sábado, 24 de dezembro de 2011

514 - VIDEOCHAMADA




A  atual e moderna telefonia permite a conexão de duas pessoas usando recursos de áudio e vídeo. Significa dizer que hoje não basta ouvir,  também é possível ver com quem se fala, independente da distância entre os  interlocutores. 

Mas em Várzea Alegre, sertão cearense, essa novidade teconológica parecia existir desde a  segunda metade do século passado. 

Meu tio Antônio Ulisses contava que certa manhã da década de oitenta ligou para o escritório do primo Hélio Costa, no momento em que este competente engenheiro, com outros técnicos, examinava a planta de uma obra e realizava cálculos estruturais. O desligado doutor Hélio retirou  o velho aparelho do gancho e o encostou no ouvido. 

Percebendo que alguém atendera o telefonema, o corretor de algodão Antônio Ulisses, do outro lado na linha, perguntou:

- Dotô Hélio tá poraí ?

O capaz e dispersivo engenheiro, em vez falar, apenas confirmou gesticulando, mexendo a cabeça para cima e para baixo. 

Sem ouvir nada, Antônio Ulisses continuou:

- Dotô Hélio ocupado ? 

 Ainda com o pesado telefone no ouvido, sem abrir a boca, o desatento engenheiro, como se já naquela época existisse a videochamada, apenas com gestos, respondeu ao primo Antônio Ulisses girando a cabeça para os lados.


(imagem Google)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

513 - NATAL INESQUECÍVEL (Republicado)


 
      Em 1993, meu querido primo Hudson Batista Rolim recebeu um irrecusável convite para passar a noite de Natal na casa da nova namorada, no Bairro Cidade dos Funcionários, em Fortaleza. Cedo da noite, o apaixonado estudante vestiu a melhor roupa e apanhou o ônibus para cear na casa dos sogros.


       Depois de cruzar toda cidade, Hudson se impressionou ao chegar à bela e enfeitada casa da namorada. Semana antes, após um animado forró, na madrugada que a deixara ali em frente, não observara quão bonita era casa da sua amada.

       Mas naquela noite natalina esperava conhecer muito mais da sua futura família. No portão, Hudson foi recebido friamente pelo dono da residência, seu futuro sogro. Mesmo assim foi conduzido a uma mesa onde, sozinho, recebeu completa atenção dos bem vestidos garçons. Não sabia que a família de sua namorada vivia em tão boas condições. Consumindo uísque 12 anos e provando saborosos petiscos, o filho de varzealegrenses pensou: “dessa vez eu amarrei o meu burrin na sombra”.


       Porém já se aproximava da meia-noite e nada da namorada aparecer na festa. Até que finalmente ela ingressou pelo portão da garagem e passou a cumprimentar e desejar feliz natal a todos. Ao ver o namorado, a jovem se surpreendeu e falou:


        - Credo, tu é aqui Hudson? E eu esperando você lá em casa. Num sabia que tu conhecia doutor João, nosso vizinho.


       Assim, os namorados se despediram, atravessaram a rua e entraram na modesta casa, onde um casal de velhos cochilava na poltrona assistindo na TV ao especial de Roberto Carlos. Dali, o resto da noite, tomando coca-cola e comendo pedaços de um duro e frio peru, Hudson, tentando esconder a decepção, observou pela janela o movimento e as luzes do animado castelo em frente que por poucas horas foi seu.


Colaboração: Hudson Batista Rolim

(imagem Google)

domingo, 18 de dezembro de 2011

512 - INTEGRAR PARA NÃO ENTREGAR




Em alguns anos, na década de setenta, Várzea Alegre recebeu a inesquecível visita de jovens universitários do famoso e festejado Projeto Rondon

Moças e rapazes de vários estados brasileiros, especialmente do sul e sudeste, mudavam a rotina do pacato município cearense. Traziam informações, promoviam palestras e patrocinavam várias atividades recreativas para as crianças e os adolescentes da à época isolada cidade

Certa vez, para a concorrida inscrição nas escolinhas esportivas, os rondonistas exigiram exames de fezes e urina dos pequenos candidatos. 

