terça-feira, 25 de março de 2025

990 - 181 ANOS DO PADRE CÍCERO


Em gozo de férias pelo meu Ceará, sempre reservo alguns dias da viagem para curtir a progressista Juazeiro do Norte, cidade ao sul do Estado, onde minha primogênita estuda e também cultivo diversas amizades.


No último domingo, nesta passagem pela Metrópole do Cariri Cearense, ganhei a oportunidade  de acompanhar dezenas de atletas da equipe Loucos Por Corrida de Várzea Alegre na tradicional Meia Maratona do Padre Cícero, prova que faz parte da vasta programação em festejo ao aniversário do famoso e adorado patriarca do nordeste brasileiro. Após a difícil competição, a entusiasmada equipe de atletas varzealegrenses voltou para casa com a bagagem repleta de medalhas e troféus. 


Na segunda, 23 março, dia maior, no fim da tarde, comemorando os 181 anos de nascimento de Padre Cícero, pelas ruas estreitas do centro da cidade, acompanhei a Procissão das Flores, que, além dos inúmeros romeiros, contou com a destacada participação de grupos de reinados, escoteiros, banda cabaçal, bandas de música e de fanfarra.


A festa de aniversário continuou à noite no largo da sagrada Capela do Socorro, onde o “Padin Ciço” se encontra sepultado. No grande palco, além da concorrida cerimônia religiosa, vários artistas se apresentaram, entre os quais o talentoso cantor e sanfoneiro juazeirense Fabio Carneirinho. Milhares de devotos preencheram cada lugar da enorme praça,  os mesmos que há muito tempo santificaram o Padre Cicero, bem antes do lento processo de beatificação que ainda se arrasta pelos corredores do burocrático Vaticano.


No intervalo dos shows, caminhando por aquele grande Largo do Socorro, afastei-me um pouco e sentei-me para descansar em um banco ao lado da estátua de Joaquim dos Santos Rodrigues, conhecido como Seu Lunga, poeta e comerciante que acompanhou diretamente o crescimento da cidade. Ali, na companhia daquela outra grande e icônica figura do Cariri Cearense, assistindo ao intenso movimento de pequenos vendedores, romeiros e visitantes, pensei: 


Dos inúmeros milagres do Padre Cícero, um dos mais importantes e jamais contestado trata-se da própria Juazeiro do Norte. Pois, em  100 anos, de uma simples vila de casas pertencente ao município do Crato, com a força e liderança do grande sacerdote, Juazeiro se transformou na maior e mais pujante cidade da região.


(Imagem Arievaldo Viana)

terça-feira, 18 de março de 2025

989 - DA SERRA DO GRAVIÉ AO MACIÇO DO BATURITÉ


Neste mês de março de 2025, reunimos novamente um pequeno grupo de parentes e amigos para mais uma rápida e divertida viagem.

Desta vez, partimos da Serra do Gravié, em Várzea Alegre, no centro-sul do Ceará, para o Maciço de Baturité, interessante região do nosso rico e diversificado Estado nordestino.


Chegamos ao Maciço pela cidade de Baturité, onde visitamos a histórica estação ferroviária, destino da primeira estrada de ferro do Ceará. Hoje, infelizmente, o importante meio de transporte se encontra desativado,  mas, por décadas, transportou passageiros e produtos agrícolas para Fortaleza, Capital do Estado. 


Em seguida, iniciamos a subida da serra, parando no Mosteiro dos Jesuítas, imponente construção erguida em um monte no início do século passado, com linda e ampla visão para a movimentada cidade de Baturité. 


Na continuação da subida da Serra, em meio a rica e verdejante floresta de mata atlântica, conhecemos lindas quedas d’águas, entre as quais a impressionante Cachoeira do Perigo, a maior da região, com o precioso líquido caindo a uma altura de 84 metros.


Nos hospedamos na charmosa Guaramiranga, conhecida como “Suíça Cearense”, com clima ameno, lagos e montanhas que remetem àquele pequeno país do continente europeu. 


