sexta-feira, 14 de março de 2014

845 - PAUSA NA POLÍTICA




A política partidária sempre foi um dos assuntos preferidos nas rodas de conversas de Várzea Alegre, município do sertão cearense. Se encontrar algum grupo da cidade reunido em um bar, em uma praça, em uma feira ou em qualquer outro lugar, há grande possibilidade dos participantes tratarem acerca de eleição.

No início da década de 1990, em um sábado, desde o início da manhã, vários amigos conversavam e bebiam no Bar de Chapada, na praça Santo Antônio. Após o consumo de dezenas de doses de cachaça e várias horas de bate-papo, um dos presentes ponderou:

- Hômi, desde cedo nós aqui só fala do partido de Dotô Iran, do partido de Dotô Pedo... Néra mió a gente mudar o rumo da prosa, não?

O pintor de paredes Francisco Alberto de Oliveira, conhecido como Beto Bentivi, mesmo adorando falar sobre política, levantou-se da cadeira e concordou:

- É devera. bom desse assunto mermo...

Em seguida, voltou a sentar à mesa e continuou:

- Rapaz, situação rim é a de Erundina*, no São Paulo...


* Política, prefeita de São Paulo entre 1989 e 1993, atualmente Deputada Federal.
Colaboração: Carlos Roberto Almeida (Beto)
(imagem Google)

quarta-feira, 12 de março de 2014

844 - MOTEL DO CAFÉ



A origem dos estabelecimentos destinados a encontros amorosos é muito antiga, mas, no formato dos atuais moteis, surgiu no Brasil apenas na metade do século passado.

No sertão cearense, em Várzea Alegre, os moteis demoraram ainda mais para se estabelecer. Por muito tempo, os encontro furtivos não contavam com um lugar seguro e confortável para acontecer.

Na década de 1960, uma conhecida dona de Café no Mercado Velho de Várzea Alegre, no fundo do seu comércio de merendas, destinou um pequeno quarto para encontros clandestinos de seus clientes. Certo dia, ao receber um habitual freguês de sua deliciosa tapioca e do seu aromático café, a proprietária  se sentou à mesa e falou em voz baixa:

- Toin, quando você quiser pode trazer uma muié aqui no Café. Eu arrumei uma cama no quartindetrás

O cliente se interessou e a dona continuou falando da novidade, reforçando a discrição do local:

- Óia Toin, pode usar o quarto que nunca vão sabê. Seu Luiz já foi e ninguem sabe. Seu primo Zé usou duas vez e ninguem sabe. Seu irmão João num sai de lá e ninguém ouviu falá

Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

segunda-feira, 10 de março de 2014

843 - ÔNIBUS LOTADO



Em recente passeio, em um dos trechos da longa viagem da amazônia amapaense ao sertão cearense, apanhei um ônibus em Fortaleza e segui até minha querida cidade natal, Várzea Alegre. No percurso de cerca de quatrocentos e cinquenta quilômetros pela estreita e sinuosa estrada do algodão recordei as inúmeras vezes que cruzei o Ceará naquele transporte coletivo. Difícil contar, mas desde a infância, em viagens de férias para a capital alencarina, passando pelo período de estudante morando na capital, até os tempos atuais, foram centenas de viagens.

Desde que me iniciei nesses caminhos, percebo uma razoável melhoria nos ônibus, com ar condicionado, banheiro, água mineral e oferta de cobertores. Porém, para mim, o principal avanço no transporte rodoviário foi o cumprimento da proibição do passageiro em pé. Pode parecer estranho para os mais jovens, mas era permitido o trasporte de passageiros espremidos, em pé, mesmo em trechos de cerca de oito horas de sacolejo, como o nosso. Quem conseguia uma vaga sentado e não tinha o azar de um desses infelizes descansar sentado no braço de sua poltrona viajava com um pouco mais de conforto.

Na década de 1980, em uma dessas demoradas viagens, o velho ônibus seguia lentamente, parando a todo instante, quando, em certo momento, para aumentar o desconforto, alguém flatulou. Um mal cheiro se espalhou no meio dos apertados passageiros. o varzealegrense de apelido João Sem Braço, que viajava em pé, antes de encostar o nariz no ombro, gritou:

- Negrada, Essa foi das braba. Fecha os zói se não cega..

Colaboração: Paulo Danúbio Carvalho Costa
(imagem Google)

sexta-feira, 7 de março de 2014

842 - USE CAMISINHA



A cada dia aumentam as importantes campanhas de incentivo ao uso dos preservativos para combater as doenças sexualmente transmissíveis, as famosas DST's. As escolas ajudam bastante nessa orientação mas a maioria das famílias ainda sentem muita dificuldade para tratar esse tema com suas crianças e adolescentes.

