sábado, 15 de agosto de 2009

74 - CAIXOTE MÁGICO






        Fundada em setembro de 1950 por Assis Chateaubriand, a TV Tupi de São Paulo foi a primeira emissora de televisão do Brasil. Porém, a revolucionária invenção do escocês John Baird demorou a se espalhar pelo restante do país, especialmente pelas pobres regiões do nordeste.

        Fugindo das intempéries do sertão cearense, o ferreiro Chico Basil viajou para São Paulo logo no início da metade do século passado. Na progressista região teve a oportunidade de conhecer o impressionante invento.

        Depois de um bom tempo trabalhando na terra da garoa, na volta para o Ceará Chico logo explicou para o seu velho pai, Antônio Basil de Oliveira, a novidade do sul:

        - Papai, o sinhô carece vê uma coisa que tem no São Paulo. É uma caixa de madeira que daqui de Várzea Alegre nós enxerga e ouve uma pessoa que tá conversando lá nas bandas das Lavras da Mangabeira.

        O cético sertanejo Antônio Basil logo retrucou:

        - Chico, meu fi, deixa de leriado*. Eu ainda tou custando** a acreditar na caixa que só fala e já vem com outra que enxerga o povo que noutras paragens.

 
* vocábulo cearense que significa “conversa fiada”
** flexão do verbo custar, que, no ceará, é sinônimo de demorar
(imagem Google)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

73 - GRAVIDEZ INDESEJADA



         Nesta época de rígidas imposições estéticas, a busca pelo corpo perfeito virou obsessão para inúmeras pessoas. Os homens anseiam possuir formas de Deus grego; as mulheres, silhuetas de atrizes e modelos famosas. Embora o excesso de peso se torne cada vez mais comum, ser gordo está completamente fora de moda.

          Não bastasse, os obesos são alvos preferidos de maliciosas piadas e tratados por ridículos apelidos. Ninguém consegue escapar ileso, nem mesmo o famoso jogador de futebol “Ronaldo Fenômeno”, costumeiramente tratado por gorducho.

         O varzealegrense Alberto, proprietário da Casa Zé Augusto, por conta do seu aguçado apetite, sempre cultivou uma barriga protuberante.

         Certo dia, em seu concorrido bar, escutou o comentário e a maliciosa pergunta de um gaiato freguês:

        - Eita que barriga grande, Alberto! Quando a criança vai nascer?

        A resposta do espirituoso comerciante foi imediata:

       - Tá nascendo. O braço já tá no lado de fora. Puxe aqui.


(imagem Google)

sábado, 8 de agosto de 2009

72 - ROMEIRO EM SALVADOR




         Todo turista costuma trazer lembranças de suas viagens, especialmente miniaturas dos pontos turísticos que visita. Assim, quem vai a Paris compra miniaturas da famosa torre construída por Gustave Eiffel para Exibição Universal de 1889. Indo ao Rio de Janeiro é de praxe adquirir pequenas cópias do belo monumento Cristo Redentor, inaugurado em 1931. Aqueles que vêm à Macapá não deixam de buscar pequenas réplicas da imponente Fortaleza de São José, encravada na margem do Rio Amazonas desde a segunda metade do século XVIII.

         Meu querido primo Sérgio Ricardo, no início da década de 70, ainda criança, acompanhou seu pai Sérgio Carvalho em uma viagem para a distante cidade de Salvador. Logo na visita ao centro histórico do Pelourinho, Sergin não esqueceu de pedir dinheiro ao pai a fim de comprar lembranças para suas irmãs Romélia, Rosélia, Rosânia, Rosiana, Rogéria e Romênia.

         No retorno para a pequena Várzea Alegre, o garoto imediatamente entregou as recordações da viagem. Para surpresa das seis irmãs, em vez de réplica do conhecido Elevador Lacerda ou de outros belos monumentos da capital baiana, Sergin trouxe para cada uma das Ro’s uma caneta bastante fabricada e vendida na vizinha Juazeiro do Norte. No singelo presente continha a frase "lembrança de Padre Cícero Romão Batista".


(imagem Google)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

71 - LÍQUIDO PRECIOSO




           Desde que D Pedro II deu a ordem para construção do açude do Cedro em Quixadá, o Estado do Ceará recebe a passos lentos alguns investimentos na busca de armazenamento de água e luta contra a temível seca.

