terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

549 - A NAVALHA DE VICENTE CESÁRIO




Nas últimas décadas a vigilância sanitária lançou importantes campanhas alertando que os instrumentos utilizados nos salões de beleza e nas barbearias, se não forem devidamente esterilizados, podem se tornar meios de transmissão de doenças como a hepatite. Um grande avanço, pois antigamente as informações não chegavam aos profissionais, especialmente nas localidades mais distantes e isoladas do país.

Na segunda metade do século passado, um varzealegrense que migrara para São Paulo voltou à querida cidade natal para o período da festa do padroeiro São Raimundo Nonato. Buscando se preparar para os eventos religiosos e festivos da pequena cidade cearense, o paulista se dirigiu a uma tradicional barbearia, onde Vicente Cesário acabava  de cortar o cabelo e fazer a barba de outro cliente.

O recém chegado se sentou imediatamente na cadeira. O velho barbeiro  aplicou pinceladas de espuma no rosto do paulista e se aproximou de um balcão para amolar a navalha usada na barba do cliente anterior. Dentro do estabelecimento ouvia-se o forte barulho da lâmina em fricção com a madeira:

- lapo, lapo, lapo...

 Terminada a barulhenta afiação, o barbeiro Vicente Cesário virou-se com a navalha na mão. O cliente, com carregado e misturado sotaque, mesmo com o rosto repleto de espuma, perguntou:

- Que isso, meu ? Num vai nem passar um alcoolzin na navaia para matar os germe e os micróbio?

O velho barbeiro, com seu jeito rude e sua conhecida espirituosidade, já se posicionando para iniciar o serviço, retrucou:

- Oh caba besta. Tem lá micróbrio que aguente umas lapada daquela na cabeça.

Colaboração: Robson Frutuoso Bezerra
(imagem Google)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

548 - BUENOS AIRES DO SERTÃO




Em Várzea Alegre, sertão cearense, algumas localidades receberam  nomes de cidades argentinas, como Rosário e Buenos Aires. Mas, com o desgaste do tempo, a homenagem da famosa e importante capital sul-americana passou pelo fenômeno linguístico da corruptela, transformando-se simplesmente em  “Bonizário”.

Se a capital argentina sempre encantou pela sua rica e diversificada cultura, o Bonizário varzealegrense marcou pelas histórias de um personagem simples, esperto e irreverente, o trabalhador rural José de Souza Lima, de apelido Pé Veí. Nos finais da tarde, no aparazível sítio de Francisco Fiúza de Lima (Fatico) e de sua esposa Francisca Gonçalves Fiúza (Risalva), na sombreada calçada alta da casa grande, várias pessoas se reuniam, entre as quais o folclórico empregado.

Em um dia do final do século passado,  já no começo da noite, várias pessoas contavam e ouviam histórias na concorrido oitão* da casa de seu Fatico, quando dois viajantes, à cavalo,  se aproximaram e pediram água. Saciada a sede, os homens já montavam no cavalo quando Pé Véi, sem se levantar do banco de madeira,  perguntou:

- Vocês já jantaram?

- Inda não – responderam, os animados viajantes.

Pé Véi, com sua marcante indolência, virou-se para o patrão e disse:

- É uma pena, seu Fatico? Todo mundo comeu e num sobrou nadia...

Conformados, os forasteiros pisavam no estribo para subir na montaria, quando mais uma vez foram interrompidos por Pé Véi:

­- Mas vocês gosta de quaiada?

- Gostamo sim – respondeu, imediatamente, um dos viajantes.

O irreverente Pé Véi, dessa vez se dirigindo à querida patroa, completou:

- Mas espia, dona Risalva, eles num tão cum sorte hoje. Se tivesse pelo meno uma quaiadia...


