sexta-feira, 7 de novembro de 2014

883 - OS OVOS DE "KELÉ"




Todos os meses, em uma noite de lua cheia, um grupo de cerca de cem ciclistas deixam suas casas para pedalar por dezenas de quilômetros na rodovia que acessa o aprazível município de Mazagão.

Trata-se de um dos passeios mais concorridos do Amapá, especialmente por aqueles que usam suas bicicletas como instrumento para curtir a natureza, aliviar o estresse das atividades diárias e fazer novas amizades.

Ontem debutou nesse pedal, o amigo Everaldo Romano Palheta, popularmente conhecido como Kelé. Praticante do atletismo, do futebol e de outras modalidades esportivas, o amapaense de 64 anos possui uma energia inesgotável e uma irreverente simpatia.

Extremamente competitivo, bastou a balsa atravessar o Rio Matapi, para Kelé sair em disparada rumo a Mazagão. Sequer esperou para apreciar a beleza da lua e posar para a tradicional foto na ponte sobre o Rio Vila Nova.

Só voltei a encontrar o atleta sexagenário na padaria da sede de Mazagão, onde os ciclistas se reunem para repor as energias gastas no percurso. Observando sua cara tristonha e acabrunhada, logo perguntei:

- O que houve, Kelé? Que cara é essa?

Desconfiado, em pé, sozinho em um canto, o amigo me confidenciou, em voz baixa:

- Mano, negócio tá feio. Amassei um dos meus ovo...

A resposta me causou extrema preocupação. Mesmo acostumado a pedalar em sua barraforte, certamente Kelé estranhara o duro celim de sua nova bicicleta estilo mountain bike.
 
Eu buscava informações acerca da unidade de saúde local para cuidar dos testículos avariados do amigo, quando Kelé esclareceu:

-Trouxe dois ovo para tomar cru aqui em Mazagão, mas um dos ovo se espatifou todo dentro da mochila...

(imagem Google)

terça-feira, 30 de setembro de 2014

882 - COMUNISMO NO SERTÃO





Adélia, filha do farmacêutico e proprietário de terras Coronel Pimpim, foi uma mulher marcante na época em que viveu em Várzea Alegre. Dona de casa dedicada, caridosa e protetora da família, Dedé, como chamada, enfrentou as dificuldades da vida com coragem e decisão.

No início da década de 1960, em pleno sertão nordestino, poucas coisas despertavam mais temor entre o povo do que o mal falado e desconhecido comunismo. Essa ideologia, baseada na propriedade comum e no controle estatal dos meios de produção, sofria com uma forte e eficiente propaganda.


Certa manhã, Dedé caminhava pela antiga Major Joaquim Alves, tradicional rua de Várzea Alegre, quando foi abordada por uma amiga assustada com a chegada do tal comunismo, especialmente com o racionamento dos produtos:   


- Dedé, tão dizendo que esses cumunista tomam tudo da gente. Depois tudo é distribuído ao povo em ração pelo governo. Tudo de poquin.


Citando a costureira da família, a baixinha Dedé continuou caminhando e, pronta e decididamente, emendou:


- Sendo assim vou logo é encomendar dez vestidos com Laura Cassundé. Com dez vestidos dá pra eu chegar no fim da vida...

Colaboração: Terezinha Costa Cavalcante

(imagem Google)

domingo, 31 de agosto de 2014

881 - NÃO DÁ PIZZA



Vindo do interior do Estado, o modesto migrante ainda não conseguira se ambientar na moderna e movimentada capital. Sua timidez dificultava a aproximação com novas pessoas.
Para permitir uma maior aproximação e melhor conhecer os colegas de trabalho, o novato decidiu convidá-los para sair após o expediente. Certamente, uma boa conversa na mesa de bar serviria para estreitar a relação com os novos companheiros de batente. Faltava avisar apenas à recatada secretária.
Assim, na hora do almoço, o novo empregado, sem maiores ou melhores pretensões,  se aproximou da secretária e falou:
- Colega, nós combinamos uma saidinha no final da tarde para comer um pizza e tomar uma cerveja. Vamos com a gente?
A secretária tirou os óculos da face, olhou para o novo colega de trabalho e, com um sorriso amarelo no rosto, surpreendeu:
- Queria tanto ir, mas dessa vez não dá.  Na próxima eu vou.  É que tou menstruada…
(imagem Google)

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

880 - FESTA DE AGOSTO NO JAPÃO





Na década de 1990, minha prima Rosiana de Carvalho Costa, contadora e enfermeira, morou no lugar mais distante possível da nossa Várzea Alegre. Ela viveu por alguns anos no Japão, do outro lado do planeta. Basta lembrar que, mesmo de avião, a viagem do Brasil à Terra do Sol Nascente demora cerca de vinte e quatro horas.