No florido Município de Pacoti, apreciamos o precioso café do sítio São Luiz, sob as copas das frondosas árvores plantadas em volta do belíssimo e centenário casarão, sede da bem cuidada fazenda.


Em Mulungu, além de conhecer o Sítio São Roque, produtor do famoso e exportado café sombreado, subimos as escadarias para acessar a estátua do flechado São Sebastião, localizada no Sítio Bela Vista. De lá, como o próprio nome indica, apreciamos mais uma das fascinantes paisagens da Serra do Baturité.


De volta a Guaramiranga, escalamos, de carro, o Pico Alto, a quase mil metros de altura, um dos maiores do Ceará, onde desfrutamos um delicioso chocolate quente para amenizar o frio serrano daquele fim de tarde.


O circuito turístico pelos municípios do Maciço nos encantou, mas, como sempre, o sucesso da nossa viagem de três dias se deu por conta do entrosamento da turma, do bom papo e das hilariantes histórias contadas pelo querido tio e professor aposentado Paulo Danúbio. 


Em um desses momentos de descontração, entre muitos casos impublicáveis, o experiente professor, ao ver uma  burrinha subir uma das íngremes ladeiras da serra, nos contou que a cena trouxe à memória sua primeira e ardente paixão, havida na época em que, ainda adolescente, estudara no colégio agrícola de Lavras da Mangabeira. Naquele tempo, há exatos 57 anos, o inocente aluno se apaixonara por uma experiente jumenta que pastava ao redor do tradicional colégio interno do sertão cearense.


(Desenho de Inguerson Lima da Igreja Matriz de Baturité)




quarta-feira, 12 de março de 2025

988 - O SOSSEGO DO BECO DA LIBERDADE



Ao longo do tempo, poucas situações abalaram a tranquilidade da antiga Rua São Raimundo, conhecida também como Beco da Liberdade, situada na área central da cidade cearense de Várzea Alegre.

Nem a perturbação causada pelos modificados escapamentos de motocicletas renderam tanta especulação e comentários como  um forte ruído provocado por um visitante inusitado.


Há algumas semanas, os poucos e antigos habitantes da bucólica rua buscam descobrir de onde parte um estridente e perturbador barulho.


Na intensa mobilização da vizinhança, alguns moradores defendem a necessidade de denunciar o inconveniente indivíduo às autoridades competentes. Pois o som parece mudar de lugar a cada momento, e, após pequenos intervalos de silêncio, volta a perturbar.


Um dos moradores da acolhedora ruela, Maurício Bezerra, corretor de seguros, também incomodado com o recorrente som, reclamou:


- Meu querido, eu já procurei esse barulho em todo lugar. Quando tou dentro de casa, parece vir de fora. Quando saio de casa, o barulho vem de dentro. Vou para um lado da calçada escuto ele no outro…


Até agora, sabe-se apenas que o causador do barulho é um teimoso grilo que estridula insistentemente, especialmente no cair da noite, cortando o costumeiro silêncio do pacato Beco da Liberdade.


(Imagem Google)



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

987 - OS ÓCULOS DO CHICO TERRA



A vida me presenteou e continua me abençoando com muitos amigos e amigas. Mas, infelizmente, aqui e ali, o nosso plantel de amizades sofre sérios desfalques.

Nos últimos tempos,  dois queridos amigos  de Macapá partiram definitivamente para o plano superior: Francisco Almeida, conhecido como “Chico Terra” e Suanise Alves Pereira, tratado por todos como “Seu Anízio”.


E o melhor remédio para amenizar a permanente saudade dos amigos é relembrar os bons momentos da rica convivência com essas pessoas especiais. 


Certa vez, o fotógrafo, músico e jornalista “Chico Terra” sofreu um acidente doméstico que o obrigou a permanecer algumas semanas internado no hospital de emergências à espera de uma cirurgia ortopédica. Nesse período, Chico me pediu para conseguir um novo óculos de grau para ele.


