terça-feira, 18 de outubro de 2016

949 - ARTILHARIA (Blog há 7 anos)


     O menino que nasceu Raimundo se transformou em João Sem Braço logo após passar pelo infortúnio de perder o membro superior esquerdo em um acidente. Mas a falta do braço não impediu o conhecido varzealegrense de atirar de baladeira, jogar sinuca e realizar com habilidade outras atividades que em regra exigiriam a utilização dos dois membros.

     Em um campeonato realizado na quadra de esportes da Escola Presidente Castelo Branco, João Sem Braço foi escalado para jogar futebol de salão, hoje futsal, pelo time de alunos do Colégio São Raimundo Nonato.

     A equipe iniciou bem o campeonato, mas, na última partida, contra o rival Presidente Castelo, sofreu dois gols ainda no primeiro tempo. Descontrolado, João Sem Braço, para surpresa da torcida, passou a chutar contra a baliza defendida pelo goleiro do seu time. Bastava a bola chegar aos seus pés que o descontrolado jogador chutava fortemente contra o próprio patrimônio. Após sofrer uns cinco gols contra, o técnico finalmente pediu um tempo e, com rispidez, se dirigiu ao seu atleta;

     - João Sem Braço, você ficou doido? Por que ta fazendo gol contra?

     Com seu jeito irreverente, o jogador apresentou sua justificativa:

     - Já que vamos perder o campeonato, quero ser pelo menos o artilheiro.



Colaboração: Klébia Fiúza

(imagem Google)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

948 - CICLOEXPEDIÇÃO DO RIACHO DO MACHADO AO VELHO CHICO



     "Nasci pela Ingazeiras,

     Criado no oco do mundo.

     Meus sonhos descendo ladeiras,

     Varando cancelas,

     Abrindo porteiras..."


     Pedalando por 560km pelos terrenos secos  e acidentados do sertão nordestino, na  CICLOEXPEDIÇÃO DO RIACHO DO MACHADO AO VELHO CHICO, me peguei várias vezes cantarolando esses versos do cearense Ednardo.

     
     Eu, Lanussi, Jorgin, Reginaldo, Carlin, Batista, Thales e Lamark, todos do cariri cearense, neste mês de outubro de 2016, saímos de Várzea Alegre-CE, terra do intermitente Riacho do Machado, e, após setenta e quatro horas queimando pneu de bicicleta pelo semiárido do Ceará, Paraiba, Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe, alcançamos as margens do belíssimo Rio São Francisco, na cidade alagoana de Piranhas.

     No difícil percurso, nas noites de descanso, recuperamos as energias em pousadas de Barro-CE, Salgueiro-PE e Petrolândia-PE


     Vivemos dias de hercúleo esforço, intensa emoção e grata superação. Para cumprir a planejada meta contamos com o fundamental apoio de vários colaboradores e com a estrutura disponibilizada por meu irmão Luiz Fernando.


     Ainda vestidos com as armaduras(camisas)  do evento e ao lado de nossas bicicletas, no Centro Histórico da cidade de Piranhas, na Cachaçaria Altemar Dutra, comemoramos o inesquecível feito.


     No fim da noite, extenuados e felizes, nos dirigimos ao hotel para o merecido descanso. Ali, como em todos os lugares que passamos, as pessoas se admiraram e elogiaram a nossa coragem. Um jovem e humilde funcionário do estabelecimento, ao escutar breve relato do nosso longo percurso, falou:


     - Meu avó também já foi duas vez numa barra circular* daqui até o Juazeiro pagar promessa pro Pade Ciço.


     Eu, ainda retirando alguns equipamentos da minha moderna e levíssima bicicleta de carbono, cantando vitória por nosso insuperável feito retruquei:


    - Com certeza seu avô demorou mais duma semana pra chegar daqui de Piranhas no Juazeiro do Norte,  ?


      O jovem rapaz respondeu:


     - fez em três dia e três noite, descansado pouco e dormindo ao relento no mei da estrada...


* modelo simples de bicicleta da marca Monark
(Imagem Google)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

947 - DESPERTADORA



     Em minha vida, por dádiva de Deus, gozo sempre do privilégio de conviver com pessoas especiais, que me ensinam, me acolhem, me estimam, e, sobretudo, me toleram.