No dia seguinte, o garoto Raimundo Alves Bezerra, de apelido João Sem Braço, interessado em uma vaga nas equipes de futebol de salão, amanheceu na extensa fila da escola Presidente Castelo Branco. Após algumas horas de espera, finalmente entregou aos estranhos visitantes o material para os testes exigidos. 

Ao receber, a bela universitária do curso de biomedicina, vestida de branco e usando luvas, olhou para o varzealegrense e, com seu diferente sotaque sulista, reclamou: 

- Garoto, bastava uma pequena amostra. Não era  preciso misturar tudo e encher uma lata de leite Ninho não.


(imagem Google)

sábado, 17 de dezembro de 2011

511 - A CHAVE DA REZADEIRA




No mês de janeiro, na movimentada semana em homenagem ao padroeiro São Sebastião,  o acolhedor distrito de Mangabeira, no sertão cearense, recebe inúmeros visitantes.  

Certa noite de festa, logo após a concorrida novena na igreja do distrito de Lavras da Mangabeira, uma conhecida vidente e rezadeira se dirigiu ao serviço de som do parque de diversões instalado em meio ao arraial e encomendou um anúncio. O locutor, com voz postada, repetiu várias vezes o aviso:

- Quem encontrou ou vier a encontrar umas chave por gentileza trazer no nosso estúdio que será muito bem gratificado.

O cético bodegueiro Elizeu Casemiro, caminhando pelo meio das barrracas armadas para a festa do santo padroeiro, após ouvir os repetidos anúncios e saber a quem pertencia o molho de chaves perdido, se deparou com a famosa rezadeira. Ao perceber que a agoniada mulher continuava buscando algo pelo chão,  o comerciante contestou:

- Mas a senhora que diz na rádia que encontra animal perdido, faz caba deixar de bebê, arruma casório para moça véia e acha tudo que é coisa sumida? Cuma é que num sabe nem adonde tuas chave?


Colaboração: Vicente Ferreira Lima Filho
(imagem Google)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

510 - PRECONCEITO NATALINO (Republicado)



      Em um fim de ano da década de oitenta, Maria Laís Iolanda Costa, à época primeira dama de Várzea Alegre, convidou Antônio José de Souza, músico conhecido como Pelé, para representar o Papai Noel nas festas natalinas da cidade cearense.

       Mesmo envaidecido com o convite da dinâmica primeira dama, Pelé relutou:

       - Dona Lolanda, esse negócio num vai dá certo. Onde já se viu um Papai Noel pretin assim que nem eu?

       Por fim, Pelé aceitou e, com as vestimentas tradicionais do bom velhinho, iniciou sua atuação pelas escolas do município. Contrariando as expectativas do músico, as apresentações no Colégio São Raimundo Nonato e na escola Antão Bitu do Sanharol ocorreram normalmente.

      As comemorações natalinas se encerraram no Centro Social Urbano, onde crianças carentes aguardaram a chegada do simpático velhinho. O suado Papai Noel, com um saco cheio de presentes, entrou no ambiente festivo correndo e gritando:

       - Rô, rô, rô, rô...

     Quando enxugou o suor do rosto e levantou os olhos, Pelé estranhou o silêncio no agora vazio salão. Não restou uma única criança no recinto. Todas correram desesperadas, entre elas um dos filhos do Papai Noel.


Colaboração: Antônio José da Silva (Pelé)

(imagem Google)

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

509 - SEM 'DOPING'



 

A corrida de rua é uma das práticas esportivas  que mais cresce no mundo. A cada dia o democrático e inclusivo pedestrianismo recebe a adesão de pessoas de todas as classes sociais e idade.

Neste último final de semana, após alguns meses de intensa preparação, participei da minha primeira corrida. Com esposa, cunhada, sobrinha, colegas de trabalho e atletas de elite do Amapá e Estados vizinhos, corri sete quilômetros e duzentos metros.