Imediatamente, busquei o amigo Anízio, proprietário de uma pequena venda de peças e acessórios para óculos, localizada na Alameda Serrano, no centro comercial de Macapá. Logo ao chegar ao  movimentado estabelecimento, contei a situação ao experiente técnico ótico:


- Seu Anízio, sei que o correto seria procurar um oftalmologista. Mas um amigo meu está internado no hospital e precisa de um óculos com urgência. Ele não tem a receita mas sabe o grau. Dá certo fazer os óculos dele ?


O velho Anízio, da mesa em que atendia os inúmeros clientes, com sua inseparável lupa na mão, levantou a cabeça, e, na sua rabugice cômica,  esbanjando sinceridade, lançou mais um dos seus repentes:


- Dá pra fazer sim. Mas se ele não enxergar o problema é dele.


(Imagem Google)



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

986 - DEUS GREGO


A busca pela beleza física vem de longe, certamente desde o surgimento do mundo. O culto ao belo, presente em diversas culturas, possui raízes na mitologia, com profundas discussões filosóficas na Antiguidade Clássica. E no saber popular, empírico, passado de gerações a gerações, também há remédios para essa recorrente angústia humana.

No último domingo, no intervalo de provas de ciclismo amapaense, em uma prazerosa e divertida conversa,  o amigo e esportista Valdeci Nunes nos confidenciou que, quando criança, sofria com sua aparência física. 

Percebendo a chateação e o inconformismo do pequeno filho, a amorosa mãe do ciclista Valdeci buscou ajudá-lo:

- Meu pequenozin, pra você ficar mais bonito, se esconda atrás da porta, mastigando “cabeloro” cozido.  

Como os antigos gregos, que realizavam rituais e apresentavam oferendas à deusa Afrodite, o menino Valdeci, por diversas vezes, escondeu-se por trás da porta em madeira de sua modesta casa, mastigando “cabeloro”, duro pedaço da carne do boi, extraído do tendão que se estende da cabeça às vértebras do animal.

Valdeci finalizou nossa resenha dominical falando que desconfia que a simpatia não funcionara completamente. Mas, com certeza, sempre que mastigava “cabeloro” atrás da porta, sua autoestima melhorava, saindo, em seguida, pelas ruas do município portuário de Santana, no Amapá, de peito estufado, olhar firme e andando na maior boçalidade, sentindo-se mais bonito do que qualquer Deus grego ou romano.

Colaboraçao: Valdeci Nunes

(Imagem Google)

quarta-feira, 20 de março de 2024

985 - O VALE DO SÃO FRANCISCO




Na década de 1970, o grupo Trio Nordestino imortalizou a música de Jorge de Altino, mas só recentemente nós sentimos diretamente o verdadeiro significado destes inspiradores versos:

“Na margem do São Francisco, nasceu a beleza

E a natureza ela conservou

Jesus abençoou com sua mão divina

Pra não morrer de saudade, vou voltar pra Petrolina

Em março de 2024, com um animado grupo de parentes e amigos do sertão cearense, conhecemos a progressista região do Vale do Rio São Francisco, da qual fazem parte vários municípios, dentre os quais Petrolina-PE e Juazeiro-BA, que formam o maior conglomerado populacional do semiárido nordestino

Na prazerosa e enriquecedora viagem, conhecemos a produtiva fruticultura irrigada, onde,  para abastecer os mercados interno e externo, cultiva-se manga, uva, limão e outras deliciosas frutas, momento guiado pelo conterrâneo e técnico agrícola Rogério. 

Caminhamos pela urbanizada e linda orla de Petrolina e andamos por parte da Ponte Presidente Dutra, obra de mais de setenta anos que liga a cidade pernambucana à sua vizinha Juazeiro da Bahia. Da gigantesca construção em concreto, nos deslumbramos com um lindo pôr do sol que pintou de cores fortes o céu do fim da tarde e tornou ainda mais brilhosas as águas do Velho Chico. 

A bordo do navio Vapor do Vinho,  simulando os antigos e importantes barcos da região, navegamos pelo grandioso Lago de Sobradinho, maior da América Latina, inaugurado na década de 1970 para represar e controlar as preciosas águas do Rio São Francisco e gerar energia. Durante o passeio, em uma parada na Ilha do Amor, nos banhamos nas límpidas águas do Velho Chico.