      Por alguns anos, na década de 1980, morei em Fortaleza com minha avó materna Maria Amélia. Ela, professora aposentada, tutora de vários filhos e netos, me tratava com regalia, me mimava, me punha dengo. Porém, como todos nós humanos, desenvolveu algumas manias. Mantinha hábitos como acordar bem cedo e, de certo modo, se incomodar com aqueles que amanheciam o dia dormindo.

     Eu, naquela época, estudante do período noturno, nem todo dia precisava levantar cedo e informava com antecendência à minha querida avó os dias da semana que possuía atividade no início da manhã. Para facilitar a comunicação avó-neto, colava na porta do meu quarto uma agenda escrita em letras garrafais com os horários dos meus compromissos semanais.

     Minha avó, esbajando vitalidade, iniciava sua rotina diária na madrugada. Ainda escuro, rezava o terço, ouvia programas de rádios, arrumava os guarda-roupas, mexia em sacos plásticos e trocava móveis de lugar. E, mal entrava os primeiros raios de sol pela janela do quarto, caso todo esse barulho não bastasse para  despertar o sonolento adolescente, ela ia à minha cama, me sacodia e perguntava:

     - Flavin? Flavin? Hoje é dia de te acordar cedo????

(Imagem Google)

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

946 - ÚLTIMA MERENDA (blog há 7 anos)


         Francisco Basil de Oliveira, ferreiro aposentado, ganhou fama em Várzea Alegre pela maneira cômica de contar histórias simples do cotidiano cearense. Nada escapava da suas narrativas, nem mesmo momentos críticos e delicados da existência humana. Sobre a certeza da morte, o espirituoso e realista Chico Basil costumava dizer:

         - O rim de morrer é não poder espantar as moscas.

        Entre suas várias histórias sobre a viuvez, o ferreiro contava como verdadeira uma acontecida há vários anos no Riacho Verde, progressista distrito varzealegrense.

        Certa tarde, uma velha senhora cuidava de seu moribundo esposo que sofria em uma rede. O pobre enfermo, respirando com dificuldade, disse:

        - Muié, pelo cheiro tu tá fazeno bolo de caco, ? Me dê um pedacin.

        Enxugando a testa do febril esposo, ela argumentou:

       - Mas Zé, que é que eu vou servir na boca da noite, quando o povo começar a chegá pa teu velório?


*colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

945 - LAGOSTA (Blog há 7 anos)


     Depois de estudar alguns anos no Colégio Agrícola de Lavras da Mangabeira, o varzealegrense Paulo Danúbio se mudou para Fortaleza no início da década de setenta. No Liceu do Ceará, foi cursar o primeiro ano do ginasial – hoje sexta série do ensino fundamental.

     O aluno, que mais tarde se formou em biologia pela Universidade Estadual do Ceará e se tornou um bem conceituado professor, adorava as aulas de ciências. Já nos primeiros dias, logo que chegou ao tradicional colégio da Capital Alencarina, buscou participar ativamente das aulas. Certo dia, a professora de ciências, falando sobre os aspectos alimentares e nutricionais dos crustáceos, fez uma pergunta aos alunos:

     - Quem aqui da sala já comeu lagosta?

     Para a surpresa da educadora, o aluno Paulo Danúbio foi o único a levantar o braço.

     - Mas, Paulo. Você acabou de chegar do interior, não sabia que os crustáceos faziam parte da culinária de Várzea Alegre.

     - Desculpa, professora, eu não entendi direito. Lagosta era uma jumentinha que vivia lá pelos tabuleiros, perto do colégio agrícola das Lavras.




(imagem Google)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

944 - LANTERNINHA (Blog há 7 anos)


     O sinal de televisão com qualidade, sem chuvisco e chiado, demorou a chegar ao sertão cearense. Somente no final da década de setenta, com o surgimento das antenas parabólicas e outros meios modernos de retransmissão, foi que passamos a acompanhar com regularidade os programas televisivos.

