sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

114 - CAFÉ NO BULE





          Graças a Deus, Dona Benedita Gomes Fiúza, conhecida como Enedy, funcionária aposentada da Justiça Eleitoral, vem se recuperando de um problema de saúde.

        Em Várzea Alegre, Dona Enedy e seu esposo Delfonso mantém um agradável sítio no Baixio do Exu. Como o terreno rural fica bem próximo à sede do município, lá costumeiramente recebem visitas.

         Recentemente, bem cedo da manhã, ali chegou o espirituoso Carlin de Dalva, vizinho e amigo da família. Aproveitando-se da mesa do café posta, Carlin foi logo se servindo, comendo as tapiocas preparadas para a primeira refeição de Delfonso. Como o apetitoso visitante era de casa, dona Enedy reclamou:
 
         - Ei Carrin, o que é que faz aqui tão cedo? Num já acabou ontem a carroça que Delfonso encomendou?

        Mastigando a apetitosa tapioca e entre os goles do café quentinho, Carlin olhou para o filho de dona Enedy e falou:
 
       - Eduardo, tua mãe já tá boazinha, né ?

       - Por quê? - indagou Eduardo.

      - Porque ela já tá de novo com as piadinhas dos Fiúza.



Colaboração: Klébia Fiúza
(imagem Google)





domingo, 24 de janeiro de 2010

113 - MNEMÔNICA




        O professor Paulo Danúbio se mudou para Fortaleza desde o início da década de setenta. Mas, como a grande maioria dos varzealegrenses, adora passear em sua cidade natal. Todo feriado, folga ou férias viaja para Terra do Arroz.
 
        Quando ainda solteiro, o dinheiro curto nunca era suficiente para o longo período das férias em Várzea Alegre. Assim, Paulo deixava algumas contas penduradas com a promessa de mandar a quantia de Fortaleza pelo primeiro portador.
 
       Certa vez, já na capital alencarina, como sua mãe Maria Amélia viajaria para Várzea Alegre, pediu que ela levasse o dinheiro que ficara devendo a vários proprietários de bar. Um dos que mais recomendou o pagamento foi para Pingo, conhecido proprietário da Fina Flor, bar que por muitos anos funcionou no interior do mercado velho.
 
       Quando sua mãe retornou da viagem ao interior do Estado, ainda na rodoviária, Paulo perguntou:
 
       - Mamãe, a senhora pagou minhas contas?
 
       - Meu filho, paguei aos Cunés, Maria Araripe, Zé de Zuza, Toinha Boágua, só não consegui encontrar o tal de Gota.

 
(imagem Google)



sábado, 23 de janeiro de 2010

112 - CONTRAMÃO





        Só quando o homem abandonou os animais como meio de transporte para usar os veículos automotores surgiu a necessidade de regulamentação de sinais e de estabelecer outras normas de trânsito. Assim, as placas de “pare”, “contramão”, “proibido estacionar” e outras têm pouco mais de cem anos.
 
        As regras e punições surgiram inicialmente nas cidades maiores e mais ricas. Porém, como os carros e motocicletas invadiram o planeta, as pequenas cidades também precisaram organizar a circulação dos seus veículos.
 
         Recentemente algumas estreitas ruas de Várzea Alegre passaram a ter sentido único de trânsito, entre elas parte da Rua Coronel Pimpim, conhecida também por Rua dos Peru.
 
          Logo que houve a mudança, o agricultor e poeta popular Zaqueu Guedes subia em uma motocicleta pela Rua dos Peru quando foi abordado por um guarda de trânsito. Ao receber a informação de que não mais poderia seguir em frente, o extrovertido Zaqueu reclamou:
 
        - Só no Crato mesmo! Desde minino subo a ladeira da Rua dos Peru. Já passei aqui a pé, de jumento, bicicleta, trator e moto. É danado! Agora com oitenta ano no lombo num posso mais.