Na vinícola Terra Nova, no município de Casa Nova-BA,  degustamos vinhos, espumantes, suco de uva e destilados, produzidos a partir dos parreirais plantados naquelas terras áridas do nordeste brasileiro.

No domingo, após tranquila travessia de barco pelo Rio São Francisco, também visitamos a muito frequentada ilha do Rodeadouro, com praias de água doce,  nos encantando com as lindas paisagens entre os Municípios de Petrolina e Juazeiro.

No Bodódromo, área gastronômica da cidade de Petrolina, saboreamos os melhores cortes da famosa carne de bode e nos deliciamos com outros pratos da culinária sertaneja.

Também dedicamos um dia da viagem para conhecer um pouco mais de Juazeiro-Ba. Percorremos sua orla e o centro comercial, visitamos sua catedral e fotografamos a estátua do renomado juazeirense João Gilberto. Ali também conhecemos o aposentado barco a vapor Saldanha Marinho, que, por mais de sessenta anos cumpriu a rota de Juazeiro-BA a Pirapora-MG, transportando pessoas e mercadorias.

Por fim, conhecemos a famosa Catedral de Petrolina, construída em 1929, símbolo do crescimento da cidade,  cujo relógio foi doado pelo nosso Padre Cicero Romão Batista. O momento da entrega do presente pelo adorado padre do Juazeiro do Norte-CE ao Bispo da diocese de Petrolina, Dom Malan, encontra-se imortalizado por uma estátua erguida na praça da sede da diocese petrolinense.

Nosso prazeroso e intenso passeio pelo Vale do São Francisco consolidou a certeza de que, com a força do seu povo, irrigado com conhecimento e tecnologia, todo o sertão nordestino pode e vai se tornar cada vez mais produtivo e ainda mais importante para o Brasil e para o mundo.

segunda-feira, 24 de julho de 2023

984 - II TRILHA CICLOTURISTICA DO MARAJÓ



Em um inesquecível final de semana visitamos uma das regiões mais bonitas da nossa Amazônia, a paraense Ilha do Marajó, lembrada especialmente pelo gigantesco rebanho de búfalos e pelas obras em cerâmica.

Com um grupo de alegres e dispostos ciclistas do Amapá, nos municípios marajoaras de Soure e Salvaterra, conhecemos lugares especiais, como as paradisíacas praias de Pesqueiro, Barra Velha, Joanes e Água Boa.

Mas o ápice de nossa prazerosa aventura se deu com participação, em Soure, conhecida como Capital do Marajó, na animada II Trilha Cicloturística do Marajó, que contou com centenas de amantes da bicicleta vindos de várias partes do país.

Habitada inicialmente pelos índios maruanazes, a região ainda mantém uma rotina pacata e tranquila, modificada apenas pelo fluxo de turistas curiosos por conhecer as maravilhas do arquipélago banhado pelos  rios Amazonas e Tocantins e pelo oceano Atlântico. Nessa rota, obrigatório saborear o delicioso queijo de leite búfala e a exótica iguaria local, o turu, molusco afrodisíaco da Amazônia.

Os incontáveis atrativos naturais do Marajó se multiplicam e se fortalecem com a hospitalidade de seu povo, que recebe os visitantes sem economia de carinho e atenção.

Mais uma vez a bicicleta nos levou para longe, para um mundo de fantasia de todos nós ciclistas, deixando um forte desejo de que logo voltaremos para explorar e conhecer outras trilhas da encantada Marajó e da fabulosa Amazônia.

(imagem Google)

domingo, 2 de julho de 2023

983 - O RESGATE DA ASSESSORA


Ontem, participei de um maravilhoso encontro da primeira turma de delegados e delegadas de polícia civil do Estado do Amapá. Ingressamos na carreira em 1992 e nos reunimos para comemorar a linda e produtiva trajetória daquela inesquecível turma.