A adrenalina da disputa e o prazer em completar o percurso pelas ruas de Macapá compensaram qualquer fadiga, cansaço ou dor muscular. 

Adorei observar a adesão de todos ao esporte e descobrir em nosso ambiente de trabalho grandes talentos para o atletismo. A nossa decana, procuradora de justiça Clara Banha, mais uma vez deu lição de vitalidade e disposição.

A centenas de metros da chegada, ao ver a doutora Clara no esforço final, a atual procuradora-geral, temendo pela saúde da querida colega, pediu ao bombeiro de plantão que tranquilizasse a incansável competidora. O militar correu em direção à atleta e disse:

- Doutora  Clara, pode vir tranquila, devagarinho. A senhora é a primeira entre promotoras e procuradoras.

Porém, o efeito do aviso foi dopante. Em vez de diminuir a passada, a doutora Clara, na sua eletrizante característica, saiu em desabalada carreira, gritando:

- Primeiro? É mesmo ? Então ninguém vai me passar....
  

(imagem Google)

sábado, 10 de dezembro de 2011

508 - DUPLO SENTIDO




Meses atrás ressurgiram debates sobre a qualidade das músicas que mais tocam no rádio e na televisão. A discussão chegou na Assembléia Legislativa da Bahia, onde tramita  projeto de lei que proibe a contratação pelo poder público de bandas que tocam músicas de duplo sentido e agridem os ouvidos e a dignidade da mulher.

Contudo, não se trata de nenhuma novidade,  essas polêmicas músicas sempre povoaram o imaginário e o gosto popular. Em várias épocas artistas já usaram desse artifício para aumentar suas vendas de discos e obter sucesso.

Toda esse debate me trouxe à memória os forrós que frequentava em Fortaleza na década de oitenta. Eu adorava me divertir nos salões do Gresse, B-25 e Tauape Club, locais de eventos relativamente próximos ao apartamento onde morava.

Porém o auge desses momentos festivos se dava na AABEC, localizada na distante Praia do Futuro. Nas noites de sábados, depois que nos escontrávamos na Praça da Feirinha da 13 de Maio, no Bairro de Fátima, o primo Carvalho, único a possuir carro, nos levava  até o clube dos funcionários do extinto banco cearense.

Que me perdoem os puristas e os autores do discutido projeto, mas, sem hipocrisia, preciso admitir que já me esbaldei nos ritmos das músicas de duplo sentido. Na AABEC  e em outros clubes dancei por diversas vezes na companhia de animadas jovens ao som alegre das músicas de cantores irreverentes, como o inesquecível Alípio Martins. 

E já naquela época, há cerca de trinta anos, as letras mais cantadas do artista paraense traziam polêmicos e divertidos versos, tais como: “tira, tira tira a calcinha(...); eu quero gozar, a vida com você(...);lá vai ele, com a cabeça enfeitada(...)



(imagem Google)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

507 - FOI "PRO" BREJO




Na década de 70, meu avô paterno, o agricultor e comerciante Raimundo Silvino, adquiriu um terreno no Brejo, na zona rural do município de Várzea Alegre. O acesso ao sítio se dava por uma sofrida estrada vicinal, com íngremes ladeiras, curvas fechadas e muitos buracos. 

Meu querido avô nunca desenvolveu muita habilidade na direção de veículos automotores. Por tal razão, nem sempre conduzia diretamente sua caminhoneta marca chevrolet, modelo C-10. Para algumas viagens costumava convidar outros motoristas, entre os quais o seu caçula Raimundo Cavalcante Filho, conhecido como Din.

Nas viagens ao sítio, ainda antes do sol nascer, o velho comerciante seguia no banco do passageiro mas atento às condições da estrada. Ao enxergar uma grande erosão no leito da via,  meu avô, com seu autêntico linguajar e seu sotaque matuto, para que o filho Din passasse com o buraco entre as rodas do veículo, gritava:  

- Laça a grota, Reimundo.


