quarta-feira, 16 de novembro de 2011

496 - VELHO ENCEGUEIRADO




         Os homens idosos sempre gostaram de se encontrar e conversar nas praças e calçadões das cidades. Se em Curitiba enchem a Boca Maldita e em Fortaleza preferem a tradicional Praça do Ferreira, em Várzea Alegre a turma de mais idade se reúne no central Calçadão Antônio Alves Costa. 

Em uma manhã do final da década de noventa, na pacata cidade cearense, duas insinuantes prostitutas varzealegrenses saíram pelo portão do Mercado Velho, chamando a atenção de um grupo de aposentados que costumeiramente se encontrava no banco do movimentado calçadão.

Um dos presentes fez sinal e, com a ajuda da bengala, se levantou com dificuldades para conversar com as moças. Observando a cena, o ferreiro aposentado Franscico Basil de Oliveira comentou:

- A velhice é de lascar!

Outro companheiro de praça perguntou:

- Por que você diz isso, Chico?

O irreverente ferreiro continuou:

- Era mió o tempo tirá as duas coisa duma só vez...

Ainda sem entender, o amigo indagou:

- Que coisas, Chico?

O espirituoso ferreiro Chico Basil,  observando de longe a conversa do amigo aposentado com as simpáticas moças, completou:

- Tira a potença e fica só a ceguêra*....


*regionalismo cearense para fissura, vício ou vontade sexual.
(imagem Google)

domingo, 13 de novembro de 2011

495 - FECHANDO O GOL (Pedra de Clarianã há dois anos)



           Grande parte do povo brasileiro acredita e faz uso de simpatias, feitiços, magias, mandingas, encantamentos, orações, amuletos, talismãs, feitiçarias, benzimentos e tudo mais relacionado com as ciências ocultas.

           No popular ambiente futebolístico as crenças estão ainda mais presentes. Os torcedores e os próprios atletas mantêm comportamentos supersticiosos buscando elevar o rendimento, pois acreditam que ajudam a equipe no alcance de suas metas. Há jogadores que não trocam a chuteira ou a cueca porque na primeira vez que as usou fez gols ou jogou bem.

          Eu não acreditava muito nessas coisas, mas recentemente minha amiga e conterrânea Klébia Fiúza me ensinou uma mandinga infalível. A simpatia cita um popular e irreverente varzealegrense, conhecido por suas histórias engraçadas. Consiste simplesmente em repetir umas palavras no momento em que o time adversário ataca. A frase, repetida com fé, fecha a nossa meta, impedindo o gol da equipe contrária.

         Neste final de semana, quando meu querido Flamengo tem jogo decisivo em Curitiba na disputa pelo título do Brasileirão, usarei mais uma vez a frase mágica. No momento em que a bola chegar ao campo de defesa do meu time eu repetirei insistentemente:

       - Cu de Zé de Lula. Cu de Zé de Lula. Cu de Zé de Lula...


(imagem Google)

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

494 - ANTICORPOS




Em Várzea Alegre, a Jovem Guarda sobrevive intensamente no dia-a-dia do motorista de praça Nicolau Sabino. Seu andar, suas  calças apertadas e com boca de sino,  seu corte de cabelo, tudo lembra o marcante movimento iniciado na segunda metade do século passado.

Além de ser o varzealegrense mais parecido com Roberto Carlos, o motorista também impressiona pelo jeito conversador, histórias irreverentes e respostas engraçadas.

Hoje pela manhã, no centro comercial da acolhedora cidade cearense, Nicolau chegou à Bodega de Luiz Silvino, parou em frente ao balcão, retirou um maço de dinheiro do bolso e passou a contar as cédulas. O caricato motorista molhava o dedo na língua para facilitar a passagem das notas.

Observando a cena, a professora Terezinha, esposa do proprietário do estabelecimento, mesmo esperando uma divertida resposta,  repreendeu:

- Nicolau, você coloca o dedo no dinheiro e depois na língua. Isso faz mal. Tem micróbio.

Com sua permanente pose de artista, o espirituoso Nicolau retrucou:

- Terezinha, quando eu era minino no Sanharol eu comi muita terra e merda pelos terreiro. E nunca me ofendeu. Num é dinheiro que vai me fazer mal, né?