         Mesmo demorando quase cem anos para sua concretização, o açude Olho D’Água, inaugurado em 1998, significou enorme avanço para o progresso de Várzea Alegre. Antes da barragem sobre o riacho do Machado, o sofrível abastecimento de água era complementado por carroças pipas que circulavam diariamente pelas ruas vendendo o precioso produto.

         Como a água encanada só chegava às torneiras por poucas horas da noite, meu querido pai, Luiz Cavalcante, providenciou a construção de uma grande cisterna em nossa casa.    Porém, o motor que adquiriu sempre apresentava defeito, não conseguindo bombear o líquido da cisterna até a caixa d’água. Vários técnicos foram levados para ver o equipamento, mas o problema continuava. Até que um dia o positivo e irreverente Carlin de Dalva, chamado para consertar o defeito, foi logo condenando a máquina:

         - Seu Luiz, essa bomba não tem jeito não, é fraca demais pra levar a água até a caixa.

         Meu pai, temendo o novo gasto, apontando para o alto coqueiro do quintal, respondeu:

        - Carlin, esse pé nunca teve bomba e chega água nos cocos lá nas alturas.


Colaboração: André Costa Tanaka
(imagem Google)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

70 - MACARRONADA DE FERREIRO




        Por muito tempo a simplicidade do cearense de Várzea Alegre também se revelou nos seus hábitos alimentares. O cardápio pouco variava, não ia muito além dos tradicionais e apetitosos mungunzá, baião de dois, feijão com pão de milho e pão de arroz.

         Na seca de setenta, depois de arrumar um serviço nas frentes de emergência do governo e por a mão em um raro dinheiro extra, o ferreiro Chico Basil resolveu fazer umas compras na budega de Zé Manga Mucha. Entre os produtos adquiridos levou para casa um pacote de macarrão da marca Pilar para sofisticar e variar um pouco suas refeições.

         Ao chegar, ansioso por saborear a novidade, pediu logo a sua velha e magra mãe, de nome Senhora, que preparasse o macarrão para o almoço. Sem nenhum costume com a massa, dona Senhora, em vez de cozinhar, fritou a novidade com banha de porco em uma panela de barro na trempe* do fogo a lenha.

        Quando Chico recebeu o prato contendo o macarrão, decepcionado, reclamou:

        - Mamãe, eu pidi pra mode fazer foi macarrão, num foi fazer palito de gaiola de passarin não, mamãe. Ta duro que só pedra de calçamento!


*As três pedras sobre as quais se apóia a panela quando levada ao fogo.
Colaboração: Jonas Morais
(imagem Google)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

69 - XÔ STRESS




         Não há como evitar os aborrecimentos naturais do dia-a-dia. No curso natural da vida o homem vive inúmeros momentos de stress, quando acontece uma reação do corpo a fatores externos desfavoráveis.

         O mal já existia antes mesmo do termo stress ser usado pela primeira vez na primeira metade do século passado. Contudo, encontrou ambiente ainda mais favorável a sua disseminação no apressado, agitado e competitivo mundo dos dias atuais.

        Os profissionais da área de psicologia recomendam várias maneiras de combater o problema, que vão desde a busca de uma alimentação saudável, a prática de exercícios físicos regulares, até a ingestão de medicamentos.

        Porém, o honesto e trabalhador Joaquim Bitu, agricultor que se tornou um próspero comerciante em Várzea Alegre, na sua simples sabedoria de matuto, há décadas desenvolveu uma técnica especial para combater os momentos de turbulência do cotidiano.

        Diante de um aborrecimento ou chateação provocado por qualquer pessoa, o saudoso Joaquim Bitu não deixava transparecer o seu sentimento de indignação. No mesmo instante praticava um gesto que aliviava suas tensões. Com discrição, montava com o dedão da mão direita um obsceno cotoco, escondendo-o no bolso da frente de sua folgada calça de brim bege.


(imagem Google)

domingo, 2 de agosto de 2009

68 - MISTURANDO OS SANGUES




        Após se conhecerem em Fortaleza e namorarem por um período, a bela varzealegrense Paula Goretti e o japonês Harumi Tanaka decidiram contrair núpcias. O casal escolheu a cidade da noiva, a pequena Terra do Arroz, para realizar a cerimônia.