      Em férias escolares, quando eu viajava para Fortaleza me contentava em ficar o dia inteiro diante do aparelho de televisão vendo desenhos animados. Nada desviava minha atenção da Pantera Cor de Rosa, do Tom e do Jerry ou do Marinheiro Popeye. E se a televisão em preto e branco de minha avó Maria Amélia já me encantava, imagine ver uma comédia infantil na tela gigante de um moderno e confortável cinema. Pois, em uma dessas viagens, no ano de 1977, meu tio Paulo Danúbio me levou junto com meu primo Sergio Ricardo para assistirmos no famoso cine São Luiz ao filme campeão de bilheteria daquele ano: O Trapalhão Nas Minas do Rei Salomão.

     Encantados com a beleza do cinema, eu e Serginho nos divertíamos com as graças e estripulias dos personagens de Renato Aragão, Dedé Santana e Mussum. No meio do filme, fomos surpreendidos com um avião de papel que voara pela projeção e caíra sobre nós. Eu, de imediato, apanhei o avião, e o arremessei novamente. A sombra do avião foi projetada na grande tela.

     Pouco tempo depois chegou um senhor com uma lanterna na mão e chamou tio Paulo.  Os dois conversaram baixinho por algum tempo. Embora concentrado no filme, eu percebi que meu tio gesticulava muito e nos apontava insistentemente.

     Logo na saída do cinema, ainda na movimentada e tradicional Praça do Ferreira eu perguntei:

     - Ti Paulo, o que aquele homem da lanterna queria com o senhor?

     - Comigo nada. Ele queria era botar vocês pra fora. Não pode jogar papel pra cima. Atrapalha o filme. Ele só desistiu quando eu disse a ele assim: “Seu lanterninha esses mininos vieram do interior. Viajaram quase quinhentos quilômetros só pra ver os Trapalhões”.


(imagem Google)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

943 - BAIÃO 'VERSUS' PIZZA (Blog há 7 anos)


     Com cerca de quatorze anos de idade, no à época isolado sertão cearense, meus hábitos alimentares eram bem ortodoxos. Em casa, como comum, o fogão funcionava de acordo com a rotina do mercado de carnes da cidade. Em cada dia da semana minha mãe servia um prato diferente. Lembro que toda sexta, dia da matança dos animais, tinha fígado de boi no jantar. No almoço do sábado, apreciávamos a “carne batida”, conhecida em outros lugares como picadinho. A deliciosa galinha caipira só enfeitava o cardápio do almoço dos domingos.

          Hoje lembrei que graças ao meu padrinho José Iran Costa conheci a culinária de outros lugares. Eu estava no Crato para passar apenas o dia curtindo o parque de exposições, e Iran Junior e seu pai convenceram meus genitores para que eu ali permanecesse no tradicional evento do interior nordestino.

          Assim eu fiquei por mais uns dias no progressista Crato junto com doutor Iran e sua família. Foram dias inesquecíveis, repletos de divertimentos e novidades. Em um fim de tarde, fomos a um restaurante e nos foi servido algo diferente. Uma massa com coberturas coloridas trazida em uma forma arredondada. Eu estava sendo apresentado à pizza. Quando madrinha Lolanda me ofereceu o tradicional prato italiano, eu, garoto tímido, mesmo sem nunca ter provado da estranha comida, por não saber sequer como me servir, disse:

          - Obrigado madinha, eu num gosto de pizza.

          Assim, eu jantei com o meu padrinho Iran um tradicional baião de dois, enquanto com o canto do olho observava seus filhos Guilherme e Iran Junior, usando estranhos molhos vermelhos e amarelos, degustar a aparentemente saborosa massa italiana.

(imagem Google)

sábado, 3 de setembro de 2016

942 - ENTERRO DE AMIGO



     Participar das últimas homenagens aos falecidos trata-se de um costume comum a povos de todas as épocas e de todos os continentes. No entanto, por variados motivos, há pessoas que preferem não testemunhar esses sensíveis e dolorosos momentos de despedida.

     Em Várzea Alegre, cariri cearense, na década de 1970, faleceu um grande amigo do agricultor José de Souza Lima (Pé Véi). Passou o velório, houve a missa de corpo presente e nada do agricultor se movimentar para acompanhar as cerimônias fúnebres.