(imagem Google)

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

111 - ARAMANAÍ




        Neste mês de janeiro de 2010, saindo de navio do Porto de Santana, Estado do Amapá, viajei com esposa, filhas, sogra e cunhada para Santarém, município do oeste paraense. A viagem inicia com a beleza do percurso pelo majestoso rio Amazonas – ou Solimões.

       Na chegada a Santarém, fomos muito bem recebidos pelo impressionante espetáculo do encontro dos rios Solimões e Tapajós. Suas águas teimam em não se misturar. De um mirante próximo à orla da cidade é possível observar os rios de cores diferentes correndo lado a lado.

       As praias de areia branca e as águas claras impressionam. O rio Tapajós pode não ser o rio mais bonito do mundo, mas certamente disputa as primeiras posições. Na região, são tantos os lugares interessantes que uma visita só é insuficiente pra conhecê-los: Alter do Chão, Ponta do Cururu, Serra da Piroca, Ponta de Pedras, Pajuçara, Aramanaí e várias outros.

       Em Aramanaí, Município de Belterra, me deliciei com a paisagem e com o tucurané na manteiga servido na beira do rio. Chamou-me atenção o nome do lugar. Um experiente pescador cuidou logo em me contar uma popular versão sobre a origem do nome da bela praia.

        Segundo o velho morador, um rapaz e uma moça, irmãos, caminhavam pela beira do rio Tapajós, retornando de uma festa em Belterra, onde beberam e comeram bastante. Chegando naquela praia, a moça se viu agoniada e perguntou ao irmão:

      - Mano, tou apertada. Onde eu posso mijar?

      O irmão, apontando para a praia que ganhou o nome, respondeu:

      - Ara mana aí.

(imagem Google)





sábado, 16 de janeiro de 2010

110 - INSÔNIA





        Segundo a Mitologia Grega, Hipnus era o Deus do sono. Vivia em silêncio na tranqüilidade de um palácio construído no interior de uma caverna escura, onde o sol nunca aparecia. O estudo desse mito grego demonstra que um ambiente adequado é fundamental para um sono reconfortante e restaurador.

        No início da década de setenta, minha querida mãe Terezinha sofreu uma crise de depressão e se tratou com especialistas em Fortaleza, onde morava sua mãe Maria Amélia. No período em que passou na capital alencarina dividiu um quarto da acolhedora casa com sua tia Rosália. As duas, mamãe e tia Rosália, sofriam com insônia, e raramente conseguiam dormir.

        Certa ocasião, depois de uma madrugada inteira sem pregar o olho, finalmente, quando já amanhecia o dia, minha mãe conseguiu cochilar. Tia Rosália, que também não dormira ainda, ao ver a companheira de quarto fechar os olhos, bateu no punho da rede e reclamou:

        - Terezinha, minha sobrinha, larga de ser mentirosa. Tu não disse que não conseguia dormir?

*Colaboração: Terezinha Costa Cavalcante





terça-feira, 12 de janeiro de 2010

109 - OUTRA PROFECIA




        Em certos anos a estação chuvosa demora ainda mais para começar no sertão nordestino. Tanto que até 19 de março, dia de São José, padroeiro do Ceará, os sertanejos esperam que o líquido precioso caia com abundância do céu.
 
       A angústia do nordestino se explica pelo transcurso demorado da estação seca. Quando chegam os meses de setembro, outubro, novembro e dezembro, chamados borrobrós, o sertão seca e a cor cinza predomina na paisagem.
 
        Anos atrás, no final do mês de dezembro, depois de uma longa e sofrida estiagem, Mané Fôia, conhecido profeta e adivinho, foi convidado para apresentar suas previsões para o ano seguinte em um programa matinal da Rádio Cultura de Várzea Alegre. Sobre a próxima estação chuvosa mostrou pessimismo. Para tristeza dos ouvintes, o profeta varzealegrense previu que as primeiras chuvas só molhariam as terras do município lá pelo mês de fevereiro.
 