        Para o casamento religioso, ocorrido em 1978, vários parentes do nubente japonês vieram à Várzea Alegre. Na época, a pequena cidade sofria com o isolamento e não costumava receber visitas de pessoas de outros paises, muito menos oriundos da distante terra do sol nascente.

         O pai do noivo, Saburo Tanaka, sobrevivente das bombas da 2ª Guerra Mundial, veio de Castanhal, Estado do Pará, onde vivia em uma comunidade isolada, mantendo as tradições e a língua japonesa.

         No dias de confraternização, em que pese a simpatia dos cearenses e a paciência dos japoneses, aconteceram pequenos choques no encontro de culturas e línguas totalmente diferentes. De um lado, a sofrida e extrovertida tradição sertaneja, do outro, a milenar e circunspeta civilização oriental.

         Chamou a atenção a forma dos japoneses se cumprimentarem. Meu pai Luiz Cavalcante, muito hospitaleiro, na chegada da comitiva nipônica foi logo dando a mão, mas ficou sem jeito, com o braço estendido, e sem saber como retribuir o gesto sereno e simples de abaixar a cabeça dos visitantes.

         Os anfitriões estranharam a forma como uma irmã do noivo lia um livro em japonês. Em vez de seguir a frase na horizontal como na escrita ocidental, a leitura da japonesa se dava de cima pra baixo.

         Atualmente ninguém mais se surpreende com a presença de orientais na pequena Várzea Alegre, pois além da globalização e do melhor acesso a informações, a qualquer hora é possível encontrar um descendente do estranho Saburo Tanaka caminhando sobre os paralelepípedos das ruas da cidade.

Colaboração: André e Alan Costa Tanaka

sábado, 1 de agosto de 2009

67 - DÚVIDA





         Em 1970 minha avó materna Maria Amélia se mudou para Fortaleza. No mesmo caminho seguiram seus filhos solteiros Francisco das Chagas, Maria Zélia, Paulo Danúbio e Paula Goretti. Dos não casados, apenas Antônio Ulisses ficou em Várzea Alegre.

        Em dúvida sobre a mudança para Fortaleza, onde já morara cumprindo o serviço militar obrigatório, Antônio Ulisses escolheu o acolhedor comércio de Alberto para curtir a saudade da mãe e dos irmãos e meditar acerca de sua ida ou não para a Capital Alencarina.

         O sagaz Alberto, conhecedor da angústia do amigo, pôs para tocar a música Daqui Pra Lá no volume máximo da radiola do bar:

     Não sei se vou, não sei se fico,
     Se eu fico aqui, se eu fico lá.
     Se estou lá tenho que vir
     Se estou aqui tenho que voltar.

         Sozinho em uma mesa, tomando cerveja e pensando na vida, Antônio Ulisses, apenas com um gesto na mão, toda hora pedia a Alberto para voltar a música. A melancólica cena entrou na madrugada e se repetiu durante todo o final de semana, até porque o dono do bar adorava “dar corda” e aperrear seu amigo Antônio Ulisses.

         Na segunda-feira seguinte, logo pela manhã, Antônio Ulisses foi até o escritório do usineiro Joaquim Diniz para apanhar alguns sacos de estopa para guardar algodão. O simpático empresário, morador da Rua Duque de Caxias, próximo ao Bar de Alberto, surpreendeu com o comentário:

        - Afinal, Antônio Ulisses, você vai ou fica? Se não decidiu pelo menos vire o disco. Eu e Balbina já ouvimos demais aquela música.


(imagem Google)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

66 - POLTRONA VAZIA





        O espírito de migrante corre na veia do nordestino, especialmente nas do cearense do sertão. Assim, o varzealegrense já nasce acostumado com a idéia de logo após completar a maioridade e obter a carteira profissional (CTPS) buscar oportunidades em outras terras. Como gerações anteriores já trilharam o mesmo caminho, o sertanejo já não se assusta tanto com a idéia da migração.

       Porém, como observado nos versos melancólicos da “Triste Partida”, do inesquecível poeta Patativa do Assaré, não há como evitar sofrimento nesses momentos de adeus.

