mudança de cores, lembrei das aulas na sexagenária Escola de Primeiro Grau José Correia Lima, quando minha mãe Terezinha tornou-se também minha professora. Era o ano de 1977 e eu cursava a terceira série do falecido primeiro grau, hoje ensino fundamental.

Toda a turma estava reunida resolvendo uma prova escrita de geografia. Em cópias reproduzidas no velho mimeógrafo, com uso de estêncil e em papel com cheiro de álcool, os ansiosos alunos buscavam responder várias perguntas, entre as quais a seguinte: Qual a vegetação típica do semi-árido nordestino ?

No meio da turma, meu querido colega Francisco Eduardo Bitu de Freitas, sempre muito traquino e esperto, passou a insistir com a professora:

- Tia Terezinha, por favor, dê só uma dica dessa questão.

Depois de muita insistência de Eduardo, a professora, diante de toda turma, fez apenas um gesto, com uma das mãos abanando na frente do nariz.

O persistente e astuto aluno Eduardo preencheu e devolveu sua prova com a resposta esperada: CAATINGA. Porém, no exame escrito de outro estudante, a professora encontrou uma surpreendente resposta: BUFA.

Minha mãe guarda a sete chaves o nome do estudante, pois, mesmo com nossa imensa curiosidade, até hoje não revelou quem foi o autor da original resposta da prova de geografia.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

26 - 147 DA SORTE




O modelo 147, produzido em Betim a partir de 1976, marcou a chegada da Fiat no Brasil. O controvertido veículo da montadora italiana, embora cheio de inovações para a época, construiu uma fama pouco recomendável. É raro encontrar alguém com saudade do seu Fiat 147.

Eraum final de tarde de sexta-feira, na movimentada Avenida Caxangá, em Recife, quando o engenheiro Irapuan Costa parou seu 147 em um semáforo. Puan, como conhecido, aguardava o sinal verde, momento em que foi surpreendido por um forte barulho de freio. Um Mercedes de luxo, após deslizar no asfalto, tocou levemente no pára-choque traseiro do seu Fiat. Pelo retrovisor, viu descer do carro uma mulher de meia idade, bem vestida, que, bastante nervosa, foi logo dizendo:

- Querido, mil desculpas, eu vinha dirigindo preocupada com os meus negócios e mal percebi o sinal fechado, visse. Mas o senhor não sofrerá nenhum prejuízo, visse.

A motorista abriu sua bolsa, retirou várias notas, e, sem sequer conferir, entregou a Irapuan. Ainda meio atordoado com a inesperada reação da motorista, Irapuan guardou o dinheiro no bolso e foi ver as avarias em seu carro. O choque causara apenas um pequeno arranhão no pára-choque, que não resistiria a um simples polimento.

O dinheiro chegou na hora certa. Não para conserto do velho carro, mas para remediar a liseira daquele final de mês. Puan comprou um jogo de pneus para o Fiat, quitou umas dívidas pendentes e ainda sobrou uma boa quantia para as cervejas do final de semana.

Meu tio Antônio Ulisses contava que depois daquele dia, toda sexta-feira, Puan parava seu Fiat 147 no mesmo sinal da Avenida Caxangá e esperava ansiosamente uma milagrosa batidinha do Mercedes.

(imagem Google)

terça-feira, 7 de abril de 2009

25 - BANCO DE ZAQUEU



Em duzentos anos de história o Banco do Brasil acumulou gigantesco patrimônio e invejável credibilidade. Recentemente, a instituição financeira criada por Dom João VI anunciou um patrimônio líquido de mais de trezentos e noventa bilhões de reais.

A casa bancária possui mais de doze mil postos de atendimentos em todo país. Uma das suas milhares de agências está localizada em Várzea Alegre, no centro-sul cearense.

Na década de oitenta, o folclórico agricultor e poeta popular varzealegrense Zaqueu Guedes se dirigiu até o Banco do Brasil no interesse de contrair um empréstimo para financiamento de equipamentos agrícolas.