       Mas, depois de cerca de meia hora de previsões, quando o profeta deixou o isolado estúdio, a recepcionista da rádio foi logo falando:
 
      - Seu Mané, vou emprestar meu guarda-chuva pro senhor não se molhar . Lá fora tá caindo o maior toró, relampejando e trovoando.

 
Colaboração: Antônio Ênio Máximo de Menezes
(imagem Google)

domingo, 10 de janeiro de 2010

108 - MEDO DE AVIÃO




        Não é à toa que um grande número de pessoas receia viajar de avião. Embora o invento do brasileiro Santos Dumont seja um dos meios de transporte mais seguros e confiáveis, quando os acidentes aéreos acontecem ocupam enorme espaço nos jornais, impressionando pela relevância social dos envolvidos e pelo número de vítimas.

       Ainda hoje o Ceará se lembra do trágico acidente ocorrido em junho de 1982, quando o avião da VASP se chocou contra a Serra de Aratanha em Pacatuba, provocando a morte prematura de mais de uma centena de pessoas. Tamanha foi a violência do choque que muitas famílias sequer encontraram e sepultaram os corpos de seus entes queridos.

       Dias após o sinistro, o agricultor varzealegrense Zaqueu Guedes viajou ao vizinho município de Iguatu para resolver umas questões na agência do INSS. No final da tarde, com as soluções previdenciárias encaminhadas, o comunicativo Zaqueu parou em um modesto “café” na saída da cidade, próximo à ponte sobre o Rio Jaguaribe, onde decidiu aguardar um transporte de volta para Várzea Alegre. Para saciar a fome, foi logo pedindo:

      - Sinhora, cozinhe meia dúzia de ovo pra mode eu dá conta de chegar na razalegre.

       Zaqueu e a dona do café passaram a conversar. O assunto não poderia ser outro. Falavam do impressionante acidente da VASP. Enquanto comia os ovos, o agricultor varzealegrense se dizia penalizado com o estrago nos corpos das vítimas. Poucas pessoas foram reconhecidas. O resgate só conseguiu localizar partes dos corpos. Quando Zaqueu já terminava sua exagerada merenda, o caminhão de Livardino passou em direção a Várzea Alegre. O agricultou, com pressa, levantou-se e correu em direção ao último transporte daquele dia para sua cidade. A dona do café, desesperada, gritou:

       - Seu Zé. E os ovos?

       Zaqueu, já subindo na carroceria do caminhão, respondeu gritando:

      - Muié, se não acharam nem os braços e pernas dos passageiro, avali os ovos.


(imagem Google)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

107 - PREVISÃO INFALÍVEL



        Todo ano o bravo povo do sertão nordestino aguarda ansiosamente pela estação das chuvas. Vendo o pasto secar, o gado emagrecer, a água rarear, o longo período de estiagem parece não ter fim. Por conta dessa interminável angústia surgem observadores da natureza que prevêem a quantidade de água do próximo inverno.

       Os “profetas da chuva” observam cuidadosamente as árvores, os animais, as estrelas, a lua, sempre no interesse de buscar alguma experiência que indique de que modo as chuvas cairão na caatinga nordestina.

       Anualmente os profetas se reúnem em Quixadá, no sertão central cearense, para discutir sobre a próxima estação chuvosa. Baseado no conhecimento empírico, na observação da natureza, muitos acertam suas previsões meteorológicas.

       Já em Várzea Alegre, depois de uma prolongada estiagem, quando o tempo muda, meu tio Sérgio Pinto de Carvalho, comerciante experiente e observador, olha para o céu nublado e vaticina:

      - Se não chover daqui pra meia-noite, chove da meia noite pra adiante.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

106 - BEBENDO E APRENDENDO

        Muito embora os grandes debates e descobertas científicas ocorram quase sempre nas cátedras das universidades, a sabedoria também habita os lugares mais simples.

       Todo mundo que viveu na década de cinqüenta em Várzea Alegre conheceu o Bar de Zé de Souza. Localizado na antiga Rua Major Joaquim Alves, bem no centro comercial da cidade, o lugar era bastante freqüentado naquela época.