Certa vez, no interior do Ceará, um casal iniciava contatos íntimos no quarto da residência. O homem, em pé ao lado da cama, antes de iniciar o coito, passou a colocar uma camisinha em seu membro viril para evitar mais uma gravidez na sua fértil esposa, que aguardava deitada e enrolada aos lençóis.

Por um descuido a porta do quarto permaneceu aberta e o filho do casal, de doze anos de idade, entrou inesperadamente no cômodo. O pai, com as calças arriadas, buscando esconder do ingênuo filho o uso da camisinha, encolheu- se e passou a olhar para baixo da cama, dizendo:

- Tou vendo se o gato se escondeu aqui debaixo da cama...

Imediatamente, o filho, balançando a cabeça, resmungou:

- Pai, eu num acredito que o sinhô vai comer o gato...

Colaboração: Paulo Danúbio Carvalho Costa
(Imagem Google)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

841 - MORENA DA INTERNET*



       Vivia-se o final da década de noventa. Ainda solteiro, nessa época a panela não queimava no fogão da minha casa. Assim, sair para comer com amigos servia para disfarçar um pouco a solidão. Certo dia, fui com o Marco Antônio e outros colegas almoçar em um pequeno shopping da cidade.

        Após o divertido almoço, quando já nos preparávamos para deixar o restaurante, chamou atenção a chegada de belas moças que à noite participariam de um movimentado desfile no shopping. Naquela tarde, realizar-se-ia o ensaio final. As lindas e elegantes jovens nos foram rapidamente apresentadas pelo conhecido coreógrafo.

      Passados uns três dias, em casa, sozinho, eu navegava pela internet no programa de bate papo da época, chamado mirc, quando, no canal #amapa, fui chamado por uma jovem de apelido Morena-18. A moça disse que me vira no shopping naquela semana, pois era uma das modelos que passara pelo restaurante.

       Depois de uma entusiasmada conversa pelo chat marcamos um encontro à noite na praça beira-rio. A Morena-18 me revelou suas belas e impressionantes características e me disse que gostava de homem perfumado e com a barba bem tirada. Não arrisquei. Na preparação para o ansiado encontro, gastei um frasco de perfume e quase arranco a pele do rosto de tanto passar a lâmina de barbear.

      Impaciente, cheguei ao lugar marcado bem antes do combinado. Toda garota que aparecia na beira do rio Amazonas eu logo imaginava que era a linda modelo. Porém, depois de longa espera, nada de chegar a morena de blusa top azul e mini saia jeans, como esperado. Certamente alguma coisa acontecera e a impedira de ir ao encontro. Decepcionado, voltei para casa, liguei o computador e, navegando pela internet, busquei reencontrar a jovem. Porém, naquela noite ela também não apareceu no chat**.

      No dia seguinte, estava no trabalho quando entrou na minha sala o colega Marco Antônio e me disse:

      - E aí, rapaz? Encontrou a Morena-18?


*originalmente publicada em 30 de abril de 2010.
**neologismo para designar local de bate papo em tempo real na internet
(imagem Google)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

840 - DÍVIDA SANGRENTA*



        Diariamente os noticiários policiais mostram trágicas histórias de assassinatos motivados por dívidas. Em muitos casos, são irrisórios os valores envolvidos nas discussões que dão causa aos violentos crimes.

        Certo dia, na pacata Várzea Alegre, sertão cearense, o agricultor aposentado Zé de Lula encontrou seu amigo e contador Demontiê Batista e, com ar sério, falou:

        - Tiê, tou devendo sete real no bar de Buzuga. Por amor ao nosso padroeiro São Raimundo, me arrume dois real pra pagar e evitar uma morte.

        - Zé de Lula, por que só dois reais se você deve sete? – Retrucou o preocupado contador.

        - É porque Buzuga desce a ladeira do Gibão** muntado numa bicicleta na maior carreira. Quando me vê solta o guidon e com as mão me mostra sete dedos. Cinco numa e dois noutra. Quero pagar dois pra mode ele desocupar uma das mão e agarrar no guidon.


* Postado originalmente em 3 de abril de 2010.

