terça-feira, 10 de janeiro de 2012

523 - LEITE PURO




No alvorecer de um domingo da década de oitenta, um jovem, após caminhar por horas em íngremes e desertas estradas viscinais, chegou à Serra dos Cavalos, zona rural do município de Várzea Alegre. Já bastante cansado, perdido, com fome e sede, o rapaz finalmente encontrou um homem ordenhando uma magra vaquinha. O exausto caminhante se encostou na porteira do pequeno curral e falou:

- Tou vindo dum forró na Serra Boris e indo no rumo do Junco*. O sinhô podia me arrumar uma cuia desse leite pra mode passar minha sede e fome.

Sem tirar as mãos das tetas da vaca, o homem respondeu secamente: 

- Num dá não. Faz seis mês que a muié me deixou e fiquei criando sozin três menino. O leite dessa vaca mal dá pra eles.

- Se o sinhô me eu dou o que o sinhô quiser – propôs o desesperado rapaz.

O solitário e carente homem se animou com a ousada proposta. Levantou-se rapidamente do banco onde ordenhava a vaca, se aproximou e indagou ao rapaz se aceitava trocar o leite por uma relação íntima.

O pobre e cansado moço coçou a cabeça e pensou um pouco. Como não via outra maneira de saciar a fome, aceitou se entregar ao maduro homem. Os dois foram para um canto do curral, onde o rapaz arriou as calças e virou a bunda para o vaqueiro.

Porém, quando o forte homem desabotou sua bermuda e pôs uma enorme mangueira para fora, o rapaz olhou pra trás e se assustou com tamanho daquele membro viril. Imediatamente levantou as calças e, já caminhando, disse:

 - Acho que num vai dar certo não. Agora que lembrei que só tomo leite cum Nescau.


Colaboração: Francisco Hermi Cesar

* atual município de Granjeiro

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

522 - O CENSO




Iniciados no final do século dezenove, os censos demográficos são realizados no Brasil em média a cada dez anos. Na completa pesquisa busca-se contar o número exato e como vivem os habitantes nas mais diversas e longíquas regiões do país.


No recenseamento de 1950, um pesquisador  visitou a região do baixo meretrício de Várzea Alegre, que à época funcionava no final da Rua Doutor Leandro. Pela tarde, em uma das modestas casas, um garoto de cerca de dez anos atendeu na porta. Dali mesmo o recenseador passou a perguntar:


- Quêde seu pai?


- Nun tenho pai não – respondeu o menino.


- E sua mãe, onde tá? – continuou o funcionário temporário do instituto de pesquisa.


- Mãe saiu de noite e num voltou ainda...


- E sua mãe trabalha cum que? 


- Ela é substituta. 


Desconfiado com a situação, o recenseador perguntou:


- Substituta? Você num quer dizer prostituta?


O pequeno garoto, sem qualquer maldade, esclareceu:


- Não, não. Prostituta é mi’a tia. Ela adoeceu e mãe tá no lugar dela, como substituta...



Colaboração: Elias Frutuoso
(imagem Google)

domingo, 8 de janeiro de 2012

521 - O NAMORO DE JOCEL




Na década de oitenta, em Várzea Alegre, sertão cearense, o comerciante José Batista de Freitas, conhecido como Jocel, iniciou um relacionamento extraconjugal com uma mulher da cidade.  Semanalmente ela ia ao comércio de Jocel para receber de presente uma sortida feira.

Certa manhã, o apaixonado Jocel ensacava as mercadorias da amásia, quando, Luiza Batista de Freitas, dona Luizinha, desconfiada com a infidelidade do marido, entrou repentinamente no estabelecimento e gritou:

- Jocel, o que é que essa mulher faz aqui ?

Para acalmar a enorme valentia da esposa, o experiente comerciante dirfarçou e, com sangue frio,  agiu como se atendesse a uma cliente habitual. Abriu a gaveta da bodega, retirou uma nota de cinquenta e entregou à amante junto com as compras, dizendo:

- Luizinha, ela tava só esperando o troco.


Colaboração: Dr. Rolim
(imagem Google)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

520 - PREFERENCIAL




     Mesmo com as campanhas educativas e a clara proibição na badalada Lei Seca, motoristas ainda insistem na danosa conduta de dirigir sob efeito de bebidas alcoólicas.
 

      Essa imprudente atitude provoca incalculáveis prejuízos, humanos e materiais. Diariamente ouvimos as manchetes noticiando o aumento das vítimas de acidentes de trânsito provocados pela embriaguez ao volante.
 

       E o grave problema vem se arrrastando há muito tempo. Certa tarde sábado da década de oitenta, após beber desde o início do dia, um motorista que seguia em seu carro por uma via secundária não respeitou o sinal de “pare” e se chocou contra outro veículo que seguia normalmente pela preferencial.
 

      A motorista do veículo abalroado na via preferencial, após ver que seus filhos estavam bem no banco traseiro, deixou o carro, dirigiu-se ao causador do acidente e gritou:

    - Seu irresponsável! Você quase matou toda minha família.

    Com os óculos escuros no rosto, o motorista saiu cambaleando do seu avariado veículo. Mesmo com o sol a pino, perdido no espaço e no tempo, com voz trôpega, justificou:

        - Me desculpe, eu realmente tou errado. Mas também a senhora veio na avenida com os faróis tudo apagado.