Em um aprazível sábado, reforçamos amizades de décadas, comemos, bebemos, nos abraçamos, e relembramos muitas e boas histórias compartilhadas nessas mais de três décadas de saudável convivência.

Do meio para o final da festa, vencendo a timidez e o receio, decidi prestar meu inconfessável depoimento. Comecei registrando que, embora marcante e fundamental para a minha vida, fui o delegado de polícia de menor carreira no país, quiçá até do mundo, pois, sem contar o período de academia, permaneci no quadro por apenas trinta e oito dias. Lembrei ainda que, não bastasse o pouquíssimo tempo de atividade, a minha única e relevante diligência externa foi resgatar uma jovem perdida pelas ruas de Macapá.

Eu estava na delegacia em um final de tarde quando um telefonema movimentou o nosso monótono plantão. Um diligente sargento da polícia militar informou que uma moça chorava copiosamente à beira da calçada da Avenida Padre Julio, no centro da cidade, e que a única informação que conseguia  balbuciar é que conhecia o delegado plantonista.

Sem maiores delongas cuidei logo em acionar minha pequena mas valorosa equipe e entramos rapidamente na pouco acessível viatura Toyota Bandeirantes, com cabine dupla e apenas duas portas. Antes, por cautela e segurança , coloquei no cós da calça a arma da delegacia, um revólver, calibre 38, cujo cano longo humilhava o meu.

Ao chegar ao local da ocorrência me deparei com a cena do crime devidamente isolada. Para minha surpresa, a desesperada jovem, rodeada por curiosos,  tratava-se da minha querida amiga e conterrânea Maria Lourdes. Recém chegada do interior do Ceará, Lourdinha, como carinhosamente chamada, desempenhava a função de competente assessora jurídica na Assembleia Legislativa do Estado. 

Logo me inteirei completamente e registrei em relatório os motivos daquela situação que movimentou o plantão policial da à época pacata capital do Amapá. Após o expediente, Lourdinha costumava sair pela porta principal da casa de leis, caminhando poucas quadras pela Avenida FAB até à  Rua Tiradentes, onde morava. Mas, naquela fatídica tarde, a assessora jurídica cometeu o grave erro de sair pela porta dos fundos da assembleia.

Após caminhar algumas quadras, a jovem cearense perdeu o senso de localização e se desesperou, caindo em prantos. Ainda bem que foi acolhida por populares, protegida por militares e resgatada a tempo por minha valorosa equipe de plantão. 

Com a situação completamente esclarecida, com luzes intermitentes e sirenes da viatura ligadas, rumamos para a Rua Tiradentes, a apenas duas quadras de distância do local do crime, onde, em sua casa, deixamos,  protegida e amparada, a localizada e salva assessora Maria de Lourdes. 

(imagem Google)

quarta-feira, 31 de maio de 2023

982 - ENCONTRO DA FOTO CENTENÁRIA



Há algum tempo me encanto com fotografias antigas, sobretudo de nosso berço, Várzea Alegre, município localizado no árido sertão cearense. A prazerosa atividade desenvolvida na última década, de fotografar especialmente eventos esportivos, culturais e familiares, aguçou ainda mais minha curiosidade sobre esses registros históricos

Nos meus devaneios, pensei inicialmente em contar a história dos fotógrafos da nossa terra natal, figuras tão importantes na eternização das nossas lembranças, mas que, na maioria dos retratos, são esquecidas ou raramente identificadas.

E logo percebi que pouco se registrou em fotografia a Várzea Alegre de cem anos atrás. Mesmo assim, revirando os álbuns e as memórias da nossa família, chamou-me atenção a memorável fotografia batida no sítio Mocotó, tão fielmente descrita no livro de memórias de dona Balbina Diniz, de autoria de Maria Eunice. Ali, no início da década de 1920, a família de André José Duarte e Balbina(Dondon) Raulina do Sacramento se reuniu para um raro registro fotográfico. Diferente de hoje, quando os meios digitais permitem incontáveis cliques, naquele dia comumente ensolarado do interior nordestino, apenas uma foto congelou para sempre a primeira imagem de uma numerosa família.

