sábado, 9 de fevereiro de 2013

716 - OVERDOSE DE CAMISINHA (Republicação)




        Muito embora as doenças sexualmente transmissíveis existam desde o início dos tempos, o uso dos preservativos só se disseminou no fim do século passado. Com a morte de milhares de pessoas provocada pela “Aids”, o mundo despertou para a necessidade do uso da “camisinha”.

      Os governos mantêm campanhas permanentes de conscientização sobre a importância do uso dos preservativos. E durante os festejos do carnaval ocorre um incremento na distribuição gratuita.

      Em Várzea Alegre, na década de 90, a folia se concentrava principalmente no Calçadão Antônio Costa. O próprio secretário de saúde municipal, doutor José Iran Costa, bebendo cerveja no bar de Dinha e Saraiva, se encarregava de distribuir os preservativos aos empolgados foliões.

      Já na madrugada da quarta-feira de cinzas, doutor Iran ofereceu uma tira de camisinhas a Darlan Fiúza. O empolgado carnavalesco, “pra lá de Bagdá”, reclamou:

      - Doutor Iran, não dá para o senhor começar a distribuir muié, não? Já tou com os bolsos cheios de camisinha e ainda não comi ninguém.

 


Colaboração: Klébia Fiúza
(imagem Google)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

715 - ASSIS FILHO




Entre os meus inúmeros amigos de infância poucos desenvolveram habilidade para trabalhos manuais como Assis Filho, vizinho do Beco da Liberdade. Na alvenaria, pintura, carpintaria ou em qualquer outro oficio o garoto se saía como adulto.

Enquanto os carros com rolamento (rolimã) das outras crianças eram construídos simplesmente com uma tábua de madeira, Assis Filho, com o mesmo material, desenvolveu sozinho sua motocicleta, com guidon, freio e tudo mais.

Certa vez, na década de 70, Várzea Alegre recebeu um circo diferente das modestas companhias que vez ou outra visitava a cidade cearense. Nesses dias o espetáculo apresentado trazia muita pompa, luxo e novidades. Dentre as apresentações de maior sucesso destacou-se o impressionante Globo da Morte, onde em seu interior motoqueiros malucos guiavam perigosamente suas rápidas e barulhentas motocicletas.

Bastou Assis Filho assistir a uma apresentação do grande circo para rapidamente fazer o seu próprio Globo da Morte. Em lugar dos fortes metais do original, o garoto construiu o seu com sobras de fios de arames que seu pai usava para consertar as gaiolas de passarinhos.

Recentemente, ao reencontrar Assis Filho, hoje policial civil, casado e pai de três filhos, lembramos com alegria dessas e de outras passagens da nossa infância. E concluí que as habilidades daquele menino se justificavam por uma simples e determinante razão. Ele nasceu do querido casal Raimunda de Antõe José e Assis Pires, costureira e alfaiate de mão cheia. Até hoje, com mais de noventa anos, seu Assis cuida diariamente das suas gaiolas e dona Raimunda trabalha na sua inseparável máquina de costura.


(imagem Google)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

714 - PASSEIO DE SEU NENÊ





Eu me criei em Várzea Alegre em uma pequena e estreita rua, chamada oficialmente de São Raimundo, mas conhecida por Beco da Liberdade. Trata-se de mais um dos contrastes da aprazível cidade cearense, pois por muitos anos aquela viela foi o principal acesso para a antiga cadeia pública.


O coletor de impostos aposentado Edmundo Evangelista, conhecido como Nenê Marinheiro, com sua numerosa e simpática família, viveu por muitos anos ao lado da nossa casa.


Na década de setenta, Seu Nenê, com idade avançada, sempre pedia para visitar o Sereno, seu antigo terreno rural. Como nem sempre era possível levá-lo, as filhas davam voltas com o velho pai, rodeando o quarteirão, como se fossem para o sítio. 


