quarta-feira, 30 de setembro de 2009

86 - TEREZINHA PÃO E VINHO





         O cine São Luiz também marcou a vida da minha mãe. Ao ler a postagem “lanterninha”, ela recordou detalhes da inauguração daquele belíssimo cinema. Era 1958 e Fortaleza ainda contava com cerca de quinhentos mil habitantes. Pela terceira vez Terezinha se mudava temporariamente para a Capital Alencarina. Aldair estava grávida de Maria Amélia e novamente precisou do auxílio e apoio da irmã mais nova.

         Naqueles dias, a cidade vivia um clima festivo por conta da nova casa de cinema do empresário cearense Luiz Severiano Ribeiro. Ainda pouco acostumada com as novidades da capital, Terezinha ficou deslumbrada com a possibilidade de assistir a um dos filmes da mostra de inauguração. Assim, levada por seu irmão João Costa, a menina foi ver a emocionante película espanhola Marcelino Pão e Vinho.

         Na famosa Praça do Ferreira, ainda na fila formada em frente à bilheteria do cinema, percebeu que aquele mundo era bem diferente da realidade da sua pequena Várzea Alegre. Os homens trajavam paletós bem cortados; as mulheres esbanjavam elegância em suas roupas. Ao contrário da opulência dos presentes, a pequena garota usava um modesto vestido de tecido comum na época - túlio, que seu pai ganhara em uma rifa.

        A história do menino criado por monges franciscanos, a imponência e a sofisticação do novo cinema e a aparência nobre dos expectadores permaneceram na sua imaginação.

        Depois de vários meses em Fortaleza, voltou para Várzea Alegre. No reencontro percebeu que uma amiga, também adolescente, crescera bastante. Embora não tenha aumentado sua estatura no tempo que permaneceu na capital, a pequena Terezinha logo se conformou, afinal vivera como gente grande na inauguração do tradicional Cine São Luiz.


(imagem Google)

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

85 - LANTERNINHA





          O sinal de televisão com qualidade, sem chuvisco e chiado, demorou a chegar ao sertão cearense. Somente no final da década de setenta, com o surgimento das antenas parabólicas e outros meios modernos de retransmissão, foi que passamos a acompanhar com regularidade os programas televisivos.

          Em férias escolares, quando eu viajava para Fortaleza me contentava em ficar o dia inteiro diante do aparelho de televisão vendo desenhos animados. Nada desviava minha atenção da Pantera Cor de Rosa, do Tom e do Jerry ou do Marinheiro Popeye. E se a televisão em preto e branco de minha avó Maria Amélia já me encantava, imagine ver uma comédia infantil na tela gigante de um moderno e confortável cinema. Pois, em uma dessas viagens, no ano de 1977, meu tio Paulo Danúbio me levou junto com meu primo Sergio Ricardo para assistirmos no famoso cine São Luiz ao filme campeão de bilheteria daquele ano: O Trapalhão Nas Minas do Rei Salomão.

          Encantados com a beleza do cinema, eu e Serginho nos divertíamos com as graças e estripulias dos personagens de Renato Aragão, Dedé Santana e Mussum. No meio do filme, fomos surpreendidos com um avião de papel que voara pela projeção e caíra sobre nós. Eu, de imediato, apanhei o avião, e o arremessei novamente. A sombra do avião foi projetada na grande tela.

          Pouco tempo depois chegou um senhor com uma lanterna na mão e chamou tio Paulo.  Os dois conversaram baixinho por algum tempo. Embora concentrado no filme, eu percebi que meu tio gesticulava muito e nos apontava insistentemente.

          Logo na saída do cinema, ainda na movimentada e tradicional Praça do Ferreira eu perguntei:

         - Ti Paulo, o que aquele homem da lanterna queria com o senhor?

         - Comigo nada. Ele queria era botar vocês pra fora. Não pode jogar papel pra cima. Atrapalha o filme. Ele só desistiu quando eu disse a ele assim: “Seu lanterninha esses mininos vieram do interior. Viajaram quase quinhentos quilômetros só pra ver os Trapalhões”.