* Oitão é o lado da casa virado para o nascente, que dá sombra à tarde.
Colaboração: Ropson Frutuoso Bezerra
(imagem Google)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

547 - BARBEARIA (Pedra de Clarianã há dois anos)






          Os estabelecimentos modernos, independente do ramo principal de atividade, oferecem aos clientes diversos produtos e serviços. Em um só lugar o consumidor encontra vários itens. Hoje, os supermercados comercializam pneus, as farmácias negociam chinelos, e os postos de combustíveis oferecem tudo, até gasolina.

          Por muitos anos, na cidade cearense de Várzea Alegre, a barbearia do espirituoso Vicente Cesário, estabelecida na antiga Rua Major Joaquim Alves, já oferecia vários serviços e produtos. No mesmo ponto comercial, além de cortar cabelo e fazer a barba, o cliente também tinha à sua disposição uma alfaiataria, cerveja gelada e o uso do banheiro.


         Certo dia, um representante comercial visitava alguns clientes da pequena cidade quando sentiu uma forte cólica intestinal. Suando frio, indagou onde havia uma privada disponível. Todos indicaram a barbearia de Vicente Cesário. Ali, o uso do precário sanitário, instalado em um piso inferior, possuía preço tabelado pelo conhecido proprietário do lugar. O banho custava dois cruzeiros; defecar, um cruzeiro; e, urinar, cinquenta centavos.

         O visitante, por uma escada de madeira, desceu até o escuro subterrâneo da barbearia e, sob o olhar de alguns cururus nos cantos do úmido cômodo, aliviou-se na pouca higiênica retrete. Ao subir, o usuário se dirigiu ao dono da barbearia e foi logo pagando:


        - Senhor, tome aí um cruzeiro.

        - Conversa é essa. Me passe mais cinquenta centavo. Você já viu um sujeito cagar sem mijar? – retrucou o barbeiro


(imagem Google)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

546 - SELANDO O BURRO




Em um sábado da década de setenta, no sítio São Cosme, em Várzea Alegre, sertão cearense, o jovem Chico Piau preparava um burro para realizar uma viagem ao vizinho município de Cariús. Ao perceber a movimentação do filho, seu Zé Piau, bem sucedido produtor rural, perguntou:

- Francisco, pradonde você vai ?

- Vou num forró pras bandas do Poço do Mato. – respondeu, Chico Piau.

Preocupado, o experiente Zé Piau, com a seriedade de sempre, alertou:

- Viajar uma hora dessa é perigoso, meu fi. Naquelas banda tem um povo valente que gosta de bagunça. Essa viagem num tem futuro não, Francisco.

Com a vivacidade e disposição que marcaram sua vida, Chico Piau, apertando a sela no animal,  respondeu:

- Pai, eu sei que num tem futuro. Se tivesse futuro quem ia era o sinhô. N’era eu não.


Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

545 - ENCHENDO LINGUIÇA




Na segunda metade do século passado, sempre no início da noite, em Várzea Alegre, o produtor rural Zé de Freitas costumava se reunir com os moradores de suas extensas terras para uma boa e divertida prosa.

Certa vez, na boca da noite, após um dia de exaustivo trabalho, na calçada da casa grande do sítio Arapuã, um dos trabalhores falou:

- Seu Zé, disse que o negócio lá nas’europa é avançado demais. O caba joga o poico numa máquina e do outo lado já sai a linguiça pronta.

Outro morador foi além:

- Isso é nada, rapaz. Soube que o Japão é mais adiantado ainda. Lá o caba joga a linguiça na ponta e sai o poico vivo do outro lado.

Zé de Freitas, que ouvia calado as exageradas histórias de seus empregados, se levantou da cadeira de balanço e contou:

- Hômi, vocês lá sabe o que é lugar adiantado. Avançado é nas'Alagoas. O operário mete a cana pra moer no engein e lá na frente já saí um caba nos braços da polícia.


Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

544 - O CANTO DO SABIÁ




Imortalizado pelo poeta maranhense Gonçalves Dias, o sabiá também impressiona pela diversidade do seu melodioso canto. Segundo estudiosos, cada uma dessas aves-símbolo do Brasil possui um gorjeio diferente.