        Em Várzea Alegre, durante vários anos, os ônibus com destino a São Paulo, lotados de novos migrantes, partiram da Rua Duque de Caxias, em frente à Casa Zé Augusto. Alberto, agenciador da empresa Itapemirim, além de despachar os passageiros e as bagagens, no momento da saída não descuidava do repertório das músicas tocadas em seu estrondoso aparelho de som.

         Os choros e abraços de despedidas eram embalados pelos versos da dupla Jane e Herondy “não se vá, não me abandone por favor, pois sem você vou ficar louco”. Ou, então, na voz marcante de Agnado Timóteo cantando “adeus, pampa mia. Adeus, vou para terras estranhas”.

         Antônio Ulisses, que, em uma manhã de sexta-feira acompanhou aquele sofrido espetáculo, bebendo cerveja no balcão da própria agência-bar, assim que o ônibus partiu, criticou seu amigo:

         - Alberto, você não tem coração. Como é que você toca umas músicas dessas, hôme? Você não chora com essas despedidas não?

        O simpático e irreverente comerciante, antes de sua gargalhada característica, respondia:

         - Antônio Ulisses, deixa de ser besta. Eu choro, choro muito, mas só quando vai duas poltronas vazias do Itapemirim.

(imagem Google)

quarta-feira, 29 de julho de 2009

65 - O CARREGADOR DE PINICO

           Há cinqüenta anos, poucas residências possuíam em seu interior banheiros e, por conseguinte, vasos sanitários. As convenientes suítes eram praticamente desconhecidas naquela época, sobretudo em pequenas cidades do interior cearense, como Várzea Alegre, onde ainda não havia, sequer, a cômoda água encanada.

          O banheiro da casa da Rua Duque de Caxias, como em todas as outras residências, era localizado bem no fundo do quintal. Seu acesso era bastante difícil, principalmente à noite, pois no trajeto era necessário descer vários degraus de escada.

          Rosa Amélia, irmã mais velha, durante o período noturno, após o dia de estafante trabalho, fazia suas necessidades em um penico. Logo pela manhã, encarregava Antônio Ulisses, ainda menino, de jogar os dejetos na distante cintrina, sob a promessa de pagar-lhe alguns tostões.

          Na época, Rosa Amélia, jovem e bonita, trabalhava no estabelecimento comercial de propriedade dos seus primos Toim e Joãozinho Costa, próximo da residência da rua Duque de Caxias, onde atualmente funciona o Armazém Itaúna, de Fabiana Menezes Costa. Antônio Ulisses, como não recebia o pagamento pela desagradável tarefa de transportar o penico e seu conteúdo para a retrete, ia para a porta do estabelecimento comercial de vendas de tecidos e, caminhando na calçada da loja, ameaçava sua irmã, falando:

         — Se não me pagar o que me prometeu, eu digo.

         Com isso, Rosa Amélia, mocinha nova, nervosa e envergonhada, cheia de pudores, sabedora das peraltices e da coragem de seu mano, cuidava logo de quitar tal dívida, sob pena de o irmão trazer a público o melindroso episódio do penico.



* extraído do livro “Conte Essa, Conte Aquela – Histórias de Antônio Ulisses”

sábado, 25 de julho de 2009

64 - PROCURANDO ÔNIBUS NO PALHEIRO




           Saguões de aeroportos e terminais rodoviários testemunham mais gente correndo que pistas de treinamento de velocistas. É impressionante o número de viajantes que chegam atrasados para o embarque.

       Minha querida avó materna Maria Amélia arrumava e fechava as malas uma semana antes da viagem para Várzea Alegre. Não bastasse, mesmo morando a poucos quarteirões de distância, ia para o terminal rodoviário de Fortaleza no mínimo três horas antes da partida do ônibus. Aos críticos de sua exagerada pontualidade, sempre respondia:

          - Você espera pelo ônibus, mas o ônibus não espera por você.

          Já Leônidas Siebra Leite, proprietário da cinqüentenária Casa Zé Augusto, há vários anos agencia em Várzea Alegre a venda de passagens para empresa Itapemirim. Alberto, como popularmente conhecido, por diversas vezes recebeu passageiros reclamando do horário da saída do coletivo para São Paulo.