     No final do dia, um conhecido passou apressado pela estrada vicinal do aprazível sítio Buenos Aires, e, vendo o agricultor sentado no chão e preparando um cigarro de fumo, questionou:

     - Pé Véi, hômi. Tu num vai na rua pro enterro do teu amigo, não? É daqui pa’pouco...

     - Vou não, respondeu, o indolente lavrador.

     - E por que tu num vai? Era tão teu amigo...

     Pé Véi continuou sentado, deu uma pitada no cigarro de fumo, e, com o ócio criativo digno de Macunaíma*, completou:

     -Que é que tem? Ele também num vai no meu...

*personagem do romance de Mário de Andrade
(Imagem Google)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

941 - A QUEDA DA TORRE (Republicado em homenagem ao dia de São Raimundo Nonato)


         Ontem, dia dedicado a São Raimundo Nonato, de longe recebi notícia da grande manifestação religiosa em Várzea Alegre. Ao saber das milhares de pessoas na procissão em homenagem ao Santo Padroeiro  recordei abril de 1977, quando parte da torre da igreja matriz ruiu, consternando e mobilizando a comunidade católica da região.

          Equipe do Corpo de Bombeiros veio à pequena cidade cearense para retirar a imagem de São Raimundo Nonato  que permaneceu intacta na única parte da torre que não caiu.

 Na época eu era escoteiro e nosso grupo ajudou no isolamento da área para a ação dos bombeiros. Assistimos maravilhados à ação daqueles corajosos homens, com suas enormes escadas, variadas cordas e protegidos por capacetes.

         Toda cidade admirava a agilidade e bravura dos equipados bombeiros, quando, em determinado momento, o querido e saudoso menino Antônio Clécio Clementino, conhecido como Bodoga, referindo-se a um varzealegrense que sempre realizava serviços no alto da torre,  gritou:

Oh besteira, Calabaço sobe aí em cima só de chinela japonesa.


(imagem Google)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

940 - OS MENINOS DO PARQUE MAIA (Republicado)


Durante os dez últimos dias do mês de agosto, em Várzea Alegre, vive-se o animado período da festa do padroeiro São Raimundo Nonato. Enquanto os adultos participam dos eventos religiosos e circulam pelas barracas do arraial, as crianças acompanham a movimentação do parque de diversões que se instala na cidade cearense. O sonho da meninada dura até o dia 31, quando começa a rápida, triste e angustiante desmontagem da pesada estrutura.

No final da década de 1970, os meninos Júlio Bastos Leandro, Geraldo Leandro Filho e Fernando de Zé de Zacarias moravam na antiga Getúlio Vargas, uma das ruas onde o tradicional Parque Maia* era montado. Sem dinheiro, passavam os dias e as noites de festa circulando pelo “carrossel”, buscando uma forma alternativa de “rodar” nos brinquedos.

Uma vez, cedo da manhã, os garotos cataram do chão os bilhetes usados e rasgados na noite anterior e colaram com  grude de goma. Mas os atentos funcionários do parque descobriram facilmente a grosseira montagem.

No mesmo ano, em uma noite movimentada, encostados à grade, os meninos da Getúlio Vargas conseguiram abrir um pouco as barras de ferro e acessar o brinquedo conhecido como Cavalinho pela alargada brecha do gradil. O primeiro a entrar clandestinamente, Geraldo Filho, montava alegremente em um dos animais de madeira, quando Fernando alertou:

- Geraldo, bora voltá, seu irmão Julin ficou com cocão inganchado na grade...

* Parque de diversões que, junto com o Parque Lima, por várias décadas, montou seus brinquedos em Várzea Alegre.

939 - FESTA DE AGOSTO NO JAPÃO (Republicado)



       Na década de 1990, minha prima Rosiana de Carvalho Costa, contadora e enfermeira, morou no lugar mais distante possível da nossa Várzea Alegre. Ela viveu por alguns anos no Japão, do outro lado do planeta. Basta lembrar que, mesmo de avião, a viagem do Brasil à Terra do Sol Nascente demora cerca de vinte e quatro horas.


Imagino que morar tão longe e em um país com cultura tão diferente multiplica ainda mais a saudade dos familiares, dos amigos e da terra natal.