O gerente, muito educado, pediu para Zaqueu se sentar, ofereceu um cafezinho e perguntou:

- Seu Zaqueu, quanto o senhor pretende financiar?

O agricultor, com seu jeito de matuto desinibido, logo respondeu:

- Meu gerente, diga primeiro quanto o banco tem no cofre para emprestar.

terça-feira, 31 de março de 2009

24 - CHICO NENEN

Sou o pior contador de histórias e o menos espirituoso da família. Por isso decidi apenas registrar passagens que escuto. Assim, me escondo por trás das palavras. Já meus tios maternos sempre possuíram uma apurada veia para o humor. Como bons cearenses, nunca escolheram ocasião para fazer graça nem lugar para descontrair o ambiente.



Certo dia, após a perda de um ente querido, minha avó Maria Amélia, com sua fortaleza interior, reuniu os familiares em sua casa para oração a Deus e palavras de conforto. Com sabedoria, lembrou do caráter passageiro da vida terrena, ressaltando que após a morte temos a certeza da paz eterna.



Meu tio Francisco da Chagas, o Chico Neném, encostado em um canto da sala, ouviu atentamente as sábias e confortadoras palavras. Mas, na saída, ainda abalado, tirou o polegar direito da boca e, com sua voz grave, retrucou:



- Mãe, me perdoe, eu não sei se tem paz eterna depois da morte, mas pá e terra eu garanto que tem.



Colaboração: Rosa Amélia Costa Macedo

segunda-feira, 30 de março de 2009

23 - DISPENSA VAZIA



O meu olhar mais distante para o passado já alcança Antonia Alves Bezerra, Tonha, morando na casa de meus tios Sérgio e Rosa Amélia. Por várias décadas, com completa dedicação e carinho, Tonha contribuiu para a boa criação dos filhos do casal.



Mulher simples, não frequentou escola nem se interessou por ampliar seus conhecimentos. Sua vida se restringiu apenas a cuidar das seis filhas e do único filho varão dos meus tios.



Certo dia, tia Rosa Amélia saiu e deixou as quatro primeiras filhas - Romélia, Rosélia, Rosânia e Rosiana - aos cuidados da recém chegada Tonha. Ainda desacostumada com a rotina da casa, a nova babá perguntou à patroa se era pra dar comida para as crianças, recebendo uma resposta um pouco ríspida:



- Tonha, é lógico que tem que dar, lógico que tem.



Ao voltar para casa, poucas horas depois, tia Rosa Amélia encontrou as filhas irritadas, principalmente a bebê Rosiana, conhecida por sua gulodice, que chorava compulsivamente. A mãe, logo percebendo tratar-se de fome, buscou saber o motivo pelo qual a babá não dera o mingau às crianças. Tonha, com seu jeito rude de falar, foi logo dizendo:



- Diacho, eu cacei na dispensa e num achei “lógico” pra mode fazer o mingau das meninas.



Colaboração: professora Rosânia de Carvalho Costa
(imagem Google)

domingo, 29 de março de 2009

22 - MUNDIN E O IRMÃO

Mundin do Sapo, citado na postagem a eloqüência do Matuto, era capaz de saídas bem humoradas em qualquer situação. Nem mesmo o momento delicado de uma doença na família era capaz de bloquear sua inspiração.

Na década de setenta, seu irmão João Alves de Meneses, respeitado pecuarista e agricultor, foi abatido por uma grave doença. Ardendo em febre, João do Sapo, como era conhecido, embora acamado passou a se comportar como se tangesse uma grande boiada. Na sua imaginação, atravessava os animais pela águas do Riacho do Machado, córrego intermitente que corta grande área de terras férteis em Várzea Alegre. A alucinação da febre trouxe à mente do enfermo sua lida diária com o gado.

Mundin, que prestava assistência ao lado da cama, vendo seu querido irmão suar em calafrios e sofrer com ininterruptas dores de barriga, não deixou passar em branco, desconcertando todos os presentes:

- Meu irmão, aproveite, alivie a barriga da desinteria e tome um bom banho na passagem pela cheia do Machado.



Colaboração: Francisca Meneses Costa, dona Franci.