          Numa dessas oportunidades, um conterrâneo residente na capital paulista, em férias pela Terra dos Contrastes, chegou bastante atrasado e não conseguiu apanhar o ônibus. Aborrecido, o varzealegrense com irreconhecível sotaque, reclamou com o agente:

           - meu, perdi o busão, ele se mandou muito cedo.

          O comerciante Alberto, com sua aguçada e desconcertante espirituosidade, remedando o sotaque do retardado passageiro, retrucou:

        - Qual é, cara? Perde um ônibus daquele tamanho, já pensou se fosse uma agulha?


(imagem Google)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

63 - FAIXA DE PEDESTRE




          A cada dia ruas e avenidas de nossas cidades se tornam mais complicadas para trafegar. Os avanços e melhoramentos da estrutura urbana não conseguem acompanhar o crescimento vertiginoso do número de veículos que ocupam nossas vias.
 
           Embora cause dificuldade a todos, são os que andam a pé que mais sofrem com o crescimento desordenado do trânsito. Com insuficiência de faixas de pedestres e passarelas, virou um tormento atravessar avenidas movimentadas de grandes cidades.

            Francisco Brasil de Oliveira, o ferreiro conhecido como Chico Basil, desde a década de cinqüenta viajou para a grande cidade de São Paulo e acompanhou o desenvolvimento da cidade. Nascido em Lavras da Mangabeira e radicado em Várzea Alegre, pequenas cidades do interior cearense, ele conta que sofreu muitas dificuldades no trânsito de São Paulo.

           Certa vez, Chico Basil buscou atravessar uma grande avenida paulista. Com várias faixas de rolamento, não conseguia sequer por o pé na via, pois inúmeros carros, ônibus e caminhões trafegavam pelo local nas duas mãos de direção. Depois de várias travessias frustradas, assustado com o barulho dos motores e buzinas, o ferreiro viu uma pessoa caminhando apressadamente pela calçada no outro lado da avenida e decidiu pedir ajuda:

          - Ei, como é que atravesso essa avenida? – gritou, desesperadamente, Chico.

          O apressado pedestre, do outro lado da movimentada via, sem dar muita atenção ao migrante cearense, respondeu:

         - Não sei cara, eu já nasci desse lado de cá.


(imagem Google)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

62 - A VACA MIUDINHA

          Antônio Ulisses sempre recebeu especial atenção e carinho de todos os seus parentes, sobretudo dos seus irmãos e irmãs.

          Sua irmã Aldair cooperou bastante no período da aquisição de parte do Sítio Santa Rosa de herdeiras de seu avô Dirceu. Sempre que Antônio Ulisses precisou de dinheiro para completar o negócio contou com o apoio irrestrito daquela sua irmã.

         Em busca de capital, vendeu algumas vacas a Aldair. Na ocasião, quando ligava para Fortaleza para tratar do negócio, fazia propaganda do animal, dizendo:

         — Aldair, a vaca é uma beleza, é grande, vistosa, é uma Betinha de Raimundo Alagoano.

         A comparação, para facilitar o negócio, servia para demonstrar o quão vistosa era a vaca, pois Betinha era conhecida por ser uma mulher com altura bem acima da média.

        Depois de algum tempo, passeando por Várzea Alegre, Aldair visitava o sítio Santa Rosa, aproveitando para dar uma olhada na sua nova aquisição.

        Conhecendo bem seu irmão e disposta somente a ajudá-lo, a compradora não era surpreendida quando via que a vaca adquirida era a menor do curral. Dessa vez, da porteira do curral, Antônio Ulisses mudava a comparação, dizendo:

        — Aldair, tá vendo? A vaca é pequenininha, mas é boazinha como Dinha de Saraiva.


* extraído do livro “Conte Essa, Conte Aquela – Histórias de Antônio Ulisses”

terça-feira, 21 de julho de 2009

61 - TAXÍMETRO CONTROLADO




          Atualmente, em grandes cidades como São Paulo, os motoristas profissionais utilizam modernos sistemas eletrônicos na escolha do melhor e mais rápido percurso para alcançar o destino. O navegador GPS ajuda os condutores perdidos nos complicados trânsitos das metrópoles.

          Contudo, mesmo com os novos equipamentos, ainda persiste o temor do viajante em uma cidade desconhecida. Saindo de aeroporto, rodoviária ou estação de trem, há sempre uma desconfiança no trajeto escolhido pelo taxista. Embora a maioria trabalhe honestamente há uma minoria de inescrupulosos que provoca a má reputação desses profissionais.