(imagem Google)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

84 - SECANDO A PISCINA




          Não é só um sorriso fácil que desperta simpatia. Outros gestos, também nobres, permitem a afeição, a amizade e o reconhecimento de todos. Meu padrinho José Iran Costa, de bigode e cara fechada, não precisava mostrar os dentes para ser simpático. Sua vida pública e seus serviços prestados possibilitaram um elevado conceito entre as mais diversas classes sociais de Várzea Alegre. Sem esquecer que o dedicado médico possuía um jeito diferente e bem humorado de emitir suas opiniões e contar histórias.

          No Bairro Betânia ou no Sítio Baixio do Exu doutor Iran patrocinou inúmeros momentos de alegria. Certo dia, uma dessas festas já avançava por todo o final de semana como comum nos encontros da família. Seus filhos, sobrinhos e amigos bebiam e comiam sem parar. Em dado momento, seu irmão Irapuan comentou:

          - Iran, você devia mandar encher essa piscina. Não é bom a piscina ficar seca, pode até causar rachadura.

          O experiente médico, observando de longe o movimento dos incansáveis festeiros, tirou seu cigarro de fumo da boca e disse calmamente:

          - Irapuan, meu irmão, você é engenheiro e entende de rachadura. Mas quem é doutor nessas festas aqui na Betânia sou eu. Se com a piscina seca já faz três dias que eles bebem e comem a minhas custas. Você imagina se eu encher essa piscina.


*colaborador: Irapuan Costa
(imagem Google)

domingo, 13 de setembro de 2009

83 - BAIÃO 'VERSUS' PIZZA




          Com cerca de quatorze anos de idade, no à época isolado sertão cearense, meus hábitos alimentares eram bem ortodoxos. Em casa, como comum, o fogão funcionava de acordo com a rotina do mercado de carnes da cidade. Em cada dia da semana minha mãe servia um prato diferente. Lembro que toda sexta, dia da matança dos animais, tinha fígado de boi no jantar. No almoço do sábado, apreciávamos a “carne batida”, conhecida em outros lugares como picadinho. A deliciosa galinha caipira só enfeitava o cardápio do almoço dos domingos.

          Hoje lembrei que graças ao meu padrinho José Iran Costa conheci a culinária de outros lugares. Eu estava no Crato para passar apenas o dia curtindo o parque de exposições, e Iran Junior e seu pai convenceram meu pai para que eu ali permanecesse no tradicional evento do interior nordestino.

          Assim eu fiquei por mais uns dias no progressista Crato junto com doutor Iran e sua família. Foram dias inesquecíveis, repletos de divertimentos e novidades. Em um fim de tarde, fomos a um restaurante e nos foi servido algo diferente. Uma massa com coberturas coloridas trazida em uma forma arredondada. Eu estava sendo apresentado à pizza. Quando madrinha Lolanda me ofereceu o tradicional prato italiano, eu, garoto tímido, mesmo sem nunca ter provado da estranha comida, por não saber sequer como me servir, disse:

          - Obrigado madinha, eu não gosto dessa pizza.

          Assim, eu jantei com o meu padrinho Iran um tradicional baião de dois, enquanto com o canto do olho observava seus filhos Guilherme e Iran Junior, usando estranhos molhos vermelhos e amarelos, degustar a aparentemente saborosa massa italiana.


(imagem Google)

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

82 - GUIA ENFEZADO

         Os estudiosos em neurolinguística defendem que o cérebro só registra o não quando usado em uma negativa simples. Por outro lado, acompanhando uma imagem o não é ignorado pela mente. Assim, frases como não fume ou não beba, ao contrário do que se pretende, constroem imediatamente na imaginação de quem as ouve o cigarro ou a bebida.

         Meu tio materno João Gonçalves Costa ainda muito jovem deixou o sertão cearense e foi sentar praça* no sul do país. A partir daí não mais voltou a residir na pequena Várzea Alegre. Morando em lugares distantes, desenvolveu uma forma original de ensinar os recém-chegados a andar pelas grandes cidades.