Em Várzea Alegre, na década de setenta, Antônio Valdemar de Souza, conhecido como Balá, criava um invejável sabiá. Sempre apareciam pessoas atraidas pelo lindo canto, mas o criador recusava as inúmeras propostas de venda e troca da ave.

Toda manhã, bem cedo, quando passava pela rua e ouvia o suave gorjear, um dos amigos de Balá batia à porta e propunha a troca do pássaro. Até que um dia, não mais suportando a persistência do conterrâneo, o bem humorado Balá perguntou:

- Sua sabiá fala?

- Fala não – respondeu o amigo.

Com sua constante ironia, Balá, então, disse:

- Sendo assim num dá negócio não. A minha num fala mas já assuletra...


Colaboração: Norberto Batista Rolim
(imagem Google)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

543 - O QUEIJO DE SEU NATÉRCIO




Além  de lugar preferido para comprar carne, frutas, cereais e outros produtos, o mercado público de Várzea Alegre sempre funcionou como ótimo ambiente para encontrar amigos, conversar e saber as novidades da pequena e agradável cidade cearense.

Por muitos anos, um dos concorridos pontos de encontro do mercado foi a bodega de seu Natércio Vicente Andrade. Ali vários amigos se encontravam para uma boa e tranquila prosa. Entre os frequentadores do lugar se destacavam Expedito Fiúza e Eliano de João Miguel, também vizinhos do velho comerciante.

Certa tarde da década de oitenta, Expedito e Eliano conversavam encostados ao balcão da bodega. Enquanto seu Natércio atendia alguns clientes, Expedido cortava e comia fatias do queijo exposto à venda.

Em certo momento da conversa, ainda com a boca cheia, Expeditou Fiúza falou:

- Seu Natércio, se eu fosse pagar toda lasca de queijo que  já comi aqui o senhor ficaria bem de vida.

O conhecido comerciante, enquanto passava o troco a uma cliente, respondeu calmamente:

- Que é isso Expedito? Precisa pagar não. Pra eu melhorar de vida é só você parar de comer o queijo.


Colaboração: Fátima Andrade Bezerra
(imagem Google)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

542 - O CEARENSE QUE CALCULAVA




O livro O Homem Que Calculava do escritor brasileiro Júlio César de Mello e Souza, de pseudônimo Malba Tahan, conta as proezas matemáticas de Beremiz, personagem que habitou a Bagdá do século XVIII.

No árido sertão cearense, em Várzea Alegre, no final do século passado, “Zelim” passava pelo Bairro Patos oferecendo seus limões quando foi chamado por um dono de bar:

- Zelim me dê duas dúzia. Os caba aqui só toma cachaça se tiver limão.

O conhecido vendedor retirava do cesto os vinte e quatro limões quando o comerciante reclamou:

- Zelím, você num soube que guverno baixou uma lei essa semana? Uma dúzia mais doze não. Agora é dezesseis, hômi.

O vendedor  coçou a cabeça e, mesmo contrariado, refez a conta, separando mais oito limões para o cliente. Ao receber as frutas, o comerciante perguntou:

- A cuma é ?

O modesto Zelim vendia uma dúzia da fruta a três reais. Contudo, com a sagacidade do povo simples do interior, aproveitou a mudança do governo para recuperar seu prejuízo, e respondeu:

- Duas dúzia de limão dá certin meia dúzia de real.


Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

sábado, 4 de fevereiro de 2012

541 - SACO DE MANGA (Pedra de Clarianã há dois anos)





     Salomão, personagem bíblico anterior a Cristo, reinou sobre Israel durante cerca de quarenta anos. Ganhou notoriedade pela sua riqueza, reinado sem guerras e, especialmente, pela grande sabedoria. Sua famosa e iluminada decisão na disputa por um bebê entre duas mulheres que se intitulavam mãe da criança encontra registro na Bíblia, no livro de Reis, capítulo 3, versículos 16 a 28.