Claramente se tratou de um momento que mudou a rotina daqueles bravos sertanejos. Homens, mulheres, jovens e crianças se prepararam caprichosamente e posaram para um desconhecido fotógrafo. Sabe-se apenas que um japonês registrou a pose formal da família de Papai André e Mãe Dondon. Mais uma vez o nome do profissional sumiu por trás da antiga câmera utilizada para o caprichado registro.

E, das conversas produtivas com os parentes e da busca por fotos antigas e seus autores, surgiu a feliz ideia de, em plena Festa Agosto, neste ano de 2023, em Várzea Alegre, reunir os incontáveis descendentes de Papai André e Mãe Dondon, para celebrar o Centenário do precioso registro de nossa família.

São muitos os motivos para nos reencontrar em um afetuoso congraçamento que realçará a heróica luta de nossos antepassados, reconhecendo, ainda, a importância da fotografia na consolidação de nossa memória histórica e afetiva.

Naquele dia, em apenas um clique, o desconhecido oriental eternizou a origem de uma grandiosa descendência de Mãe Dondon e Papai André, que se espalhou pelo mundo, levando consigo os significativos valores de seus antepassados, que norteiam a vida de todos nos.


segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

981 - 3º PEDAL NO AFUÁ



Neste janeiro de 2023, a Urbe, tradicional equipe macapaense de ciclismo, levou pela terceira vez cicloturistas do Amapá ao município do Afuá-PA.

Saindo de Macapá, após uma tranquila viagem de navio por quatro horas pelas águas do delta do Rio Amazonas, ansiosos, os vinte ciclistas amapaenses desembarcaram com suas bicicletas na acolhedora e singular cidade do arquipélago do Marajó.

Lembrando a italiana Veneza, vários canais cortam a cidade paraense. Os simpáticos moradores constroem suas casas suspensas sobre palafitas, modelo de edificação que permite a movimentação das marés. A população circula sobre pontes, em sua maioria construídas em madeira.

No primeiro dia de viagem, em um lindo final de tarde, após pedalar cerca dez quilômetros por várias vias da cidade, nosso grupo parou em um quiosque na beira do rio para repor as energias gastas no passeio. Vestidos com os azulados uniformes da equipe Urbe, munidos com capacetes e luzes de sinalização, os ciclistas do Amapá chamaram a atenção de todos, tanto que  João Marcelo, um verdureiro afuaense de 77 anos,  aproximou-se e pediu autorização para fazer uma fotografia conosco.

Após o registro, eu apresentei uma indagação comumente direcionada aos que se interessam pela nossa atividade:

- Seu João, me diga uma coisa: O senhor também pedala??

Imediatamente eu me toquei da minha absurda fala e retirei a idiota pergunta. Afinal, desde tenra idade, mulheres e homens, policiais e bombeiros, taxistas e passageiros, ricos e pobres, todos os moradores do Afuá pedalam, pois a bicicleta é o único meio de transporte daquela pacata cidade paraense. Lei municipal proíbe veículos automotores circulando sobre as dezenas de quilômetros de pontes da cidade. 

Assim, em vez das tradicionais gôndolas da Veneza Italiana ou dos carros e motos que circulam loucamente na maioria das cidades, para nosso deleite, são as bicicletas que completam a bela e indecifrável paisagem da Veneza Marajoara.


(imagem Google)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

980 - O CUNHADO DE PELÉ




Em 1989 eu cursava o quarto ano da graduação na centenária Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. E, com as limitações financeiras da maioria dos estudantes, vivia em Fortaleza com simplicidade, usando o transporte público, pois sem recursos para maiores luxos.

Naquele ano, por conta da coincidência do nome e sobrenome, nos corredores da velha faculdade, surgiu uma história de que eu seria irmão de Flávia Cavalcante, miss Brasil que alcançou o almejado título representando o Ceará. Não bastasse o festejado prêmio de beleza, logo após se tornar conhecida com uma das mulheres mais lindas do país, minha xará e suposta irmã passou a namorar com o Rei do Futebol, o mundialmente reverenciado Pelé.