       Certo dia um cliente do bar, encostado ao balcão, depois de consumir várias pingas, tomou coragem e falou:

        - Zé, tua muié é miudinha demais!

        O dono do bar, arrumando as garrafas de cachaça nas prateleiras, olhou para o indiscreto freguês e disse sem gaguejar:

        - É assim mesmo, hômi. Muié não tem isso de tamanho. São tudo boa. Tanto faz uma roça grande de duzentas tarefas* como uma rocinha pequena de tarefa e meia. A cancela pra entrar é tudo quase uma largura só.

 

* medida de área típica do sertão nordestino

colaboração: Luiz Cavalcante

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

105 - VACAS DE DIVINAS TETAS






          Há lugares, animais e pessoas que, mesmo não fazendo jus aos nomes, possuem inúmeras outras qualidades. Na cidade de Várzea Alegre, conhecida e cantada como Terra do Contrastes, não poderia ser diferente.

         Em meados do século passado, Raimundo Pretin vendia carne no Sanharol, agradável e acolhedor sítio localizado próximo a sede do Município. Além do trabalho de marchante, cuidava diretamente do seu rebanho bovino, inclusive ordenhando algumas vacas.
 
        Cedo da manhã, Raimundo sofria em seu curral tentando acalmar uma das vacas. Embora muito boa de leite, Delicada era arisca, não aceitava ser peada e amarrada ao bezerro. Todo dia, na hora de tirar o leite, era o mesmo sofrimento:

        - ÊÊÊ Delicada, ÔO vacaaaaaa. Delicada...ÊÊÊ....

        Mas não adiantava o aboio de vaqueiro e o esforço de Raimundo. Delicada, enfurecida, empurrava e virava o balde do leite, soltava a peia, dava coices e chifradas.

        Certa manhã, vindo do sítio Chico pra comprar carne, Joaquim Vieira encostou-se à porteira do curral e comentou:

       - Você ainda chama essa vaca de Delicada, homi.

        Raimundo, enfezado e cansado com a difícil lida com o gado leiteiro, respondeu:

       - Ela é que nem Linda, tua muié.


Colaboração: Zé de Bastião da Boa Vista
(imagem Google)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

104 - PRATO CAMUFLADO






       Gostamos ou sentimos cada parente, cada amigo, cada pessoa de maneira especial, porém distinta. Não há como comparar os sentimentos, afinal há amor suficiente para distribuir entre todos. Assim, nada mais constrangedor para uma criança do que responder às tradicionais perguntas: “nenê gosta mais do papai ou da mamãe? Quer mais bem a vovó sicrana ou a vó fulana ?

        Mesmo amando todos, na casa de cada um de seus filhos ou filhas minha avó materna Maria Amélia tinha preferência por alguns netos. Que me perdoe minha irmã Flaviana, mas lá de casa eu e Fernando gozávamos de certo prestígio com nossa querida avó.

       Meu irmão merecia os créditos adicionais que recebia. Afinal, era muito paciente e dedicado. Trocava as resistências do ferro de engomar e lia as intermináveis bulas de remédio da nossa velhinha.

       Nascidos no interior cearense, eu e inúmeros primos moramos vários anos com nossa avó na capital alencariana. Eu percebi claramente a preferência no horário das refeições. Vovó se mantinha modestamente com os proventos de professora. Na sua acolhedora casa não havia tempero suficiente para atender o voraz e interminável apetite dos vários netos que ali estudavam.

        Mas até pra demonstrar suas preferências minha vozinha era inteligente e criativa. Para não provocar ciúmes, aparentemente meu cardápio era igual ao demais. Contudo, sutilmente, vovó escondia um segundo bife em meu prato, encoberto pelas fartas porções de arroz e feijão servidas no almoço.


(imagem Google)

domingo, 20 de dezembro de 2009

103 - ÁGUA MINERAL



        Se comunicar sempre foi uma necessidade entre os seres humanos. Nos tempos remotos, para se entender, os homens usaram gestos, sinais, códigos, que só depois de um longo período se organizaram em uma linguagem. Mas aquilo que surgia como fator de integração entre os povos nem sempre cumpriu completamente esse papel. Os indivíduos traduzem as informações recebidas de acordo com fatores sociais, culturais, religiosos e muitos outros.