          Certo dia, o simpático Raimundo Alves de Menezes, varzealegrense conhecido por Mundin do Sapo, contra a vontade de seus familiares, decidiu viajar sozinho até Fortaleza. Chegando ao terminal rodoviário da capital, após cerca de oito horas dentro do ônibus, o caricato matuto apanhou um táxi e entregou ao motorista um papel amassado com o endereço.

         Na evidência de que o passageiro não conhecia a Capital, o motorista decidiu escolher caminhos mais logos para o destino. Porém, já prevenido das artimanhas dos taxistas, Mundin, na sua sabedoria simples de matuto, descobriu uma maneira rápida e barata de chegar ao endereço pretendido. Com seu jeito peculiar de pronunciar as palavras, com ar sério, disse:

        - Seu chofer, o queijo de mantêga que comi na parada do expresso* no Quixadá me deu uma caganeira danada. Ache logo o lugar anotado no papel. Ou vou obrar seu carro todin.


* sinônimo cearense para ônibus.
(imagem Google)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

60 - PEIXADA




          O açude de Orós, construído há cinquenta anos no árido sertão nordestino durante o governo do arrojado presidente Juscelino Kubtscheck, continua como uma das grandes atrações turísticas da região centro-sul cearense.

         No percurso para o enorme reservatório é obrigatório parar nas peixarias da vizinha Lima Campos. Todos os restaurantes do lugar oferecem delicioso almoço com o pagamento em sistema de rodízio.

          Em um desses inesquecíveis passeios de férias, no inicio da década de noventa, meu querido tio materno Paulo Danúbio patrocinou a ida de vários sobrinhos para a terra do famoso cantor Fagner. Depois de algumas divertidas horas no açude, os banhistas, no meio da tarde, com apetite aguçado, foram almoçar em um pequeno restaurante de Lima Campos. O proprietário do humilde comércio foi quem explicou as regras do rodízio:

          - Aqui adulto paga inteira e criança até dez anos paga apenas metade do preço. Pode comer peixe até o bucho quebrar.

          Foi um festival de comida. Peixe para todos os gostos: cozido, frito e assado. Tudo acompanhado com muito baião de dois, farofa e pirão. Em pouco tempo os banhistas se fartaram da sortida refeição. Com uma exceção, pois meu primo Dirceuzin, à época com uns nove anos de idade, continuou apreciando a boa comida. Toda hora, com muita simpatia, pedia algo para o proprietário:

         - Ei, seu Zé, avia, traz mais um pirãozin. Inda tem ova de Cumiratã ?

         Depois de várias idas e vindas à mesa do apetitoso banhista, o atencioso dono do restaurante se dirigiu ao professor Paulo Danúbio e rogou:

         - O senhor se incomoda de pagar inteira para esse gordin? Esse minino me engabelou*, não para de comer. Desse jeito tou lascado. Vai fechar minha peixaria.


*flexão verbal do verbo engabelar, de uso comum entre os cearenses, que significa enganar, iludir.
(imagem Google)

sábado, 18 de julho de 2009

59 - TELEGOLPE





         
         Antes de qualquer conflito doméstico, cabe logo esclarecer que o fato aconteceu quando eu era solteiro e morava em um pequeno apartamento do Bairro Buritizal, em Macapá.

          Em meados da década de noventa recebi uma conta mensal registrando vários telefonemas para países como Guiana, Suriname e outros. Para minha desagradável supresa, o valor da fatura veio quatro vezes maior que o normal.

            Imediatamente vesti o paletó e me dirigi para a loja de atendimento da privatizada TELEAMAPÁ, que à época funcionava na esquina da Rua São José com Avenida General Gurjão, no centro comercial de Macapá. Ao chegar, depois de alguns minutos de espera, fui atendido em um balcão, ao lado de vários outros consumidores.

          A jovem recepcionista, muito educada, perguntou qual o assunto da minha reclamação. Eu, com certa arrogância, fui logo falando:

         - Olhe aqui minha conta. Tem várias ligações internacionais, todas feitas de madrugada. Eu só ligo pro interior do Ceará, pra Várzea Alegre. E nem venham me dizer que outra pessoa fez a ligação que eu moro sozin.