     O exemplo de paz e sabedoria salomônica espalhou-se pelo mundo. Em Várzea Alegre, pequena cidade do sertão cearense, no final da década de setenta, o comerciante José Gonçalves, conhecido como Zé Manga Mucha, recebeu de um freguês o presente de um saco de manga jasmim. Imediatamente, Zé chamou seu filho Josimar, conhecido por Mazin, e disse:

      - Vá deixar esse saco de manga em casa.

      Josimar retrucou, resmungando:

      - É danado, por que pai não manda Jossian, que é mais velho?

     Ao ser citado, Jossian logo se recusou a carregar o saco.

     - Pai, mande Josibel, pois eu tou ocupado.

     - ôxi, Mazin e Jossian não quis levar. Eu também não vou não. – disse Josibel.

      Como os três filhos se recusaram carregar o presente até sua casa, localizada bem próxima à bodega, o comerciante Zé Manga Mucha levantou a voz com rispidez e determinou ao filho Josimar:

       - Mazin, vá agora mesmo levar esse saco de manga em casa. Não quero conversa.

     Josimar dessa vez não argumentou. Sob o olhar severo do pai e percebendo o sorriso irônico dos irmãos, apanhou o saco e saiu em direção à sua casa. Quando o carregador retornou, o comerciante se dirigiu a Jossian e ordenou:

      - Vá agora lá em casa e traga o saco de Manga.

     Os filhos entranharam a determinação. Só se o pai não quisesse mais saborear a deliciosa fruta tropical. Porém quando o saco de manga voltou a bodega trazido por Jossian, seu Zé determinou a Josibel:

     - Agora você vá levar de novo o saco de manga lá em casa.




Colaboração: Josimar Caldas Bezerra, Mazin
(imagem Google)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

540 - PLÁSTICA ÍNTIMA




Nos tempos modernos, na incansável busca pelo corpo perfeito, mulheres recorrem a diversos procedimentos corretivos, inclusive à plástica vaginal ou perineoplastia.

Conhecida apenas como “perine”, a plástica íntima serve para corrigir danos causados por sucessivos partos naturais ou pelo envelhecimento, permitindo à mulher uma vida sexual mais saudável e feliz.

Na pequena Várzea Alegre, em uma movimentada manhã da década de oitenta, duas conhecidas donas de casa que não se viam há algum tempo se encontraram na entrada da Casa de Saúde São Raimundo Nonato.

Após rápido cumprimento, a mais jovem, mesmo com várias pessoas atentas à conversa, perguntou:

- Cumade, é devera que tu vai fazê perine?

Também sem pedir conveniência, com voz alta, a mulher mais velha respondeu:

- Vou nada, cumade. Quem alargou que coma frouxo...


Colaboração: Antônio Gerson (Piroxa)
(imagem Google)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

539 - BALÁ NO CEDRO





   
     Cedro e Várzea Alegre, duas pequenas cidades do sertão cearense, sempre possuíram fortes laços de amizades e estreitos vínculos familiares. E seus habitantes mantém até hoje amistosos relacionamentos.

       No início da década de sessenta, Antônio Valdemar de Souza(Balá), Antônio Cavalcante(Pista), Osmundo Fiúza, José Adálio (Zé Gatinha) e outros rapazes de Várzea Alegre foram até o vizinho município do Cedro participar de um evento festivo.

    Mas naquele fim de semana, por conta de um desentendimento ocorrido dias antes, os rapazes do Cedro não viam com bons olhos a visita dos vizinhos de Várzea Alegre. Em certo momento da festa, um cedrense se aproximou de Balá e seus amigos e, com ar intimidatório, falou:

      - Nós aqui do Cedro tamo na maior vontade de pegá os caba de Várzea Alegre...

    Buscando amenizar o clima e fugir da intriga, o espirituoso e divertido Balá completou:

      - Rapaz, maior que a nossa não. Nós de Farias Brito* também temo a maior vontade de pegar esses caba besta da Várzea Alegre...