Todo varzealegrense que vive fora de sua cidade sofre especialmente nos últimos dias de agosto, época em que o município cearense recebe inúmeros visitantes e realiza os festejos em homenagem ao seu padroeiro São Raimundo Nonato.


Em um desses dias de agosto, com o coração apertado, Rosiana ligou do Japão para Várzea Alegre. No meio da conversa com sua mãe Rosa Amélia, perguntou:


- Como tá por ai ? Como tá festa? Tá animada? Tem muita gente?


A experiente mãe testemunha todos os anos o crescente movimento de pessoas nos festejos religiosos e no arraial. Mesmo assim, buscando acalentar o coração da filha, respondeu com uma bem intencionada mentira:


Ziana, você num tá perdendo nada. Esse ano tá fraquin demais. Num tem quase ninguém...



Colaboração: Terezinha Costa Cavalcante

(imagem Google)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

938 - TURISTA (Pedra de Clarianã há 7 anos)


       Minha tia Rosa Amélia aceitou meu convite e dias atrás veio conhecer o Estado que me acolheu. Em apenas uma semana de passeio, com sua simpatia e contagiante disposição, saboreou da deliciosa vida no Amapá.

        Comeu várias doses de camarão no bafo na praia do bucólico distrito de Fazendinha. Ao lado da histórica igreja de São José, provou uma cuia do tradicional tacacá, servido na calçada da central e movimentada Rua São José. No Igarapé da Fortaleza tomou açaí "do grosso" misturado com farinha de tapioca. Foi à feira do produtor rural comprar castanha-do-pará, cupuaçu e molho de tucupi. Depois de visitar a Casa do Artesão, bebeu latas de cerveja com sal e limão preparada por Lourival. Em passeios pela orla, especialmente no “lugar bonito”, contando com a proteção das centenárias muralhas da bem conservada Fortaleza de São José de Macapá, se refrescou com a brisa soprada nas margens do gigantesco Rio Amazonas.

       No interior, no aprazível Município de Ferreira Gomes, antes de se deliciar com uma bem servida caldeirada de peixe, minha tia banhou-se feito criança nas águas límpidas do Rio Araguari, bem longe de sua foz e de onde acontece o famoso fenômeno da pororoca.

        É bem verdade que faz muito bem viajar, conhecer novos lugares, contatar pessoas e culturas diferentes. Mas para tia Rosa Amélia sua vinda ao Amapá trouxe ainda mais benefícios. Ao voltar para Várzea Alegre, fez o seguinte comentário:

        - Gostei tanto do passeio que cheguei me sentindo mais jovem e mais bonita. Só quando me vi no espelho do meu quarto notei que ainda continuava com as marcas dos meus setenta e cinco anos de idade.


(imagem Google)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

937 - CAIXOTE MÁGICO (Blog há 7 anos)



     Fundada em setembro de 1950, por Assis Chateaubriand, a TV Tupi de São Paulo foi a primeira emissora de televisão do Brasil. Porém, a revolucionária invenção do escocês John Baird demorou a se espalhar pelo restante do país, especialmente pelas pobres regiões do nordeste.

     Também naquela metade do século passado, fugindo das intempéries do sertão cearense, o ferreiro Chico Basil viajou para São Paulo. Na progressista região teve a oportunidade de conhecer o impressionante invento.

     Depois de um bom tempo trabalhando na terra da garoa, na volta para o Ceará Chico explicou para o seu velho pai, Antônio Basil de Oliveira, a novidade do sul:

     - Papai, o sinhô carece vê uma coisa que tem no São Paulo. É uma caixa de madeira que daqui de Várzea Alegre nós enxerga e ouve uma pessoa que tá conversano lá nas banda das Lavras da Mangabeira.

      O cético sertanejo Antônio Basil logo retrucou:

    - Chico, meu fi, deixa de leriado*. Eu ainda tou custano** a acreditar na caixa que só fala e ocê vem com outra que enxerga o povo que noutras paragens.