Pouco tempo depois, em  uma manhã ensolarada, após caminhar vários quarteirões desde o terminal de ônibus, ao me aproximar da faculdade, suado, eu fui abordado por um grupo de colegas na praça Clóvis Beviláqua. Um deles, mais indignado com minha situação, questionou:

- Flávio Cavalcante, eu não me conformo com sua liseira. Cunhado de Pelé e andando de busão…

Mesmo admirando a fantástica careira de  Pelé, mas querendo aproveitar a notoriedade do Atleta do Século, dando força ao boato e fingindo desapreço, eu retruquei:

- Sinceramente eu não gosto muito desse namoro não. Quando Pelé vai lá em casa é a maior frescura. Ninguém pode mais entrar. Não podem saber que ele tá lá…

(Imagem Google)

quarta-feira, 13 de abril de 2022

979 - UMA DOSE DE CHEIRO


A indústria da beleza cresceu consideravelmente nas últimas décadas. Em Várzea Alegre, pequena  e progressista cidade do cariri cearense, atualmente há vários estabelecimentos especializados na venda de perfumes, cosméticos e outros produtos destinados ao embelezamento das pessoas. 

 

Nos dias de hoje, em nossas casas, possuímos vários frascos com desodorantes, colônias e perfumes para o uso pessoal e continuo. Mas nem sempre foi assim. Há cerca de 50 anos, especialmente em noites de festas, depois de se banhar e vestir a melhor roupa, o cidadão se dirigia a uma bodega da cidade para comprar um retalho de perfume. 

            

Em Várzea Alegre, na Casa São Raimundo, tradicional estabelecimento comercial que funcionou ininterruptamente por mais de 73 anos, nos começos de noite, o cliente ingressava, pedindo: 

 

- Luiz Silvino, me venda um “cherin” de Ouvert* aí...

 

Assim, o jovem comerciante derramava uma pequena dose na tampa do recipiente do perfume e entregava ao cliente. Após espalhar o líquido pelo corpo, o satisfeito cliente deixava o local, caminhando pelas ruas próximas do centro da pacata cidade cearense. Exalando o forte e raro cheiro, o perfumado buscava impressionar, também pelo olfato, as moças que por ali passeavam.

 

 

* marca de perfume 

Imagem Google

Colaboração: Luiz Cavalcante (Luiz Silvino)

domingo, 10 de abril de 2022

978 – A COBRANÇA DE TOINHA




 

Nos últimos dias, com muita consternação, o município de Várzea Alegre, no sertão cearense, despediu-se da comerciante Antônia Lisboa de Lima, conhecida por todos como “Toinha Boágua”, proprietária de bar que atendeu com presteza sucessivas gerações de varzealegrenses. 

 

Impossível encontrar algum conterrâneo que não consumiu bebidas alcoólicas ou provou dos apetitosos pratos muito bem servidos pela concorrida cozinha do Bar de “Toinha Boágua”. 

 

Na década de 1980, com sua natural simpatia e infinita disposição, Toinha  comandava seu movimentado bar no Calçadão Antônio Alves Costa, setor comercial e boêmio da progressista cidade do sertão caririense.

 

Em uma tarde de sábado, próximo ao fim do mês, o bancário Luiz Bitu, fiel cliente do bar, tomava uma cerveja gelada e conversava com Toinha, quando a extrovertida proprietária pediu:

 

- Luiz, como você trabalha no BEC*, faça um favor pra mim.  Escreva uma carta prum guarda da SUCAM que almoçou uns dias por aqui e foi simbora sem pagar...

 

O atencioso bancário, em uma folha do caderno do bar, rapidamente redigiu uma carta de cobrança endereçada ao esquecido funcionário da hoje extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública– SUCAM. 


Em seguida, Luiz indagou:

 

- Taí a carta, Toinha. Tá boa? O que eu faço agora? – Perguntou o inocente bancário que, sempre pagava as cervejas e os tira-gostos que consumia, ao receber o salário, no final de cada mês.