       Certo dia, um novo garçom foi apresentado para gentilmente servir água, café e outros lanches em todas as inúmeras salas do nosso trabalho. Com atenção, cuidou em verificar as particularidades de cada um dos diferentes doutores que trabalhavam naquele importante órgão público. Uns preferiam café preto, outros com leite. Uns com açúcar, outros com adoçante. Uma bela e jovem doutora, cuidadosa com os seus dentes e estômago, atenta às orientações dos especialistas, logo alertou:

        - Eu gosto da minha água natural, tá? Sempre natural.

        A partir daquele dia, o dedicado garçom não deixou faltar a água solicitada. Antes mesmo de ser chamado já aparecia na sala trazendo em sua equilibrada bandeja o precioso líquido. Porém, passados alguns meses, no meio de uma manhã, recebeu uma ligação para ir imediatamente ao gabinete. Ao chegar, foi logo cobrado pela chefa:

        - Por que ainda não trouxe minha água? Você não sabe que eu costumo beber bastante água pela manhã?

        - Perdão, doutora, mas desde cedo tá faltando água. Tão trocando uns canos da rua. Mas desculpa eu perguntar. Por que a senhora prefere água da torneira?


(imagem Google)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

102 - PROFUNDA INSPIRAÇÃO



        As belas paisagens da natureza sempre inspiraram os poetas. Mirar a infinidade do mar, passear por um florido jardim ou correr por campos verdejantes permitiram aos artistas a criação de impressionantes obras poéticas.

         Mas recentemente me surpreendi com versos de um autor desconhecido registrados em um espaço inusitado. Após almoçar em um badalado restaurante da orla de Fortaleza fui ao bem cuidado banheiro do lugar. Logo ao trancar a porta da higiênica cabine e sentar no “trono”, me deparei com uma original poesia escrita na parede. Em que pese a natureza predatória e reprovável das pichações em lugares públicos, aqueles criativos versos permaneceram em minha memória e provocaram uma reflexão sobre o dedicado momento:


              Neste lugar solitário

              Onde a vaidade se acaba

              Todo covarde faz força

              Todo valente se caga

(imagem Google)

sábado, 21 de novembro de 2009

101 - FECHANDO O GOL



           Grande parte do povo brasileiro acredita e faz uso de simpatias, feitiços, magias, mandingas, encantamentos, orações, amuletos, talismãs, feitiçarias, benzimentos e tudo mais relacionado com as ciências ocultas.

           No popular ambiente futebolístico as crenças estão ainda mais presentes. Os torcedores e os próprios atletas mantêm comportamentos supersticiosos buscando elevar o rendimento, pois acreditam que ajudam a equipe no alcance de suas metas. Há jogadores que não trocam a chuteira ou a cueca porque na primeira vez que as usou fez gols ou jogou bem.

          Eu não acreditava muito nessas coisas, mas recentemente minha amiga e conterrânea Klébia Fiúza me ensinou uma mandinga infalível. A simpatia cita um popular e irreverente varzealegrense, conhecido por suas histórias engraçadas. Consiste simplesmente em repetir umas palavras no momento em que o time adversário ataca. A frase, repetida com fé, fecha a nossa meta, impedindo o gol da equipe contrária.

         Neste final de semana, quando meu Fortaleza joga suas últimas chances de permanecer na série B e o querido Flamengo tem jogo decisivo na disputa pelo título do Brasileirão, usarei mais uma vez a frase mágica. No momento em que a bola chegar ao campo de defesa dos meus times eu repetirei insistentemente:

       - Cu de Zé de Lula. Cu de Zé de Lula. Cu de Zé de Lula...