         Sempre com os nervos à flor da pele, quando alguém precisava aprender um novo caminho para o trabalho ou para a escola o magro e mouco João Fosquin, contrariando a lei da atração e outras teses modernas de reprogramação mental, ensinava:

         - Tá vendo aquela igreja ali na frente? Não vá por ali. Se for por lá, você se perde. Vá por aqui – finalizava o impaciente guia, virando-se e apontando em direção oposta ao templo inicialmente referido.

* alistar-se nas forças armadas

sábado, 5 de setembro de 2009

80 - SLOW FOOD


        A agitação e a correria da vida moderna impõem a prática de refeições rápidas. Cada dia aumenta o número de estabelecimentos comerciais que oferecem o fast food. Sempre apressadas, muitas pessoas sequer sentam para ingerir o alimento, ocasião que ainda tratam de assuntos desagradáveis e inadequados para o importante momento.

         Mas no início do século passado, na cidade de Várzea Alegre, meu bisavô Dirceu de Carvalho Pimpim cultivava hábitos bem mais saudáveis. Mesmo com muitas propriedades e intensos negócios para administrar mantinha uma vida regrada e metódica.
         Seu Dirceu deitava e acordava cedo, ia à mesa para farto café da manhã, mantinha cuidado com a aparência física, estimulava a ingestão de frutas, se protegia do causticante sol do sertão cearense, lavava as mãos antes das refeições e já possuía em casa água encanada e banheira para completa higiene corporal. Para lazer e contemplação da família construiu uma casa no Brejinho, sítio próximo à sede do Município, e denominou Santa Rosa em homenagem à esposa Rosa Gonçalves de Carvalho, tratada carinhosamente por todos como "Madrinha Dosa".

         No ano de 1917, Dirceu e Rosa almoçavam em sua casa quando alguém surgiu repentinamente na sala de jantar. Percebendo que se tratava de assunto grave, o Coronel Dirceu se levantou e foi ver o que acontecia. Um homem trazia péssima notícia. O Padre José Gonçalves, da paróquia de São Raimundo Nonato, irmão de Rosa, fora encontrado morto no sítio Bonizário. Mesmo transtornado com a inesperada notícia do falecimento do seu querido cunhado, Dirceu calmamente disse ao mensageiro:

       - Pode deixar que eu mesmo aviso a “Dosa”.

       Com a certeza de que o horário das refeições é sagrado e não permite assuntos desagradáveis Dirceu voltou à mesa e continuou comendo. Só cerca de uma hora após o almoço, com a digestão dos alimentos praticamente concluída, chamou sua amada mulher e relatou a tragédia acontecida com o Padre José Gonçalves.

        Certamente, atitudes como esta influenciaram na longevidade dos meus bisavôs, pois o casal viveu por quase cem anos e completou mais de setenta e cinco anos de casados, comemorando bodas de diamante.

sábado, 29 de agosto de 2009

79 - REVELADO EM SONHO


          Para custear parte das despesas com a educação de seus vários filhos, o agricultor varzealegrense Raimundo Bitu, conhecido como Padim, durante algum tempo cultivou tabaco para produção de fumo nas terras baixas e férteis do sítio Sanharol. De afiado senso de humor e incontida irreverência, suas histórias representam o jeito simples e inteligente do homem do sertão.

          Certo dia, impedido de umas tragadas por conta da falta de dinheiro, Mané de Vó, nascido Manoel Inácio, morador do mesmo sítio, apelando para o sentimentalismo e saudosismo de Padin, disse:

         - Cumpade Raimundo, sabe com quem sonhei essa madrugadinha? Com tua mãe e ela mandou dizer que você me arrumasse uma rola de fumo.

        - Eita, cumpade, que coisa! Essa boca da noite dei um cochilo e sonhei com sua mãe também. Ela foi logo me dizendo, Raimundo peça pra Mané parar de fumar.

Colaboração: Francisco de Assis, conhecido como Tico de Mané de Vó.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

78 - RESERVA DE LUXO





         Por muitos anos o Estado do Ceará dominou o futebol de salão, sobretudo através do SUMOV, equipe que conquistou por seis vezes a Taça Brasil. A existência de inúmeras quadras para a prática do esporte certamente contribuiu para o aprimoramento dessa modalidade esportiva entres os cearenses.