 

Imediatamente, a espirituosa Toinha respondeu:

 

- Luiz, tá boa demais. Agora aproveite e escreva uma cartinha dessas pra você também...

 

 

* BEC – Banco do Estado do Ceará, privatizado em 2005.

(imagem Google)

 

Colaboração: Luiz Bitu e Júlio Bastos Leandro

 

         

segunda-feira, 19 de março de 2018

977 - SANTO PADROEIRO (Republicado em homenagem a São José(



     Em fevereiro de 1991 cheguei a Macapá. Além de perceber imediatamente a simpatia e hospitalidade do povo amapaense também fui recebido por fortes chuvas. Gostei. Não poderia ser diferente, pois cearense do sertão adora tempo chuvoso e calor humano.

     Não demorei a descobrir que além de dar nome a uma majestosa fortaleza, construção símbolo do Amapá, São José era padroeiro de Macapá. Bela coincidência, pois o homem descrito nas escrituras sagradas como justo, obediente e trabalhador, também fora escolhido padroeiro do Ceará.

     Chegou março e no dia 19, como nos outros dias do mês, caiu muita água dos céus de Macapá. Fiquei esperançoso, pois esse dia serve de referência para os cearenses na previsão da estação invernosa. Chover no dia de São José é sinal de um ano de bom inverno e de muita fartura.

     Poucos dias depois liguei para o Ceará para falar com minha querida avó Maria Amélia. Ansioso, fui logo dizendo:

     - Vovó, este ano o inverno vai ser bom, caiu a maior chuva no dia de São José.

     Porém, para minha surpresa, vovó falou:

     - Meu , só se foi aí, pois aqui não caiu um pingo d’água. Faça uma prece para São José distribuir melhor essas chuvas com seus afilhados

(imagem Google)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

976 - O MACHADO E O AMAZONAS



            Moro há 27 anos em Macapá, às margens do Amazonas, maior rio do mundo em volume d’água. Mas nasci no centro-sul cearense, em Várzea Alegre, onde o pequeno e intermitente Riacho do Machado representa para o sertanejo local o que o Amazonas significa para a povo da região Norte do Brasil.

            Citado no Hino de Várzea Alegre, na letra do compositor Zé Clementino, as águas do município cearense deslizam mansas no Riacho do Machado. E em férias pelo Ceará, no início de 2018, aproveitei para, com um pequeno grupo de parentes e amigos, melhor conhecer esse córrego tão importante para a agropecuária e para o abastecimento de nossa cidade.

            Estivemos no sitio Mameluco, distrito do Riacho Verde, onde, da encosta da serra do Rubão, duas grotas se unem pra formar o nosso Riacho. Deixou-nos preocupado o baixo volume do Açude Olho D’Água, o seu principal reservatório. Dele sai a água que abastece a sede do município.

            Caminhamos em outros locais por onde o temporário Machado percorre, formando um imenso vale, chamado popularmente de “ribeira”. Compondo a microbacia do Rio Salgado, o riacho molha também terras de municípios vizinhos, até sua desembocadura no Sitio Juazeirin, em Lavras da Mangabeira. Ali conhecemos onde suas águas se juntam ao Salgado e depois seguem em direção ao Jaguaribe, principal rio do Ceará.

            Só quem vive no semiárido nordestino entende porque o encantamento e respeito por um riacho temporário, que passa o maior tempo sem água, especialmente em sucessivos anos de chuvas abaixo da média como ocorrido recentemente. É que a ansiada cheia do Machado representa a esperança do povo por uma boa safra de legumes, de uma pecuária sem perdas e da garantia do precioso líquido nas torneiras das milhares de residências.

            Em breve volto para a capital do Estado do Amapá levando na bagagem essa rica experiência vivida nas férias. E sei que ao passar pela orla do volumoso Rio Amazonas lembrarei do sofrido e seco Machado, esperançoso que a temporada de chuvas deste ano encha de alegria o leito daquele riacho que banha uma parte do sertão cearense.

(Imagem Google)