(imagem Google)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

506 - ÁGUA MINERAL (Republicado)



        Se comunicar sempre foi uma necessidade entre os seres humanos. Nos tempos remotos, para se entender, os homens usaram gestos, sinais, códigos, que só depois de um longo período se organizaram em uma linguagem. Mas aquilo que surgia como fator de integração entre os povos nem sempre cumpriu completamente esse papel. Os indivíduos traduzem as informações recebidas de acordo com fatores sociais, culturais, religiosos e muitos outros.

       Certo dia, um novo garçom foi apresentado para gentilmente servir água, café e outros lanches em todas as inúmeras salas do nosso trabalho. Com atenção, cuidou em verificar as particularidades de cada um dos diferentes doutores que trabalhavam naquele importante órgão público. Uns preferiam café preto, outros com leite. Uns com açúcar, outros com adoçante. Uma bela e jovem doutora, cuidadosa com os seus dentes e estômago, atenta às orientações dos especialistas, logo alertou:

        - Eu gosto da minha água natural, tá? Sempre natural.

        A partir daquele dia, o dedicado garçom não deixou faltar a água solicitada. Antes mesmo de ser chamado já aparecia na sala trazendo em sua equilibrada bandeja o precioso líquido. Porém, passados alguns meses, no meio de uma manhã, recebeu uma ligação para ir imediatamente ao gabinete. Ao chegar, foi logo cobrado pela chefa:

        - Por que ainda não trouxe minha água? Você não sabe que eu costumo beber bastante água pela manhã?

        - Perdão, doutora, mas desde cedo tá faltando água. Tão trocando uns canos da rua. Mas desculpa eu perguntar. Por que a senhora prefere água da torneira?


(imagem Google)

domingo, 4 de dezembro de 2011

505 - ZAQUEU E O CHIP




Nos últimos anos a localização por intermédio de chips e rastreadores apareceu como infalível solução para vários problemas. Esses instrumentos são indicados para encontrar condenados foragidos, carros furtados, jóias roubadas e até animais perdidos nas matas.  

Há pouco tempo, no sítio Timbaúba, na cearense Várzea Alegre, surgiu mais um vendedor oferecendo a novidade para Zaqueu Guedes. O agricultor não mais precisaria se preocupar com o gado solto na roça. Bastava aplicar uns microchips e rapidamente encontraria os animais através de um localizador GPS.

Após ouvir atentamente as vantagens do moderno produto, o experiente  Zaqueu, não vislumbrando necessidade de monitorar seu pequeno rebanho, com seu bom humor e inteligência popular,  argumentou:

 - Seu moço, eu acho bom é entrar na capoêra e aboiá chamano as vaquia  pelo nome: Ehhh,  Beleza. Ohhh Ternura, Manga Rosa. Ehhh Estrela, Maiaddaaa...

Mesmo assim, o insistente vendedor continuou discorrendo sobre as vantagens dos chips, dizendo que um satélite monitoraria o gado. O agricultor, lembrando trecho da música A Morte do Vaqueiro, cantada pelo imortal Luiz Gonzaga, finalizou:

- Meu rapaz,  e esse chipos num  tem os tom grave e agudo dos chucai. Eu gosto é de ouvir o tengo, lengo, tengo, lengo, tengo...


Colaboração: Vicente Ferreira Lima Filho
(imagem Google)

sábado, 3 de dezembro de 2011

504 - SE DIRIGIR NÃO FUME



Em 1980, o professor Paulo Danúbio voltou para sua querida cidade natal - Várzea Alegre - dirigindo o seu primeiro carro, um fusca de cor verde abacate.

De “carro próprio”, o varzealegrense radicado em Fortaleza, após tomar umas cervejas no bar de Valdisio, na Praça dos Correias, seguiu pela recém-inaugurada Avenida do Contorno em direção ao Bairro Juremal. Ao passar pelas margens da Lagoa de São Raimundo, o motorista jogou o cigarro que fumava pela janela do veículo. Como que por vingança, o vento trouxe de volta a bagana acessa que caiu dentro da camisa do professor.