Em um fim de tarde, Seu Nenê, caminhando com dificuldade, fazia um desses passeios fictícios quando encontrou meu pai voltando para casa após um dia de intenso trabalho. Ao vê-lo, o idoso, sofrendo com a senilidade, comentou com a filha Fátima Holanda, que o acompanhava:


- Oia Luiz Silvino como é meu amigo. É meu vizinho na rua* e também tem casa aqui no Sereno...




* Em várzea alegre, rua também pode significar a sede do município.


(imagem Google)

sábado, 2 de fevereiro de 2013

713 - JOGO DA VERDADE




Em uma noite da década de noventa, dois amigos bebiam e conversavam em um boteco de uma pequena cidade do interior nordestino. Após tratar de vários assuntos e tomar inúmeras doses de cachaça, surgiu um desagradável silêncio na mesa do bar.

Para quebrar o clima, superar a falta de assunto e retomar a conversa, um dos amigos sugeriu:

- Que tal a gente começar um jogo? Cada um conta um segredo pro outro. 

- Tá certo, então comece você que teve a idéia - respondeu o outro.
- Vou começar. Deixa eu pensar.... Ninguém sabe, mas eu já fui corno três vez...

Já arrependido com a revelação, o afoito perguntou:

- Agora me diga você, qual o seu?

O segundo jogador tomou mais uma dose de cachaça, olhou fixamente para o inocente companheiro e falou:

- Macho véi, num leve a mal não. Eu sou chateado com isso, mas meu segredo é que eu tenho um problema grave. Eu num consigo guardar segredo de ninguém...


Colaboração: Francisco de Assis Pires Filho
(imagem Google)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

712 - PONTO DE HIDRATAÇÃO






Em algumas cidades, nas estações mais quentes, a organização das corridas de rua, além da distribuição de água aos competidores a cada dois ou três quilômetros,  mantém portais com pequenos e finos chuveiros para molhar e refrescar os atletas. 


Há muito anos, na semana em que se comemora o aniversário de sua emancipação, no início do mês de outubro, o Município de Várzea Alegre promove corridas a pé, de bicicleta e de jumento. Grande parte da população vai às ruas acompanhar e incentivar os competidores. 


Numa dessas competições, no início da década de 1970, buscando diminuir o forte calor daquela manhã, um rapaz que assistia à corrida na Rua dos Perus derramou um balde de água sobre os poucos atletas retardatários que passavam trotando sobre os paralelepípedos da tradicional via.


O agricultor Zaqueu Guedes, um dos participantes daquele ano, bastante cansado e suado, assustou-se com o inesperado banho e reclamou:


- Hômi, eu tou cum coipo quente. Num jogue água neu não. Você quer me estoporar*?



* estoporar no interior cearense também significa provocar mau súbito, ser acometido de um mau não esperado, sentir-se mau.

Colaboração: José Soares da Silva (Zé de Corina)

(imagem Google)

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

711 - ROLO DE FUMO





Na segunda metade do século passado, em um final de tarde de domingo, um agricultor de Várzea Alegre foi visitar o amigo , um vizinho com quem gostava de conversar e pitar uns cigarros de fumo. Os dois se encontraram, sentaram em um velho banco de madeira e passaram a prosear em frente à casa.

Logo no início da conversa, o visitante observou o amigo preparando um cigarro de fumo e pediu:

- Cumpade Zé, me empresta o fumo.  Saí apressado e esqueci o meu Só Quero Este* em casa, em cima da mesa...

Já cortando o fumo recebido, continuou:

- Me dê o teu papel aí, . O meu ficou em cima da mesa...

Passando a língua no papel para fechar o cigarro de fumo, o visitante prosseguiu:
 
- Cumpade Zé, me empresta aí teu isquêro também.  O meu dexei em riba da mesa...

Já incomodado com o abuso do vizinho, Zé propôs:

- Na próxima vez n’era milhó você trazê a mesa?


* marca de fumo bastante consumida no centro-sul cearense

Colaboração: Carlos Leandro da Silva (Carlin de Dalva)

(imagem Google)