(imagem Google)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

100 - KARIRIS E TUCUJUS






        Por sua grandiosidade e beleza o Rio Amazonas chama a atenção de todos que visitam Macapá, sobretudo aqueles oriundos das terras secas do nordeste brasileiro. Há alguns dias, com enorme prazer, recebi em solo tucujus o meu tio Paulo Danúbio, o meu irmão Luiz Fernando e o meu primo Antônio Costa. Como eu, todos nascidos na também acolhedora Várzea Alegre, município cearense encravado no sertão do cariri.

        Para o primeiro dia da viagem programei um passeio com os visitantes por um inesquecível “roteiro de águas”. Antes, porém, para satisfação do aguçado apetite dos turistas, saboreamos deliciosas porções de peixe grelhado e doses de camarão no bafo no restaurante Flora, instalado em palafitas sobre o Igarapé da Fortaleza. Logo após o farto almoço iniciamos o esperado passeio de lancha em direção ao rio Matapi*, onde observamos parte da riqueza natural amazônica. Para nosso deleite e encantamento, em uma sinuosa curva, fomos recebidos por vários botos, lendários mamíferos que habitam rios do norte brasileiro.

        No fim do passeio, paramos para sentir a refrescante brisa do majestoso Amazonas, que batia suas águas contra o muro de arrimo da Avenida Beira-Rio, próximo à exuberante Fortaleza de São José de Macapá. Em dado momento, quando olhava para o leito do infindável rio, tio Paulo recebeu um telefonema do primo, amigo e conterrâneo Irapuan Costa. Certamente lembrando-se das secas do nordeste e da intermitência dos pequenos rios do Ceará, o bem humorado professor foi logo dizendo:
 
        - Puan, quando tiver um bom inverno no Ceará não vá me ligar dizendo “Paulo, o Machado** desceu suberbando numa cheia danada”.



* afluente do Rio Amazonas que banha o Estado do Amapá.

**riacho temporário que cruza grande parte do Município de Várzea Alegre.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

99 - ÚLTIMA MERENDA





         Francisco Basil de Oliveira, ferreiro aposentado, ganhou fama em Várzea Alegre pela maneira cômica de contar histórias simples do cotidiano cearense. Nada escapa da suas narrativas, nem mesmo momentos críticos e delicados da existência humana. Sobre a certeza da morte, o espirituoso e realista Chico Basil costuma dizer:

         - O rim de morrer é não poder espantar as moscas.

        Entre suas várias histórias sobre a viuvez, o ferreiro conta como verdadeira uma acontecida há vários anos no Riacho Verde, progressista Distrito varzealegrense.

        Certa tarde uma velha senhora cuidava de seu moribundo esposo que sofria em uma rede. O pobre enfermo, respirando com dificuldade, disse:

        - Muié, pelo cheiro tu tá fazendo bolo de caco, né? Me dê um pedacin.

        Enxugando a testa do febril esposo, ela argumentou:

       - Mas Zé, que é que eu vou servir na boca da noite, quando o povo começar a chegar pa teu velório?


*colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

98 - DIRCEU ÁLVARES CABRAL






         Minha avó Maria Amélia lecionou por algum tempo na escola São Vicente, em Várzea Alegre. Sempre nas datas cívicas, a esforçada professora trazia para a modesta escola a cúpula da conferência que mantinha o educandário.
 
        No início da década de sessenta, em uma semana da Pátria, os membros da instituição filantrópica foram mais uma vez convidados a participar do evento na escola. Ali estavam várias personalidades, entre as quais Miguel Delfonso, Zé Sobrinho e Dirceu de Carvalho Pimpim, este último pai da professora e abastado dono de usina de algodão e de várias outras propriedades do pequeno município do sertão cearense.
 
        Com todos reunidos, a dedicada professora resolveu demonstrar aos convidados o conhecimento de seus alunos. Para começar a sabatina chamou o menino Líncoli Matias para frente da sala e perguntou:
 
         - Líncoli, quem descobriu o Brasil?
 
        Olhando para o homem mais importante e rico que conhecia, o ingênuo garoto disse:
 
        - Dona Maria, num foi seu Dirceu ?