         No início da década de 80 meu estimado primo Aeldo Costa Campos Júnior foi goleiro reserva da equipe de futsal do colégio em que estudava em Fortaleza. Embora bastante esforçado, sempre usando impecável material esportivo, o galego nunca conseguia atuar nos jogos, apenas esquentava o banco de suplentes.

        Porém, certo dia, em uma acirrada competição intercolegial, surgiu a tão esperada oportunidade de mostrar o seu potencial de arqueiro. Por conta de uma forte dividida com um jogador da equipe adversária, o goleiro titular sofreu uma grave lesão, torcendo o tornozelo. Enquanto o titular era atendido e se contorcia em dores, Aeldo Júnior começou a se alongar e iniciar o aquecimento. Os demais alunos do colégio, na torcida, pressentindo que finalmente veriam o enfeitado goleiro entrar na quadra, passaram a gritar pelo apelido do loiro goleiro reserva:

        - Arara, Arara, Arara...

         Entretanto, o técnico da equipe preferiu retornar com o goleiro titular, que não conseguia sequer firmar direito o pé inchado no chão e nem disfarçava seus gemidos e expressões de dor. Preterido por um atleta de um só pé, a decepção tomou conta de Aeldo Júnior. Não bastasse, em evidente zombaria, a torcida continuou a gritar:

       - Arara, Arara, Arara...


(imagem Google)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

77 - OURO BRANCO

           Nos últimos dias do mês de agosto Várzea Alegre vive uma grande festa. Na homenagem ao padroeiro São Raimundo Nonato, a cidade do sertão cearense recebe inúmeros visitantes e se emociona com a volta de milhares de varzealegrenses que migraram para diversos lugares do mundo. Além das intensas atividades religiosas, com salvas de fogos, novenas e procissão, o clima festivo toma conta da receptiva cidade, especialmente no parque de diversões e nas barracas instaladas nas ruas centrais.

           Ainda no auge da produção do algodão arbóreo, início da década de oitenta, antes da arrasadora praga do bicudo*, o agricultor Gilson Primo procurou o seu amigo Antônio Ulisses para vender várias sacas do “ouro branco”. Na verdade, se tratava de antecipação da safra, pois se aproximava o marco inicial das comemorações - dia do levantamento da bandeira - e Gilson buscava dinheiro para investir na ansiada festa de agosto. Sentado em sua cadeira de balanço na calçada alta do escritório de compra e venda de algodão e oiticica, localizado no início da “Rua dos Perus”, o corretor Antônio Ulisses perguntou:

          - Gilson, você vai querer quanto?

          O repentista e divertido agricultor, já imaginado onde e como gastaria o dinheiro, com sua forma pausada de articular as palavras, disse:

          - Antônio Ulisses, bote o que der, mas note aí na ficha de São Raimundo, pois vamo nas barracas trocar tudo por bagos de garrafa.



* Bicudo-do-algodoeiro (Anthonomus grandis) besouro responsável por importante praga agrícola nos E.U.A., introduzido no Brasil em 1983 e causador de enormes prejuízos nas plantações de algodão do sertão nordestino.(fonte: Wikipedia)

Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

76 - TURISTA




       Minha tia Rosa Amélia aceitou meu convite e dias atrás veio conhecer o Estado que me acolheu. Em apenas uma semana de passeio, com sua simpatia e contagiante disposição, saboreou da deliciosa vida no Amapá.

        Comeu várias doses de camarão no bafo na praia do bucólico distrito de Fazendinha. Ao lado da histórica igreja de São José, provou uma cuia do tradicional tacacá, servido na calçada da central e movimentada Rua São José. No Igarapé da Fortaleza tomou açaí "do grosso" misturado com farinha de tapioca. Foi à feira do produtor rural comprar castanha-do-pará, cupuaçu e molho de tucupi. Depois de visitar a Casa do Artesão, bebeu latas de cerveja com sal e limão preparada por Lourival. Em passeios pela orla, especialmente no “lugar bonito”, contando com a proteção das centenárias muralhas da bem conservada Fortaleza de São José de Macapá, se refrescou com a brisa soprada nas margens do gigantesco Rio Amazonas.