(imagem Google)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

493 - COMEÇANDO A SEMANA


      

         São Paulo se tornou conhecida como a cidade que não para, nunca dorme. A fama de locomotiva do Brasil cresceu porque há muitos anos suas máquinas funcionam, trabalham e produzem vinte e quatro horas por dia, durante toda a semana. 

Certa manhã tranquila de segunda-feira, em Várzea Alegre, Nogueira Gibão, Vicente de João de Pedin, Chagão, Zé de Mundin Gonçalo e Lourival Manga Mucha conversavam na calçada do bar de Buzuga no Sanharol, animado ponto de encontro da pequena e acolhedora cidade cearense. 

Cada um do grupo já passara no mínimo uma temporada trabalhando na grande São Paulo e o descontraído papo girava em torno da preguiçosa segunda-feira, primeiro dia útil da semana. Lembravam a dificuldade para acordar com o frio e a ressaca e encarar  logo cedo as linhas de montagens das fábricas do sudeste.

Lourival, operário aposentado após muitos anos de trabalho no ABC paulista, perguntou: 

- Nogueira, por que você num quis mais morar no São Paulo?

Após virar um copo de cachaça, Nogueira, com uma afirmação simples,  manifestou sua impressão sobre a terra da garoa:

- Nan, Lourival. Nunca vi um lugar pra ter tanta segunda-feira.


Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

domingo, 6 de novembro de 2011

492 - A ÚLTIMA MERENDA (Pedra de Clarianã há dois anos)



         Francisco Basil de Oliveira, ferreiro aposentado, ganhou fama em Várzea Alegre pela maneira cômica de contar histórias simples do cotidiano cearense. Nada escapa da suas narrativas, nem mesmo momentos críticos e delicados da existência humana. Sobre a certeza da morte, o espirituoso e realista Chico Basil costuma dizer:

         - O rim de morrer é não poder espantar as moscas.

        Entre suas várias histórias sobre a viuvez, o ferreiro conta como verdadeira uma acontecida há vários anos no Riacho Verde, progressista Distrito varzealegrense.

        Certa tarde uma velha senhora cuidava de seu moribundo esposo que sofria em uma rede. O pobre enfermo, respirando com dificuldade, disse:

        - Muié, pelo cheiro tu tá fazendo bolo de caco, né? Me dê um pedacin.

        Enxugando a testa do febril esposo, ela argumentou:

       - Mas Zé, que é que eu vou servir na boca da noite, quando o povo começar a chegar pa teu velório?


*colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

sábado, 5 de novembro de 2011

491 - ENTRANDO NO ARMÁRIO




Atualmente, em que pesem os criminosos surtos de homofobia e o latente preconceito, a sociedade busca aceitar e acolher as diversas orientações sexuais. Contudo, assumir publicamente a homossexualidade nunca foi fácil.

Certa noite, na década de noventa, um professor  de meia-idade, sozinho, bebia chopp em um discreto bar da orla de Fortaleza quando ali chegou um velho amigo acompanhado de um musculoso rapaz. Buscando esconder uma relação mais íntima com o jovem, o coroa falou timidamente:

- Amigo, há quanto tempo? Deixa eu lhe apresentar o Ricardo. É meu sobrinho...

O velho mestre, homosexual assumido, levantou-se  e cumprimentou os recém chegados. Antes que o amigo insistisse em camuflar sua notória sexualidade,  o simpático professor disse:

-  Ah sim, eu também conheço o belo rapaz. Ele foi meu sobrinho até a semana passada.


(imagem Google)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

490 - TIRA GOSTO



Certa tarde, em Várzea Alegre, no aprazível Bar de Buzuga, no sítio Sanharol, o agricultor aposentado Zé de Lula bebia na companhia de amigos.  Em meio a boas risadas, ouvindo as histórias do irreverente agricultor, o animado grupo  tomava cerveja aguardando a suculenta carne que assava na churrrasqueira.

Enquanto o grupo se divertia na calçada, outro cliente do botequim bebia seguidas doses de cachaça, mordendo um caroço de cajarana. Do balcão, desejando se aproximar da animada turma, o  incoveniente bêbado ofereceu umas das frutas para Zé de Lula: 

- Zé, pegue uma cajarana pra  tirá o gosto?

Aspirando  o apetitoso aroma da carne assada, copo de cerveja na mão, Zé de Lula,  mesmo apreciando a fruta típica do sertão cearense, esnobou:

- Naaaan.  Eu lá vou estragar o gosto da cerveja.