** sítio localizado próximo da sede do município de Várzea Alegre

Colaboração: Kleber Dakson Fiúza(Manin de Saraiva)

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

839 - DIETA SEXUAL*



         O agricultor cearense Zuza Lemos sempre gozou de uma saúde de ferro. Mas certo dia, depois de um mal estar súbito, por insistência de sua esposa Zefinha, decidiu procurar o médico da cidade de Lavras da Mangabeira. O doutor, analisando os sintomas descritos, desconfiou que o paciente sofresse de algum problema cardíaco. No fim da consulta, o clínico geral recomendou:

        - Seu Zuza, enquanto eu não receber o resultado dos exames e fechar o diagnóstico o senhor não deve fazer extravagância. O caso merece cuidado. Durante esse período de trinta dias é bom que o senhor pare seu trabalho da roça e também não namore dona Zefinha.

        - Dotô, trinta dias eu não agüento não. – ponderou o agricultor.

        - Se o senhor desobedecer quem não agüenta é o seu coração. E o senhor morre. – finalizou o médico.

       Zefinha, que acompanhou toda consulta, deixou o hospital preocupada com a saúde do marido. Para garantir o resguardo, a esposa decidiu dormir em quarto separado e de porta trancada.

        Passados alguns dias, Zefinha acordou tarde da noite com o barulho de fortes pancadas da porta. Era seu marido Zuza que batia e gritava desesperado:

       - Zefinha, abra a porta. Eu quero morerrrrrrr.


* Publicada originalmente em 6 de março de 2010.
Colaboração: Eliomar Gonçalves de Lemos Gomes
(imagem Google)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

838 - A MÍMICA DA PROFESSORA*



    Visitando o meu Ceará mato a saudade de lindas paisagens. Nesta época de chuvas, numa incrível mudança, o verde toma conta de boa parte do cenário. Bem diferente dos meses de setembro a dezembro, chamados borrobros, quando a cor cinza monopoliza as imagens do sertão.

     Observando a bucólica paisagem e sua incrível mudança de cores, lembrei das aulas na sexagenária Escola de Primeiro Grau José Correia Lima, quando minha mãe Terezinha tornou-se também minha professora. Era o ano de 1977 e eu cursava a terceira série do falecido primeiro grau, hoje ensino fundamental.

     Toda a turma estava reunida resolvendo uma prova escrita de geografia. Em cópias reproduzidas no velho mimeógrafo, com uso de estêncil e em papel com cheiro de álcool, os ansiosos alunos buscavam responder várias perguntas, entre as quais a seguinte: Qual a vegetação típica do semi-árido nordestino ?

     No meio da turma, meu querido colega Francisco Eduardo Bitu de Freitas, sempre muito traquino e esperto, passou a insistir com a professora:

     - Tia Terezinha, por favor, dê só uma dica dessa questão.

     Depois de muita insistência de Eduardo, a professora, diante de toda turma, fez apenas um gesto, com uma das mãos abanando na frente do nariz.

     O persistente e astuto aluno Eduardo preencheu e devolveu sua prova com a resposta esperada: CAATINGA. Porém, no exame escrito de outro estudante, a professora encontrou uma surpreendente resposta: BUFA.

     Minha mãe guarda a sete chaves o nome do estudante, pois, mesmo com nossa imensa curiosidade, até hoje não revelou quem foi o autor da original resposta da prova de geografia.

* Postada originalmente em 11 de abril de 2009.
(imagem Google)

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

837 - PAIXÃO ANIMAL*



     O difícil trabalho de investigação requer uma atitude de desconfiança permanente. Mesmo com as modernas técnicas, ainda hoje os policiais enfrentam enorme dificuldade na elucidação dos crimes, especialmente os sexuais, cometidos na clandestinidade.

     Meu avô materno, Antônio Alves Costa, na década de cinqüenta, foi delegado de polícia no interior do Ceará. Naquele período, pela completa falta de estrutura, o importante cargo exigia do seu ocupante um grau ainda maior de perspicácia na apuração dos delitos.

     Em certa manhã, o Delegado Antônio Costa foi acionado para atender um desesperado cidadão que desejava “dar parte” do rapto de sua filha de vinte anos de idade. Imediatamente intimado a comparecer na Delegacia, o suspeito confessou que “roubara” a moça. Porém, temendo as conseqüências, principalmente a obrigação de casar, buscou diminuir sua responsabilidade. Assim, mesmo admitindo que fizeram uma longa viagem juntos, o rapaz insistiu que não havia “bolinado” a jovem.

      A frágil versão apresentada só aumentou a desconfiança do Delegado, que, com seu alto e rouco tom de voz, argumentou:

     - Meu rapaz, não queira que eu acredite nessa história. Pois quando solteiro, eu fui para um samba num local bem mais perto. Do sítio Umari até o Junco**. E só na ida eu namorei com a minha burra Gasolina duas vezes.