* vocábulo cearense que significa “conversa fiada”
** flexão do verbo custar, que, no ceará, é sinônimo de demorar
(imagem Google)

domingo, 21 de agosto de 2016

936 - O JEITO DELFONSO DE SER





O artista varzealegrense Idelfonso Vieira Lima não acumulou riquezas, bens materiais. Viveu sempre com simplicidade, sem luxo, sem ambições. Produziu, no entanto, um enorme patrimônio de conhecimento e fez questão de dividi-lo com um grande número de discípulos.

Com seu jeito simples, simpático e bem humorado, o grande pintor desenvolveu características que marcaram sua vida, fácil e imediatamente percebidas por aqueles que com ele conviveram.

Na década de 1980, Delfonso adquiriu uma Brasília vermelha e fez uma viagem de Várzea Alegre a Juazeiro do Norte. Na condução do primeiro e único automóvel do talentoso pintor, seguia um dos seus aprendizes, Airton de Sinhô.

No meio do percurso, após a sede do município de Farias Brito, Delfonso dormia tranquilamente no banco do passageiro, quando acordou com um enorme barulho. Sobressaltado, o artista indagou:

- O que foi isso, Airton?

Ainda nervoso com o susto, o jovem motorista respondeu:

- Foi um cachorro, Delfonso, que atravessou a estrada e eu não consegui desviar.

O saudoso Delfonso, nem quis saber se o choque danificara o seu carro. Curioso, perguntador inveterado, revelando uma das características que marcou sua vida, arrumou os óculos e interrogou:

- E de quem era cachorro?

(imagem Google)

Colaboração: Samoel Moreira de Holanda Junior

terça-feira, 16 de agosto de 2016

935 - DELFONSO E O BOLO DE FORMIGA



Idelfonso Vieira Lima nos deixou, mas permaneceu em todos os que o conheceram a sensação de que ele cumpriu com méritos e simplicidade sua missão na Terra.

Homem de muita sabedoria e inesgotável bondade, desenvolveu e compartilhou com inúmeros jovens habilidades para a pintura, a escultura, a música e outras artes. Não bastasse, Delfonso adorava contar suas histórias, com um estilo próprio e bem-humorado.

Certa vez, na década de 1980, o conhecido artista varzealegrense comprou uma fatia de bolo fofo na Padaria e Lanchonete de Sinhô, localizada na antiga Rua Major Joaquim Alves, no centro da cidade cearense. Em vez de comer no local, Delfonso preferiu levar o bolo para o seu ateliê.

Dias após, Delfonso encontrou com Gean Claude, filho do proprietário e atendente da padaria, e comentou:

- Gean, naquele dia, quando eu lembrei de comer, o bolo tava chein daquelas formiguinhas pequenas. Fiquei com dó de não saborear o bolo. Mas tive uma ideia e todas as formiguinhas ligeiro desapareceram...

- E o que você fez, Delfonso ?? – Perguntou, o curioso Gean.

- Foi simples. Tirei os óculos...

(imagem Google)

Colaboração Gean Claude Alves de Holanda 

sábado, 13 de agosto de 2016

934 - A PINTURA DE DELFONSO (Homenagem do Blog)

 
     O varzealegrense Ildefonso Vieira Lima tornou-se conhecido no centro-sul cearense por suas habilidades na difícil arte da pintura. Vários jovens passaram por seu modesto ateliê e aprenderam a manejar o pincel. Uns permanecem até hoje no ofício e outros, com os ensinamentos do mestre, galgaram profissões diversas ao longo da vida.

Além do incontestável desempenho artístico, o pintor Delfonso também marca pela original forma de contar histórias. De um jeito singelo, simples e ingênuo, narra situações do cotidiano sertanejo.

Outro dia, Delfonso contou que um morador do sítio Panelas, em Várzea Alegre, descia uma íngreme ladeira de bicicleta quando avistou uma pessoa com as calças arriadas e acocorado no meio de uma roça de milho. Ao ver a cena, o indiscreto ciclista gritou:

- Eeeei cagão!

O homem, flagrado na desconfortável situação, levantou as calças rapidamente e buscou localizar o impertinente no leito da estrada vicinal. Ao ver o rapaz que seguia distante, sem saber o que falar, improvisou:

- E tu andadô de bicicleta...