Colaboração: Jander Vilhena

(imagem Google)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

489 - LIGUE JÁ





As empresas de telefonia continuam ostentando o título de campeãs em número de reclamações recebidas nos órgãos de defesa do consumidor.  Muitos desses registros discutem ligações cobradas pelas operadoras e contestadas pelos clientes.

Certa tarde da década de noventa, numa pequena cidade do interior nordestino, uma atarefada dona de casa reuniu todos os homens da família para discutir  a conta mensal do telefone. Com o extrato na mão, a séria senhora suspeitou do marido e dos três filhos, com idade entre 15 e 21 anos.

- Tou veno aqui a conta. Bonito pra vocês, ? Cheia de ligação para erotismo...

Era preciso saber qual seria o tarado da casa que ligara tanto para número do disque sexo, até porque o valor cobrado triplicara em relação a média dos meses anteriores.

O filho mais novo recebeu o papel da mãe e disse:
 
- Mãe, acho que essas ligação são da senhora?

Espantada, a recatada mulher olhou seriamente para o filho e reclamou:

- Me respeite minino. Eu lá vou ligar pra essas coisa. Vocês que gosta de imoralidade.

O filho caçula insistiu:

- Mas, mãe, num é erotismo não. É exoterismo. a senhora que gosta tanto de Walter Mercado* ?

*célebre astrólogo porto-riquenho e personalidade televisiva. No Brasil, tornou-se conhecido no fim da década de 1990 em chamadas comerciais que anunciavam seu serviço telefônico de consulta astrológica. Seu bordão era a ordem "Ligue já!", caracterizado pela diferente pronúncia da palavra "já" ao estilo da pronúncia porto-riquenha de "ya" (soando como "djá"), equivalente castelhano para a mesma palavra. (Fonte: Wikipédia)

Colaboração: Jander Vilhena Nascimento

(Imagem Google)

domingo, 30 de outubro de 2011

488 - O VIAGRA DO CEARENSE




Ao longo dos anos os homens experimentaram inúmeros chás, garrafadas e outras receitas de estimulantes sexuais. Mas só no final do século passado, com o surgimento do Viagra, surgiu um alento para a temida disfunção erétil. O chamado comprimido azul aumentou a perspectiva de uma vida sexual duradoura e com mais qualidade.

Certa manhã do final da década de noventa, na pequena e especial Várzea Alegre, em um banco da movimentada Praça do Abrigo,  vários aposentados conversavam sobre a novidade. Em certo momento da animada prosa, o ferreiro aposentado Chico Basil se aproximou do grupo. Um dos amigos presentes logo perguntou:

- Chico, tu já expermentou o tal do Viagra? Tão dizeno que aumenta as força...

O velho ferreiro, com um olho fechado e outro aberto, mirou o amigo e falou:

- Hômi, bestera de comprimido. Eu tou tomano é chá...

Os velhos amigos se interessaram e quase ao mesmo tempo indagaram:

- Que chá é esse, Chico? É do bom mermo?

Antes de soltar uma boa gargalhada, o irreverente Chico Basil concluiu:

- É que eu num preciso desse Viagra não. Tomo é chá de cidrera pra acalmar...


(imagem Google)

Colaboração: Luiz Roberto Pedrosa de Castro

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

487 - INTELIGÊNCIA DA VIDA (Pedra de Clarianã há dois anos)



       O festejado psiquiatra e psicoterapeuta brasileiro Augusto Cury ensina como ser gestor das próprias emoções, decifrando o código da inteligência para administrar sentimentos e gerenciar os temores, medos, angústias e aflições da vida.

       Até parece que o paulista de Colina, cujos livros invadiram as listas dos mais vendidos, conheceu e estudou minha querida avó materna Maria Amélia. A sábia varzealegrense, mesmo em momentos de muitas dificuldades e perdas, buscava controlar suas emoções e “fazer sua própria cabeça”.

       No início da década de oitenta, como o apertado orçamento de professora aposentada não permitia nenhum luxo, minha avó continuava assistir a seus programas favoritos nas imagens em preto e branco de seu antigo aparelho de TV.

       Exatamente até o dia em que foi presenteada por seu filho caçula Paulo Danúbio com um televisor novo e a cores, ela justificava sua preferência pela antiga:

      - Não troco minha velha televisão nem por duas coloridas. Nan, li na revista Manchete que essas tevês cheias de cor fazem muito mal a vista das pessoas.


(imagem Google)