       No interior, no aprazível Município de Ferreira Gomes, antes de se deliciar com uma bem servida caldeirada de peixe, minha tia banhou-se feito criança nas águas límpidas do Rio Araguari, bem longe de sua foz e de onde acontece o famoso fenômeno da pororoca.

        É bem verdade que faz muito bem viajar, conhecer novos lugares, contatar pessoas e culturas diferentes. Mas para tia Rosa Amélia sua vinda ao Amapá trouxe ainda mais benefícios. Ao voltar para Várzea Alegre, fez o seguinte comentário:

        - Gostei tanto do passeio que cheguei me sentindo mais jovem e mais bonita. Só quando me vi no espelho do meu quarto notei que ainda continuava com as marcas dos meus setenta e cinco anos de idade.


(imagem Google)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

75 - O PEDIDOR DE ESMOLAS

          Com cerca de dez anos de idade, Antônio Ulisses viajou pela primeira vez à Capital do Estado. Foi passar férias na casa do seu irmão mais velho, o também saudoso João Costa, conhecido carinhosamente por João Fosquin, em razão do seu corpo esbelto.

          Já em Fortaleza, após percorrer os mais de 400km da longa viagem, o menino Antônio Ulisses, depois de descer do caminhão-misto, trazia debaixo do braço a rede onde dormiria naqueles dias de passeio pela capital alencarina. Desde criança, Antônio Ulisses foi desajeitado, descuidado e, naquela manhã, não percebeu que a rede havia desenrolado e os cordões do punho se arrastavam pelo chão.

           Ele seguia logo atrás do seu irmão e, em determinado momento da caminhada, em frente ao famoso Cine São Luiz, João se encontrou com um colega de trabalho. Também muito espirituoso, não quis apresentar aquele garoto esquisito como seu irmão e se dirigiu ao pequeno dizendo:

         — Eu já disse “perdoe” a este menino não sei quantas vezes e ele não larga do meu pé.


*Do livro Conte Essa, Conte Aquela - Hisotórias de Anônio Ulisses"

sábado, 15 de agosto de 2009

74 - CAIXOTE MÁGICO






        Fundada em setembro de 1950 por Assis Chateaubriand, a TV Tupi de São Paulo foi a primeira emissora de televisão do Brasil. Porém, a revolucionária invenção do escocês John Baird demorou a se espalhar pelo restante do país, especialmente pelas pobres regiões do nordeste.

        Fugindo das intempéries do sertão cearense, o ferreiro Chico Basil viajou para São Paulo logo no início da metade do século passado. Na progressista região teve a oportunidade de conhecer o impressionante invento.

        Depois de um bom tempo trabalhando na terra da garoa, na volta para o Ceará Chico logo explicou para o seu velho pai, Antônio Basil de Oliveira, a novidade do sul:

        - Papai, o sinhô carece vê uma coisa que tem no São Paulo. É uma caixa de madeira que daqui de Várzea Alegre nós enxerga e ouve uma pessoa que tá conversando lá nas bandas das Lavras da Mangabeira.

        O cético sertanejo Antônio Basil logo retrucou:

        - Chico, meu fi, deixa de leriado*. Eu ainda tou custando** a acreditar na caixa que só fala e já vem com outra que enxerga o povo que noutras paragens.

 
* vocábulo cearense que significa “conversa fiada”
** flexão do verbo custar, que, no ceará, é sinônimo de demorar
(imagem Google)

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

73 - GRAVIDEZ INDESEJADA



         Nesta época de rígidas imposições estéticas, a busca pelo corpo perfeito virou obsessão para inúmeras pessoas. Os homens anseiam possuir formas de Deus grego; as mulheres, silhuetas de atrizes e modelos famosas. Embora o excesso de peso se torne cada vez mais comum, ser gordo está completamente fora de moda.