Colaboração: Ropson Frutuoso
(imagem Google)

Obs.: Hoje, o nosso querido Delfonso nos deixou, mas seu legado de simplicidade, afeto e bondade continuará conosco por muito tempo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

933 - GRAVIDEZ INDESEJADA (Blog há 7 anos)



     Nesta época de rígidas imposições estéticas, a busca pelo corpo perfeito virou obsessão para inúmeras pessoas. Os homens anseiam possuir formas de Deus grego; as mulheres, silhuetas de atrizes e modelos famosas. Embora o excesso de peso se torne cada vez mais comum, ser gordo está completamente fora de moda.

     Não bastasse, os obesos são alvos preferidos de maliciosas piadas e tratados por ridículos apelidos. Ninguém consegue escapar ileso, nem mesmo o famoso jogador de futebol “Ronaldo Fenômeno”, costumeiramente tratado por gorducho.

     O varzealegrense Alberto, proprietário da Casa Zé Augusto, por conta do seu aguçado apetite, sempre cultivou uma barriga protuberante.

      Certo dia, em seu concorrido bar, escutou o comentário e a maliciosa pergunta de um gaiato freguês:

     - Eita que barriga grande, Alberto! Quando a criança vai nascer?

       A resposta do espirituoso comerciante foi imediata:

     - Tá nascendo. O braço já tá no lado de fora. Puxe aqui.


(imagem Google)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

932 - ROMEIRO EM SALVADOR (Blog há 7 anos)



     Todo turista costuma trazer lembranças de suas viagens, especialmente miniaturas dos pontos turísticos que visita. Assim, quem vai a Paris compra miniaturas da famosa torre construída por Gustave Eiffel para Exibição Universal de 1889. Indo ao Rio de Janeiro é de praxe adquirir pequenas cópias do belo monumento Cristo Redentor, inaugurado em 1931. Aqueles que vêm à Macapá não deixam de buscar pequenas réplicas da imponente Fortaleza de São José, encravada na margem do Rio Amazonas desde a segunda metade do século XVIII.

     Meu querido primo Sérgio Ricardo, no início da década de 70, ainda criança, acompanhou seu pai Sérgio Carvalho em uma viagem para a distante cidade de Salvador. Logo na visita ao centro histórico do Pelourinho, Sergin não esqueceu de pedir dinheiro ao pai a fim de comprar lembranças para suas irmãs Romélia, Rosélia, Rosânia, Rosiana, Rogéria e Romênia.

     No retorno para a pequena Várzea Alegre, o garoto imediatamente entregou as recordações da viagem. Para surpresa das seis irmãs, em vez de réplica do conhecido Elevador Lacerda ou de outros belos monumentos da capital baiana, Sergin trouxe para cada uma das Ro’s uma caneta bastante fabricada e vendida na vizinha Juazeiro do Norte. No singelo presente continha a frase "lembrança de Padre Cícero Romão Batista".

(imagem Google)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

931 - XÔ STRESS (Blog há 7 anos)


     
      Não há como evitar os aborrecimentos naturais do dia-a-dia. No curso natural da vida o homem vive inúmeros momentos de stress, quando acontece uma reação do corpo a fatores externos desfavoráveis.

      O mal já existia antes mesmo do termo stress ser usado pela primeira vez na primeira metade do século passado. Contudo, encontrou ambiente ainda mais favorável a sua disseminação no apressado, agitado e competitivo mundo dos dias atuais.

      Os profissionais da área de psicologia recomendam várias maneiras de combater o problema, que vão desde a busca de uma alimentação saudável, a prática de exercícios físicos regulares, até a ingestão de medicamentos.

      Porém, o honesto e trabalhador Joaquim Bitu, agricultor que se tornou um próspero comerciante em Várzea Alegre, na sua simples sabedoria de matuto, há décadas desenvolveu uma técnica especial para combater os momentos de turbulência do cotidiano.

      Diante de um aborrecimento ou chateação provocado por qualquer pessoa, o saudoso Joaquim Bitu não deixava transparecer o seu sentimento de indignação. No mesmo instante praticava um gesto que aliviava suas tensões. Com discrição, montava com o dedão da mão direita um obsceno cotoco, escondendo-o no bolso da frente de sua folgada calça de brim bege.


(imagem Google)