         A jovem, sempre sorridente, comunicou-me que ia verificar o acontecido e passou a examinar a conta em seu terminal de computador. Após cerca de um minuto, levantou o olhar em minha direção e, polidamente, falou:

        - Senhor, esses números são do telesexo. São ligações internacionais porque as empresas foram proibidas de funcionar no Brasil.

        Duas senhoras que também eram atendidas me dirigiram um olhar de inquisidoras. Eu fiquei sem saber o que dizer. Havia esquecido daquelas ligações. Meses antes eu realmente sucumbira. Chegava sozinho em casa e, ao ligar a tevê, sempre aparecia uma bela moça, vestindo roupas sumárias, repetindo insistentemente: ligue, ligue, ligue.

        Vendo que aumentava o número de olhares a me avaliar, tomei a contestada conta das mãos da atendente, e, antes de sair às pressas, sem sequer agradecer, inventei:

         - Agora me lembrei. Foi aquele tarado do meu primo que veio passar uns dias lá em casa.


(imagem Google)

58 - LÍNGUAS DO BRASIL





           Espalhados em um país continental, brasileiros falam português de variadas formas. Mesmo com a imposicão de sotaques pelos meios de comunicação, em cada localidade se preserva o ritmo e a singular maneira de pronunciar as palavras. Contudo, essas diferenças não desagregam o país. Todos se entendem numa só língua, até os mais distantes. Em pouco tempo o Gaúcho do Chuí se comunica facilmente com o Amapaense do Oiapoque.

          Em Macapá, assim como em Belém, na pronúncia peculiar de alguns fonemas, logo que cheguei meu ouvido percebeu certo exagero, um excesso de chiadeira. Parecia panela de pressão fervendo. Bastou ouvir, por exemplo, pessoas dessas capitais informando um número do telefone:

         - Dixque para Treix, doix, doix, doix...

         Porém, como já fui adotado pelo Estado do Amapá desde o início da década de noventa, aqui e ali me flagro dando umas chiadas também. E na mistura com o ritmo carregado e meloso de cearense do cariri, minha fala se torna ainda mais esquisita.

          Desse modo, sempre que retorno à minha terra natal, Várzea alegre, busco policiar o meu sotaque temendo represálias de familiares e amigos. Assim, ainda dentro do ônibus, depois de passar pelo sítio Gamelas, quase chegando à Terra do Arroz, antes de avistar a torre da igreja de São Raimundo, repito baixinho, carregando bem na nossa forma de falar:

          - Titia tem tido muito apetite. Titia não tem hepatite.


(imagem Google)

sexta-feira, 17 de julho de 2009

57 - XERIFE DO SERTÃO






          Meu avô materno Antônio Alves Costa, em meados do século passado, foi nomeado Delegado de Polícia na pacata Várzea Alegre. Naquela época, não se exigia o bacharelado em direito como requisito para o provimento do importante cargo.

           Nada se passava na cidade sem o conhecimento prévio do pequeno destacamento policial. Contudo, as principais questões levadas à autoridade se limitavam a raptos de moças, conflitos de vizinhanças, cobranças de dívida e outras pequenas querelas.

          Certo dia, um nômade vendedor, vindo de longe, sem qualquer referência no local, solicitou uma conversa reservada com o Delegado e foi logo dizendo:

         - Seu Antônio, eu vim pedir sua proteção para vender meus produtos nesta cidade.

          O Delegado, conhecido por seu bom senso e rigorosos princípios morais, com sua voz rouca, logo respondeu:

          - Pode levar seu comércio tranqüilo. Fazendo as coisas direito o senhor não terá nenhum problema.

         Sem esconder a decepção, o estranho vendedor replicou:

        - Ora Seu Delegado, se fosse pra fazer as coisas direito eu não vinha pedir a autorização do Senhor.


Colaboração: André Costa Tanaka

quinta-feira, 16 de julho de 2009

56 - DESCLASSIFICADO





           Para garantir rapidez na venda de um veículo ainda não apareceu nada mais eficaz que o uso das tradicionais páginas de classificados. Foi dessa maneira, através do jornal Diário do Nordeste, que, no final da década de 80, o varzealegrense Antônio Valdemar de Souza, de apelido Balá, resolveu anunciar o seu conservado Ford Del Rey:

          "Vende-se Del Rey ano 81, modelo 82, versão “prata”, único dono, IPVA pago, bem conservado, preço de ocasião, tratar com Balá."