Desesperado, com a ponta de cigarro queimando seu corpo, Paulo Danúbio soltou imediatamente a direção do fusca para retirar a brasa de dentro da roupa. Não deu outra. Desgovernado, o fusca verde abandonou a estrada e desceu o aterro.

Felizmente o professor não sofreu nada além das pequenas queimaduras no tórax. O resistente carro, sem maiores avarias, foi guinchado das margens da lagoa.

Naquele mesmo dia, no início da Rua dos Perus, ainda se recuperando do susto, Paulo encontrou o ferreiro Chico Basil  saindo do bar de Maria Araripe. Com umas boas doses de cachaça circulando na cabeça, o irreverente ferreiro aconselhou:

- Paulo, inda bem que você num sofreu nada. Mais hômi, compre um Vôquis* com cinzeiro...


* referência à Volks, redução para a marca alemã de veículos Volkswagen
(imagem Google)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

503 - FUTEBOL NO CEDRO (republicado)

   
       
           O time de futebol de Várzea Alegre se preparava para viajar até o vizinho município do Cedro, onde, ainda no final da tarde daquele mesmo dia, as duas seleções protagonizariam um esperado embate. A rivalidade entre os dois pequenos municípios cearenses não se limitava ao esporte, tudo motivava discussão entre os moradores das duas cidades. Os cedrenses se gabavam por ter suas terras cortadas pela estrada de ferro, responsável por impulsionar seu desenvolvimento. Do outro lado, os varzealegrenses respondiam dizendo que pouco adiantava a linha do trem se no Cedro não havia sequer água.

          Na efervescência de toda essa rivalidade, os atletas da terra do arroz subiam no velho caminhão que os transportaria até o campo de chão batido da vizinha cidade. Muitos assistiam à saída da equipe de atletas, outros tentavam subir no caminhão para acompanhar o jogo . Não havia espaço suficiente na carroceria para acomodar a equipe de futebol, a comissão técnica, os dirigentes e os inúmeros torcedores que desejavam ver o clássico regional.
 
          No meio daquela confusão, um conhecido e assumido homossexual de Várzea Alegre, com seus trejeitos afeminados, tentou subir no caminhão. A reação foi imediata. Vários jogadores e torcedores recusaram a presença do diferenciado torcedor. Uns mais afoitos e sem as idéias atuais do politicamente correto empurraram o pobre rapaz e gritaram:

          - Viado não sobe nesse caminhão.

          O torcedor pederasta, aborrecido com a inesperada recusa, entristecido com a ação preconceituosa ainda maior naquela época, olhou seriamente para os jogadores, comissão técnica e torcedores, e gritou:

           - Eu não vou nesse caminhão, mas aí em cima vão mais dois outros viados.

          Fez-se silêncio tumular entre os presentes. Ninguém, nem mesmo os mais esquentados dos jogadores esboçou qualquer reação. Nenhum outro torcedor quis acompanhar o grupo. Outros não desceram do caminhão temendo que a atitude levantasse suspeita sobre a sua opção sexual. Assim, o veículo deu partida e seguiu na antiga estrada em direção ao vizinho município. No percurso de várias léguas não houve as conversas de costume, como os importantes debates sobre as estratégias para o confronto. Os passageiros se olhavam discretamente procurando pistas dos dois outros referidos pelo homossexual excluído do grupo.

          Chegando ao Cedro, a equipe de futebol varzealegrense não repetiu os bons desempenhos dos enfretamentos anteriores. De igual forma, os torcedores e os dirigentes que acompanharam o time não conseguiram elevar o ânimo dos atletas. Logo o escrete vizinho tomou conta da partida e venceu facilmente o clássico. No término do jogo ninguém falou sobre a derrota, não houve qualquer menção aos motivos do fracasso daquela tarde. Afinal, todos reconheceram a impossibilidade de se concentrar na partida. Nos pensamentos dos passageiros do caminhão só havia espaço para descobrir quem seriam os dois outros homossexuais que naquele dia foram disputar ou assistir ao jogo de futebol no Cedro. 


(imagem Google)