          Não bastasse, os obesos são alvos preferidos de maliciosas piadas e tratados por ridículos apelidos. Ninguém consegue escapar ileso, nem mesmo o famoso jogador de futebol “Ronaldo Fenômeno”, costumeiramente tratado por gorducho.

         O varzealegrense Alberto, proprietário da Casa Zé Augusto, por conta do seu aguçado apetite, sempre cultivou uma barriga protuberante.

         Certo dia, em seu concorrido bar, escutou o comentário e a maliciosa pergunta de um gaiato freguês:

        - Eita que barriga grande, Alberto! Quando a criança vai nascer?

        A resposta do espirituoso comerciante foi imediata:

       - Tá nascendo. O braço já tá no lado de fora. Puxe aqui.


(imagem Google)

sábado, 8 de agosto de 2009

72 - ROMEIRO EM SALVADOR




         Todo turista costuma trazer lembranças de suas viagens, especialmente miniaturas dos pontos turísticos que visita. Assim, quem vai a Paris compra miniaturas da famosa torre construída por Gustave Eiffel para Exibição Universal de 1889. Indo ao Rio de Janeiro é de praxe adquirir pequenas cópias do belo monumento Cristo Redentor, inaugurado em 1931. Aqueles que vêm à Macapá não deixam de buscar pequenas réplicas da imponente Fortaleza de São José, encravada na margem do Rio Amazonas desde a segunda metade do século XVIII.

         Meu querido primo Sérgio Ricardo, no início da década de 70, ainda criança, acompanhou seu pai Sérgio Carvalho em uma viagem para a distante cidade de Salvador. Logo na visita ao centro histórico do Pelourinho, Sergin não esqueceu de pedir dinheiro ao pai a fim de comprar lembranças para suas irmãs Romélia, Rosélia, Rosânia, Rosiana, Rogéria e Romênia.

         No retorno para a pequena Várzea Alegre, o garoto imediatamente entregou as recordações da viagem. Para surpresa das seis irmãs, em vez de réplica do conhecido Elevador Lacerda ou de outros belos monumentos da capital baiana, Sergin trouxe para cada uma das Ro’s uma caneta bastante fabricada e vendida na vizinha Juazeiro do Norte. No singelo presente continha a frase "lembrança de Padre Cícero Romão Batista".


(imagem Google)

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

71 - LÍQUIDO PRECIOSO




           Desde que D Pedro II deu a ordem para construção do açude do Cedro em Quixadá, o Estado do Ceará recebe a passos lentos alguns investimentos na busca de armazenamento de água e luta contra a temível seca.

         Mesmo demorando quase cem anos para sua concretização, o açude Olho D’Água, inaugurado em 1998, significou enorme avanço para o progresso de Várzea Alegre. Antes da barragem sobre o riacho do Machado, o sofrível abastecimento de água era complementado por carroças pipas que circulavam diariamente pelas ruas vendendo o precioso produto.

         Como a água encanada só chegava às torneiras por poucas horas da noite, meu querido pai, Luiz Cavalcante, providenciou a construção de uma grande cisterna em nossa casa.    Porém, o motor que adquiriu sempre apresentava defeito, não conseguindo bombear o líquido da cisterna até a caixa d’água. Vários técnicos foram levados para ver o equipamento, mas o problema continuava. Até que um dia o positivo e irreverente Carlin de Dalva, chamado para consertar o defeito, foi logo condenando a máquina:

         - Seu Luiz, essa bomba não tem jeito não, é fraca demais pra levar a água até a caixa.

         Meu pai, temendo o novo gasto, apontando para o alto coqueiro do quintal, respondeu:

        - Carlin, esse pé nunca teve bomba e chega água nos cocos lá nas alturas.


Colaboração: André Costa Tanaka
(imagem Google)

terça-feira, 4 de agosto de 2009

70 - MACARRONADA DE FERREIRO




        Por muito tempo a simplicidade do cearense de Várzea Alegre também se revelou nos seus hábitos alimentares. O cardápio pouco variava, não ia muito além dos tradicionais e apetitosos mungunzá, baião de dois, feijão com pão de milho e pão de arroz.