           A propaganda no periódico cearense permitiu o aparecimento de vários interessados na compra do Del Rey. Porém, mesmo elogiando as qualidades do carro, tais compradores não apresentavam proposta nem voltavam para fechar o negócio com o simpático proprietário.

           Um desses interessados, depois de examinar detidamente motor, pneus, pintura, e revestimento dos bancos, e ainda dar uma pequena volta com o carro, disse:

          - Senhor, o Del Rey tá aprumado, mas só tem duas portas. É ruim pra chegar no banco de trás.

         Balá, já meio aborrecido com a dificuldade para passar seu velho carro adiante, em um dos seus conhecidos repentes, retrucou:

        - Hômi, largue de besteira. Os ônibus da Vale do Jaguaribe que faz linha pra Várzea Alegre só tem uma porta, e mesmo assim carrega mais de quarenta passageiros. E, olhe, nunca ninguém reclamou.


Colaboração: Cezar Gregório, conhecido como Cézar de Romildo.
(imagem Google)

segunda-feira, 13 de julho de 2009

55 - CAFÉ NO CRATO


            Era 1953 e Terezinha contava apenas com dez anos de idade. Uma das filhas da numerosa prole do casal Antônio Costa e Maria Amélia, a garota nunca havia deixado as terras da pequena e isolada Várzea Alegre. Até que um dia recebeu o convite de seu avô materno, o industrial Dirceu de Carvalho Pimpim:

         - Terezinha, diga a sua mãe que você vai comigo e Dosa para a festa do centenário do Crato.

         O mês que faltava para a viagem inundou a imaginação da garota. Sem muitas referências, pensou inicialmente que Crato era apenas um sítio ou talvez uma outra pequena localidade com as mesmas limitações de sua humilde terra natal. Mas a intuição dizia que aquele passeio marcaria sua memória para sempre.

         Calçando alpercatas novas compradas por seu avô e trajando vestido especialmente feito por sua avó Madrinha Dosa, Terezinha finalmente seguiu para o Crato na boléia do caminhão misto de Toin Diniz. A menina não precisava falar. Seu silencioso e tímido rosto traduzia a enorme felicidade sentida naquele momento.

         Depois de cerca de quinze léguas de estrada sinuosa, o velho caminhão chegou ao Crato. A curta caminhada da parada da Rua Monsenhor Esmeraldo até à Senador Pompeu, no oitão da Igreja São Vicente, onde iriam se hospedar, já foi suficiente para impressionar a garota. Viu muito mais carros nas vias do que os únicos três que pouco circulavam por Várzea Alegre. A “Princesa do Cariri” estava em festa, pois além dos cem anos de emancipação, também seria retomada a exposição agropecuária após período de interrupção.

         Naquele proveitoso passeio, interessantes novidades surpreenderam os aguçados sentidos da pequena varzealegrense. Além de conhecer o trem, a menina ouviu o barulho do vôo rasante do avião que trazia para as festividades o vice-presidente Café Filho. Na elegante comitiva oficial, recebida pelo prefeito Doutor Teles Cartaxo e pelo governador Raul Barbosa, também vieram outros futuros presidentes, como o comandante da 10ª Região Militar General Castelo Branco e o Ministro do Trabalho João Goulart. Essas e várias outras graduadas autoridades passaram em revista pela rua enfeitada e miraram nos olhos admirados da menina.

          Ao voltar do sonho e desembarcar de volta à sua querida cidade, a menina, orgulhosa, cheia de novidades, ostentando um dourado relógio ganhado do avô, foi logo dizendo para as inúmeras crianças que a aguardavam:

         - Sabe quem eu vi no Crato bem de pertin? O presidente Café filho.
         Uma garota mais velha que ouvia a conversa, em flagrante despeito, resmungou:

        Oxe, besteira. Se danar daqui pro Crato só pra ver isso. Carecia não. Era só comprar uma quarta de café na bodega de seu Zé Augusto.

Colaboração: Terezinha Costa Cavalcante
(imagem Google)