* município vizinho a Várzea Alegre.

(imagem Google)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

538 - LA BARRANCA




No final da década de setenta, inaugurou, em Iguatu, progressista município do centro-sul cearense, o luxuoso restaurante La Barranca, localizado às margens do Rio Jaguaribe.

Certa vez, em uma das constantes viagens de negócio à vizinha cidade, o corretor de algodão Antônio Ulisses resolveu parar no sofisticado e badalado estabelecimento.  Ao entrar e tomar algumas doses de Ron Montilla, o varzealegrense se entusiasmou com o ambiente e disse ao ferreiro Chico Basil, seu companheiro de viagem:

- Chico, aqui só come os caba rico do Iguatu. Hoje nós vamos comer coisa que você nunca viu lá na nossa Várzea Alegre.

Para impressionar o velho amigo, Antônio Ulisses chamou o garçom e escolheu um prato com o nome mais chique e diferente. Poucos minutos depois, voltou à mesa o bem vestido funcionário do restaurante, servindo os já famintos clientes e dizendo:

- Senhores, aqui estão as almôndegas. Bom apetite.

Chico Basil olhou para o pequeno prato e, com um sorriso na boca, comentou com o também decepcionado amigo:

- Tõe Lisse, essas bolinha de carne também vende lá no café de Domicila...



(imagem Google)

sábado, 28 de janeiro de 2012

537 - A GINGA DE CARLÚCIO




Por alguns anos Várzea Alegre viveu uma intensa rivalidade entre as equipes de futebol do SEVA e do COMERCIAL. Nos domingos à tarde, o campo de chão batido do Juremal se enchia de fanáticos torcedores para assistir ao disputado e emocionante clássico.

Entre os jogadores da época se destacou um de nome Carlúcio. Vindo de fora, se entrosou logo com o moradores e viveu por muito tempo em Várzea Alegre. O atleta, além de sua boa participação em  campo, mantinha um estilo de vida diferenciado, uma gabolice exagerada, que impressionava e influenciava a todos, pricipalmente os mais jovens.

Mantidas as devidas proporções Carlúcio seria para nós o Ronaldinho Gaúcho da época, o Neymar do sertão, o Cristiano Ronaldo do interior cearense. O atleta mantinha um caminhado diferente. Como se possuísse molas nos calcanhares e no pescoço, se sacudia todo, balançando dos pés aos longos cabelos crespos.

Certa segunda, cedo da manhã, ainda processando na memória os belos lances do concorrido clássico no dia anterior, cheguei pouco tempo antes de soar a campainha para entrar no Centro Educacional São Raimundo Nonato. Ao me ver com um caminhado diferente, o esperto Antônio Clécio Clmentino, conhecido como Bodoga, da calçada da Capela de Santo Antônio, repleta de alunos, gritou:

- Eita, lá vem Flavin de Luiz Silvino se balançando. Tá todo boçal! Agora só quer ser Carlúcio...


(imagem Google)


sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

536 - BENGALA DO SERTÃO



Contam que na segunda metade do século passado surgiu em Várzea Alegre um rapaz com o membro viril enorme e torto. E mesmo com esse invejado dote, ele não conseguia obter sucesso ou manter uma relação estável com as mulheres da cidade. Sempre que iniciava um contato íntimo, a parceira gritava ou chorava, especialmente no momento em que a penetração alcançava a curva do espantoso órgão genital.

Tamanho era o exagero que o rapaz costumava desafiar as mulheres. Aquela que aguentasse, não chorasse ou gritasse na hora “h”, ganharia uma boa quantia em dinheiro.

Certo dia, o homem apresentou a proposta a uma corajosa prostituta da cidade. Realizado o acerto, os dois entraram em um quarto do modesto estabelecimento das Quatro Bocas, antiga área do baixo meretrício da cidade cearense.

Tudo começou bem, com a parceira suportando tranquilamente o desafio. Porém, no momento em que a penetração chegou ao ponto da curva do rígido órgão do rapaz, a mulher da vida gritou e soltou um estrondoso peido.