         Na seca de setenta, depois de arrumar um serviço nas frentes de emergência do governo e por a mão em um raro dinheiro extra, o ferreiro Chico Basil resolveu fazer umas compras na budega de Zé Manga Mucha. Entre os produtos adquiridos levou para casa um pacote de macarrão da marca Pilar para sofisticar e variar um pouco suas refeições.

         Ao chegar, ansioso por saborear a novidade, pediu logo a sua velha e magra mãe, de nome Senhora, que preparasse o macarrão para o almoço. Sem nenhum costume com a massa, dona Senhora, em vez de cozinhar, fritou a novidade com banha de porco em uma panela de barro na trempe* do fogo a lenha.

        Quando Chico recebeu o prato contendo o macarrão, decepcionado, reclamou:

        - Mamãe, eu pidi pra mode fazer foi macarrão, num foi fazer palito de gaiola de passarin não, mamãe. Ta duro que só pedra de calçamento!


*As três pedras sobre as quais se apóia a panela quando levada ao fogo.
Colaboração: Jonas Morais
(imagem Google)

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

69 - XÔ STRESS




         Não há como evitar os aborrecimentos naturais do dia-a-dia. No curso natural da vida o homem vive inúmeros momentos de stress, quando acontece uma reação do corpo a fatores externos desfavoráveis.

         O mal já existia antes mesmo do termo stress ser usado pela primeira vez na primeira metade do século passado. Contudo, encontrou ambiente ainda mais favorável a sua disseminação no apressado, agitado e competitivo mundo dos dias atuais.

        Os profissionais da área de psicologia recomendam várias maneiras de combater o problema, que vão desde a busca de uma alimentação saudável, a prática de exercícios físicos regulares, até a ingestão de medicamentos.

        Porém, o honesto e trabalhador Joaquim Bitu, agricultor que se tornou um próspero comerciante em Várzea Alegre, na sua simples sabedoria de matuto, há décadas desenvolveu uma técnica especial para combater os momentos de turbulência do cotidiano.

        Diante de um aborrecimento ou chateação provocado por qualquer pessoa, o saudoso Joaquim Bitu não deixava transparecer o seu sentimento de indignação. No mesmo instante praticava um gesto que aliviava suas tensões. Com discrição, montava com o dedão da mão direita um obsceno cotoco, escondendo-o no bolso da frente de sua folgada calça de brim bege.


(imagem Google)

domingo, 2 de agosto de 2009

68 - MISTURANDO OS SANGUES




        Após se conhecerem em Fortaleza e namorarem por um período, a bela varzealegrense Paula Goretti e o japonês Harumi Tanaka decidiram contrair núpcias. O casal escolheu a cidade da noiva, a pequena Terra do Arroz, para realizar a cerimônia.

        Para o casamento religioso, ocorrido em 1978, vários parentes do nubente japonês vieram à Várzea Alegre. Na época, a pequena cidade sofria com o isolamento e não costumava receber visitas de pessoas de outros paises, muito menos oriundos da distante terra do sol nascente.

         O pai do noivo, Saburo Tanaka, sobrevivente das bombas da 2ª Guerra Mundial, veio de Castanhal, Estado do Pará, onde vivia em uma comunidade isolada, mantendo as tradições e a língua japonesa.

         No dias de confraternização, em que pese a simpatia dos cearenses e a paciência dos japoneses, aconteceram pequenos choques no encontro de culturas e línguas totalmente diferentes. De um lado, a sofrida e extrovertida tradição sertaneja, do outro, a milenar e circunspeta civilização oriental.

         Chamou a atenção a forma dos japoneses se cumprimentarem. Meu pai Luiz Cavalcante, muito hospitaleiro, na chegada da comitiva nipônica foi logo dando a mão, mas ficou sem jeito, com o braço estendido, e sem saber como retribuir o gesto sereno e simples de abaixar a cabeça dos visitantes.

         Os anfitriões estranharam a forma como uma irmã do noivo lia um livro em japonês. Em vez de seguir a frase na horizontal como na escrita ocidental, a leitura da japonesa se dava de cima pra baixo.