Postada originalmente em 25 de março de 2009.
** atual município de Granjeiro


domingo, 23 de fevereiro de 2014

836 - O CABO SERGIN*



  Nesta última década os meios de comunicação apresentaram progressivo avanço. Hoje contamos com modernas formas de contatos como aparelhos celulares, internet, ipods, iPhones e outros.

     Nem parece que há poucos anos tudo era bem diferente.

     No final da década de setenta, por ainda não funcionar a discagem direta, as ligações telefônicas entre muitas cidades eram intermediadas por telefonistas. Para conseguir uma chamada necessariamente entrávamos em uma fila, até que a funcionária da companhia telefônica completasse a ligação.

     Meu querido tio e professor Paulo Danúbio, aproveitando o auge do militarismo, sempre que buscava uma ligação, com voz postada, dizia para a telefonista:

     - Por favor, aqui é o Coronel Paulo Danúbio, gostaria de uma ligação para Várzea Alegre.

     Assim, com urgência, a telefonista completava a ligação para o fictício Coronel.

     Meu saudoso primo Sergin, observador, ainda pré-adolescente, certo dia, em contato com a nem sempre atenciosa telefonista, resolveu copiar a estratégia:

    - Olha, aqui é o Cabo Sérgio Ricardo, exijo imediatamente uma ligação para Várzea Alegre.

    Não sei se por conta do congestionamento das ligações ou por falta de força da patente, mas infelizmente a ligação do meu primo demorou várias horas para ser completada.


(imagem Google)
* Postagem publicada originalmente em 21 de março de 2009

sábado, 22 de fevereiro de 2014

835 - PEDRA DE CLARIANÃ*


      Desde criança, lá pelas bandas do sertão cearense, escutei uma interessante história narrada por seu Alberto, antigo empregado do meu avô materno. Aquele humilde homem, de mãos calejadas pela vida de lavrador, nos intervalos de sua faina diária, contava a todos sobre a existência de um reino distante onde habitava uma linda princesa. Uma donzela, plena de virtudes e beleza, que ansiosa, de braços abertos, aguardava a chegada do seu príncipe, o próprio Alberto.

     Além de possuir o coração da linda herdeira, seu Alberto também era proprietário de uma pedra de ouro. Não se tratava de uma pedrinha ou de uma pepita qualquer, era uma pedra imensa, gigantesca, a Pedra de Clarianã. Toneladas e toneladas de ouro maciço, tudo pertencente a seu Alberto. A fortuna em metal precioso transformava aquele pobre homem no mais rico da terra em todos os tempos. Tamanha propriedade espantava qualquer dúvida sobre a existência do amor distante. Claro que havia uma linda princesa encastelada esperando a chegada do príncipe Seu Alberto. 

      A rica imaginação daquele homem habitou por muito tempo a fantasia de inúmeras crianças. Eu, mesmo não ouvindo a história contada diretamente pelo afortunado Alberto, também viajei na lúdica narrativa da enorme pedra de ouro e da bela princesa.

      Outro dia, por acaso, descobri que realmente existe uma pedra enorme com nome parecido e há anos cantada por poetas populares: a Pedra do Claranã, localizada no outro lado da chapada do Araripe, no sertão pernambucano, no município de Bodocó.

      Não sei se a pedra de Bodocó tem toneladas de ouro ou se naquele sertão existe um reino com bela princesa. Porém, ninguém duvida que Seu Alberto e as crianças que ouviram aquela historia jamais perderam a esperança de encontrar a verdadeira Pedra de Clarianã. Lúdicas histórias, com reinos, castelos, princesas e fortunas sugerem um final feliz. Nós todos ainda vamos encontrar a verdadeira pedra de Seu Alberto.

*Postagem número 1, publicada originalmente em 21/02/2009
(imagem Google)

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

834 - 5 ANOS DO BLOG PEDRA DE CLARIANÀ




Em 21 de fevereiro de 2009 surgiu a ideia de registrar histórias simples e pitorescas do nosso povo em um ambiente de fácil acesso a todos. Assim, sem maiores pretensões, nasceu o blog Pedra de Clarianã.

Nesses 5 anos, o blog buscou cumprir o seu objetivo e registrou mais de 800 histórias. Recebeu centenas de milhares de visitas e mais de dois mil comentários.

Como os “causos” do nosso povo são inesgotáveis, esperamos permanecer no ar por mais alguns anos, contando sempre com a atenção, apoio e colaboração dos amigos leitores.

Para comemorar o quinto aniversário, nos próximos dias traremos de volta as cinco postagens mais lidas, comentadas e repercutidas de todos os tempos.

Muito obrigado a todos.