(imagem Google)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

519 - PREVISÃO INFALÍVEL (Pedra de Clarianã há dois anos)



         Todo ano o bravo povo do sertão nordestino aguarda ansiosamente pela estação das chuvas. Vendo o pasto secar, o gado emagrecer, a água rarear, o longo período de estiagem parece não ter fim. Por conta dessa interminável angústia surgem observadores da natureza que prevêem a quantidade de água do próximo inverno.

        Os “profetas da chuva” observam cuidadosamente as árvores, os animais, as estrelas, a lua, sempre no interesse de buscar alguma experiência que indique de que modo as chuvas cairão na caatinga nordestina.

       Anualmente os profetas se reúnem em Quixadá, no sertão central cearense, para discutir sobre a próxima estação chuvosa. Baseado no conhecimento empírico, na observação da natureza, muitos acertam suas previsões meteorológicas.

       Já em Várzea Alegre, depois de uma prolongada estiagem, quando o tempo muda, meu tio Sérgio Pinto de Carvalho, comerciante experiente e observador, olha para o céu nublado e vaticina:

      - Se não chover daqui pra meia-noite, chove da meia noite pra'diante.

domingo, 1 de janeiro de 2012

518 - A FORMA IDEAL




Nos últimos anos, recrudesceu rígido padrão estético determinando o emagrecimento como condição essencial para um corpo perfeito. Os meios de comunicação de massa, através de esbeltas modelos e de artistas secas e famosas, impõem o culto à magreza.


E essa corrida por formas ideais leva muitas pessoas a se submeter a arriscadas intervenções cirúrgicas,  fazer dietas absurdas, deixar de comer e outros sacrifícios.


Mesmo assim, no contrafluxo do exigente padrão, o mundo engorda cada vez mais, deixando homens e mulheres distantes da forma imposta. A grande maioria, mesmo com alguns sacrifícios, não consegue alcançar o ansiado corpo. 


Toda essa discussão me lembrou a forte e compreensiva opinião do querido primo Otoniel Otoni de Carvalho. Na década de oitenta, no Ceará, em meio a debate sobre os tipos de beleza faminina, não deixando dúvida sobre sua preferência pelas mais gordinhas, ele repetia exaustivamente:


- Mulher pra mim tem que ter onde pegar.



(imagem Google)

sábado, 31 de dezembro de 2011

517 - A FROTA DA CAPITAL




Quando criança, nas férias em Fortaleza, um dos meus divertimentos prediletos era contar os carros que passavam pela rua onde morava minha querida avó Maria Amélia.  

Todo aquele movimento da cidade grande me impressionava. Até porque, naquele tempo, transitavam poucos veiculos automotores pelas ruas de paralelepípedos da minha pequena cidade natal, Varzea Alegre.

         Na mesma época, chegou do calmo interior cearense uma moça simples para trabalhar na casa da minha avó. Também pouco acostumada com o intenso trânsito,  a jovem varzealegrense permanecia horas na frente da residência, só observando os carros passarem pela Barão de Aratanha, movimentada rua de mão única da região central da capital alencarina.

          Após vários dias da sua chegada, acompanhando o constante fluxo pela importante via, com os veículos sempre no mesmo sentido, a jovem e acanhada moça perguntou à patroa:

- Do’Maria, pradonde todo esses carro vão que nunca volta?


(imagem Google)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

516 - BEBENDO E APRENDENDO (Pedra de Clarianã há dois anos)



      Muito embora os grandes debates e descobertas científicas ocorram quase sempre nas cátedras das universidades, a sabedoria também habita os lugares mais simples.

       Todo mundo que viveu na década de cinquenta em Várzea Alegre conheceu o Bar de Zé de Souza. Localizado na antiga Rua Major Joaquim Alves, bem no centro comercial da cidade, o lugar era bastante freqüentado naquela época.

       Certo dia um cliente do bar, encostado ao balcão, depois de consumir várias pingas, tomou coragem e falou:

        - Zé, tua muié é miudinha demais!

        O dono do bar, arrumando as garrafas de cachaça nas prateleiras, olhou para o indiscreto freguês e disse sem gaguejar:

        - É assim mermo. Muié num tem isso de tamanho. São tudo boa. Tanto faz uma roça grande de duzentas tarefa* como uma rocinha pequena de tarefa e meia. A cancela pra entrar é tudo quase duma largura só.

 

* medida de área típica do sertão nordestino

colaboração: Luiz Cavalcante

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

515 - SEU ACELINO




A série televisiva Chaves, entre os seus divertidos personagens, consagrou a figura de seu Barriga, senhorio e cobrador de aluguel.  Mas não só na fictícia vila mexicana surgiram originais e marcantes locadores. 

Durante a segunda metade do século passado, Acelino Leandro disputou e exerceu cargos de relevo na política varzealegrense. Comerciante por várias décadas, também escreveu uma importante obra para o entendimento da origem das famílias de Várzea  Alegre.

Na pequena cidade do sertão cearense, Acelino possuiu vários imóveis, entre os quais um onde funcionava um bar alugado a Zé Batista Dantas, localizado próximo ao mercado velho. O aluguel vencia sempre no dia 30 de cada mês.

Todos os dias, no fim da tarde, vestindo a engomada e abotoada camisa de mangas compridas, o vaidoso Acelino passava  em frente ao imóvel. Da calçada, com seu característico vozeirão, cumprimentava o inquilino:

- Boa!!!!!

A medida que se aproximava a data do vencimento da locação, o cumprimento aumentava de tamanho e de tom:

- Boaaaaaa!!!!!

No dia do vencimento, a saudação do conhecido senhorio se tornava ainda mais forte:

- Boaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!


Colaboração: Geovani da Costa
(imagem Google)