         Atualmente ninguém mais se surpreende com a presença de orientais na pequena Várzea Alegre, pois além da globalização e do melhor acesso a informações, a qualquer hora é possível encontrar um descendente do estranho Saburo Tanaka caminhando sobre os paralelepípedos das ruas da cidade.

Colaboração: André e Alan Costa Tanaka

sábado, 1 de agosto de 2009

67 - DÚVIDA





         Em 1970 minha avó materna Maria Amélia se mudou para Fortaleza. No mesmo caminho seguiram seus filhos solteiros Francisco das Chagas, Maria Zélia, Paulo Danúbio e Paula Goretti. Dos não casados, apenas Antônio Ulisses ficou em Várzea Alegre.

        Em dúvida sobre a mudança para Fortaleza, onde já morara cumprindo o serviço militar obrigatório, Antônio Ulisses escolheu o acolhedor comércio de Alberto para curtir a saudade da mãe e dos irmãos e meditar acerca de sua ida ou não para a Capital Alencarina.

         O sagaz Alberto, conhecedor da angústia do amigo, pôs para tocar a música Daqui Pra Lá no volume máximo da radiola do bar:

     Não sei se vou, não sei se fico,
     Se eu fico aqui, se eu fico lá.
     Se estou lá tenho que vir
     Se estou aqui tenho que voltar.

         Sozinho em uma mesa, tomando cerveja e pensando na vida, Antônio Ulisses, apenas com um gesto na mão, toda hora pedia a Alberto para voltar a música. A melancólica cena entrou na madrugada e se repetiu durante todo o final de semana, até porque o dono do bar adorava “dar corda” e aperrear seu amigo Antônio Ulisses.

         Na segunda-feira seguinte, logo pela manhã, Antônio Ulisses foi até o escritório do usineiro Joaquim Diniz para apanhar alguns sacos de estopa para guardar algodão. O simpático empresário, morador da Rua Duque de Caxias, próximo ao Bar de Alberto, surpreendeu com o comentário:

        - Afinal, Antônio Ulisses, você vai ou fica? Se não decidiu pelo menos vire o disco. Eu e Balbina já ouvimos demais aquela música.


(imagem Google)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

66 - POLTRONA VAZIA





        O espírito de migrante corre na veia do nordestino, especialmente nas do cearense do sertão. Assim, o varzealegrense já nasce acostumado com a idéia de logo após completar a maioridade e obter a carteira profissional (CTPS) buscar oportunidades em outras terras. Como gerações anteriores já trilharam o mesmo caminho, o sertanejo já não se assusta tanto com a idéia da migração.

       Porém, como observado nos versos melancólicos da “Triste Partida”, do inesquecível poeta Patativa do Assaré, não há como evitar sofrimento nesses momentos de adeus.

        Em Várzea Alegre, durante vários anos, os ônibus com destino a São Paulo, lotados de novos migrantes, partiram da Rua Duque de Caxias, em frente à Casa Zé Augusto. Alberto, agenciador da empresa Itapemirim, além de despachar os passageiros e as bagagens, no momento da saída não descuidava do repertório das músicas tocadas em seu estrondoso aparelho de som.

         Os choros e abraços de despedidas eram embalados pelos versos da dupla Jane e Herondy “não se vá, não me abandone por favor, pois sem você vou ficar louco”. Ou, então, na voz marcante de Agnado Timóteo cantando “adeus, pampa mia. Adeus, vou para terras estranhas”.

         Antônio Ulisses, que, em uma manhã de sexta-feira acompanhou aquele sofrido espetáculo, bebendo cerveja no balcão da própria agência-bar, assim que o ônibus partiu, criticou seu amigo:

         - Alberto, você não tem coração. Como é que você toca umas músicas dessas, hôme? Você não chora com essas despedidas não?

        O simpático e irreverente comerciante, antes de sua gargalhada característica, respondia:

         - Antônio Ulisses, deixa de ser besta. Eu choro, choro muito, mas só quando vai duas poltronas vazias do Itapemirim.

(imagem Google)