(imagem Google)

domingo, 25 de outubro de 2009

97 - INTELIGÊNCIA DA VIDA






       O festejado psiquiatra e psicoterapeuta brasileiro Augusto Cury ensina como ser gestor das próprias emoções, decifrando o código da inteligência para administrar sentimentos e gerenciar os temores, medos, angústias e aflições da vida.

       Até parece que o paulista de Colina, cujos livros invadiram as listas dos mais vendidos, conheceu e estudou minha querida avó materna Maria Amélia. A sábia varzealegrense, mesmo em momentos de muitas dificuldades e perdas, buscava controlar suas emoções e “fazer sua própria cabeça”.
 
       No início da década de oitenta, como o apertado orçamento de professora aposentada não permitia nenhum luxo, minha avó continuava assistir a seus programas favoritos em imagem preto e branco de seu antigo aparelho de TV.

       Exatamente até o dia em que foi presenteada por seu filho caçula Paulo Danúbio com um televisor novo e a cores, ela justificou sua preferência pela antiga:

      - Não troco minha velha televisão nem por duas coloridas. Nan, li na revista manchete que essas tevês cheias de cor fazem muito mal a vista das pessoas.


(imagem Google)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

96 - CONTROLE DE QUALIDADE




        Em pouco tempo as tevês digitais invadirão definitivamente os lares brasileiros. Os especialistas defendem que a nova tecnologia trará inúmeras vantagens. Além de melhor imagem e som, os telespectadores poderão interagir com a programação e ainda acessar a internet. Todas essas novidades obrigarão a tevê a reinventar seus programas e certamente forçarão a publicidade a iniciar um novo ciclo.

        Desde o surgimento em meados do século passado, o revolucionário mundo televiso já passou por várias transformações. Ao longo do tempo, o telespectador foi se tornando mais independente na escolha dos canais, sobretudo com o surgimento dos cômodos controles remotos.

        Mas no começo era complicado até a troca de canal. Para não forçar a dura e barulhenta chave de mudança da tevê, na década de setenta, na casa de meu tio João Gonçalves Costa, havia um modo diferente de intervir na programação.

       O nervoso João Fosquin não suportava assistir a algumas propagandas, mesmo a premiada aparição do “Bombril e suas mil e uma utilidades”. Para evitar um surto descontrolado, Maria Amélia e Fátima ficavam atentas no intervalo e jogavam um lençol sobre o aparelho de TV quando surgia uma propaganda que feria os nervos do seu querido pai.


(imagem Google)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

95 - ARTILHARIA



       O menino que nasceu Raimundo se transformou em João Sem Braço logo após passar pelo infortúnio de perder o membro superior esquerdo em um acidente. Mas a falta do braço não impediu o conhecido varzealegrense de atirar de baladeira, jogar sinuca e realizar com habilidade também outras atividades que exigem a utilização dos dois membros.

       Em um campeonato realizado na quadra de esportes da Escola Presidente Castelo Branco, João Sem Braço foi escalado para jogar Futebol de Salão, hoje futsal, pelo time de alunos do Colégio São Raimundo Nonato.

        A equipe até iniciou bem o campeonato, mas, na ultima partida, contra o rival Presidente Castelo, sofreu dois gols ainda no primeiro tempo. Descontrolado, João Sem Braço, para surpresa da torcida nas arquibancadas, passou a chutar contra a baliza defendida pelo goleiro do seu time. Era só a bola chegar aos seus pés que o descontrolado jogador chutava fortemente contra o próprio patrimônio. Depois de sofrer uns cinco gols contra, o técnico finalmente pediu um tempo e, com rispidez, se dirigiu ao seu atleta;

       - João Sem Braço, você ficou doido? Por que ta só fazendo gol contra?

       Com seu jeito irreverente, o Jogador apresentou sua justificativa:

       - Já que vamos perder o campeonato, quero ser pelo menos o artilheiro.



Colaboração: Klébia Fiúza

(imagem Google)