Imediatamente, o desafiante falou:

- É, tem jeito não. Você perdeu, também. Num aguentou e até peidou...

A experiente prostituta, segurou o parceiro pelas costas e disse:

- Ah meu fii, pode continuá. É que nem o carro quando entra numa cruiva fechada. Tem que buziná alto...



Colaboração: Klébia Fiúza
(imagem Google)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

535 - O MUDO DE ZÉ PERU




A acolhedora cidade de Várzea Alegre, por conta da letra de Zé Clementino cantada por Luiz Gonzaga, tornou-se ainda mais conhecida como a Terra dos Contrastes. O versos da bem humorada música lembram da época em que o calango era carcereiro, o padre era casado, o bode era marchante e muitas outras excentricidades.

Mas as caricatas diferenças da cidade cearense não se resumem às cantadas pelo inesquecível Rei do Baião. Vários outros contrastes permaneceram fora da letra do conterrâneo Zé Clementino, dada a acentuada inteligência e inesgotável criatividade do povo simples do interior cearense.

Recentemente, em um dos portões do mercado velho, encontrei com vários amigos, entre os quais Titico Bitu, João Sem Braço, Regis Leandro e Franciscos Carlos Pinheiro. Com a agradável e divertida conversa logo me atualizei sobre as boas histórias da minha querida cidade natal.

Em meio a tantas, umas das novidades me arrepiou, tamanha a maledicência do fuxico. Impressionado, indaguei:   

- Mas quem contou essa história tão cabeluda?

Sem titubear, João Sem Braço, indicando o sorridente aposentado que se aproximava, disse:

- Esse aí. O Mudo de Zé Peru. O caba mais falador da Várzea Alegre.


(imagem Google)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

534 - PÉ DE VALSA




         A dança nunca representou umas das mais destacadas habilidades do meu avó paterno Raimundo Cavalcante. Mesmo assim, por algumas vezes, arriscou-se nos modestos salões da pequena e animada Várzea Alegre.

         Certa noite, em meados do século passado, o agricultor e comerciante Raimundo saiu à cavalo do sítio Guaribas, onde morava, para participar de um samba* na sede do acolhedor distrito do Riacho Verde. Ao chegar ao movimentado local, escolheu como parceira uma exímia e cobiçada dançarina da região.

Após duas músicas, o esforçado dançador já se empolgava em novos passos, quando a tímida moça, sofrendo com as pisadas em seus pés, disse:

- Raimundo, n’era bom você descer um pôco e dançá umas musgas no chão?


* nome usado para os eventos dançantes da época.
Colaboração: Socorro Cavalcante Lopes
(imagem Google)

sábado, 21 de janeiro de 2012

533 - O SOL DE PADRE CÍCERO




Neste mês de janeiro, ao chegar na minha querida Várzea Alegre, todos reclamaram do forte calor que assolava a cidade. Vindo da também quente Macapá, não notei muita diferença na temperatura, só mesmo a baixa umidade do árido sertão cearense.

Ao fazer uma visita no aprazível sítio Santa Rosa, minha querida tia Socorro disse que a quentura de Várzea Alegre não era nada. Quente mesmo era o vizinho município do Juazeiro do Norte.

Tia Socorro lembrou que a cunhada Vilani possuía uma casa virada para o poente, em uma estreita rua da área central de Juazeiro.  Várias vezes ao mês, a aposentada saía de casa à tarde para realizar compras na movimentada Rua São Pedro, no centro comercial da centenária cidade criada pelo cultuado Padre Cícero.

 Ao voltar, com horas de sol batendo na porta da casa, a aposentada Vilani evitava tocar no ferrolho e no cadeado de sua casa, sob pena de sofrer fortes queimaduras na mão. Só conseguia  entrar  depois que esfriava o portão de ferro, jogando baldes d´água que tomava emprestado do vizinho.


(imagem Google)