Imagino que morar tão longe e em um país com cultura tão diferente multiplica ainda mais a saudade dos familiares, dos amigos e da terra natal.

Todo varzealegrense que vive fora de sua cidade sofre especialmente nos últimos dias de agosto, época em que o município cearense recebe inúmeros visitantes e realiza os festejos em homenagem ao seu padroeiro São Raimundo Nonato.


Em um desses dias de agosto, com o coração apertado, Rosiana ligou do Japão para Várzea Alegre. No meio da conversa com sua mãe Rosa Amélia, perguntou:


- Como tá por ai ? Como tá festa? Tá animada? Tem muita gente?


A experiente mãe testemunha todos os anos o crescente movimento de pessoas nos festejos religiosos e no arraial. Mesmo assim, buscando acalentar o coração da filha, respondeu com uma bem intencionada mentira:


- Ziana, você num tá perdendo nada. Esse ano tá fraquin demais. Num tem quase ninguém...



Colaboração: Terezinha Costa Cavalcante

(imagem Google)

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

879 - OS MENINOS DO PARQUE MAIA (Republicado em homenagem ao início da Festa de Agosto)


     Durante os dez últimos dias do mês de agosto, em Várzea Alegre, vive-se o animado período da festa do padroeiro São Raimundo Nonato. Enquanto os adultos participam dos eventos religiosos e circulam pelas barracas do arraial, as crianças acompanham a movimentação do parque de diversões que se instala na cidade cearense. O sonho da meninada dura até o dia 31, quando começa a rápida, triste e angustiante desmontagem da pesada estrutura.

No final da década de 1970, os meninos Júlio Bastos Leandro, Geraldo Leandro Filho e Fernando de Zé de Zacarias moravam na antiga Getúlio Vargas, uma das ruas onde o tradicional Parque Maia* era montado. Sem dinheiro, passavam os dias e as noites de festa circulando pelo “carrossel”, buscando uma forma alternativa de “rodar” nos brinquedos.

Uma vez, cedo da manhã, os garotos cataram do chão os bilhetes usados e rasgados na noite anterior e colaram com  grude de goma. Mas os atentos funcionários do parque descobriram facilmente a grosseira montagem.

No mesmo ano, em uma noite movimentada, encostados à grade, os meninos da Getúlio Vargas conseguiram abrir um pouco as barras de ferro e acessar o brinquedo conhecido como Cavalinho pela alargada brecha do gradil. O primeiro a entrar clandestinamente, Geraldo Filho, montava alegremente em um dos animais de madeira, quando Fernando alertou:

- Geraldo, bora voltá, seu irmão Julin ficou com cocão inganchado na grade...


* Parque de diversões que, junto com o Parque Lima, por várias décadas, montou seus brinquedos em Várzea Alegre.

Colaboração: Júlio Bastos Leandro
(imagem Google)

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

878 - RESSACA DA COPA





A retumbante derrota de 7 a 1 que o Brasil sofreu na Copa do Mundo trouxe sérias consequências para os brasileiros. Não só abalou a autoestima nacional como afundou a nossa soberba futebolística.

Em Várzea Alegre, sertão cearense, o resultado do jogo com os alemães deixou marcas ainda mais profundas. Tanto que, um dia após a sofrível partida, o engenheiro civil Gilberto Rolim foi à casa de um conhecido e disposto carroceiro e avisou que precisava transportar um milheiro de tijolos para uma construção em andamento.

O carroceiro recebeu o engenheiro deitado em uma rede armada na sala da modesta casa. Sem forças para se levantar, com o lençol cobrindo parte do rosto, o trabalhador justificou:

- Dotô Gilberto, hoje num dá não. A pêia dos alemão deixou nós estrupiado. Tou numa ressaca grande e minha burra tá na roça, de sentimento...

Colaboração: Paulo Danúbio Carvalho Costa
(imagem Google)