sábado, 27 de abril de 2013

750 - CONSULTA MÉDICA







Certo dia, na década de oitenta, a mãe levou a jovem filha para realizar uma consulta médica no Posto de Saúde da cidade de Várzea Alegre, no centro-sul cearense.


Com cerca de dezoito anos de idade, a moça se portou com muita timidez desde a chegada à unidade de saúde. No consultório, sentada ao lado da mãe, a jovem mal abria a boca para responder às perguntas feitas pelo experiente médico. Só após muita insistência do profissional, falava monossilábicos sim ou não


No meio da consulta, não mais suportando a timidez da filha,  a mãe da jovem se intrometeu:


- Dotô, ela num quer dizê. Mas ela tá cum doença na serventia dos hômi...



Colaboração: Paulo Danúbio Carvalho Costa

(imagem Google)

quarta-feira, 24 de abril de 2013

749 - SENTINELA APAIXONADO (Republicado)

        


      Cabe lembrar que se vivia um dos auges do militarismo no Brasil. Naquele período, o país era sucessivamente presidido por generais, de modo que pertencer a qualquer das forças armadas representava um enorme destaque na sociedade.

     Nessa época, depois de algum tempo na caserna, Antônio Ulisses foi escalado para tirar serviço como sentinela na residência oficial do Comandante-Geral da 10ª Região Militar, em Fortaleza.

       Sua tarefa, bem mais fácil que as desempenhadas no interior do quartel-general, era vigiar uma bela mansão localizada na Aldeota. Na enorme casa, viviam apenas o general, a esposa, e uma bela filha do graduado militar.

       Mesmo para os soldados que desempenhavam suas tarefas na residência era difícil ver mais detidamente a linda filha do Comandante, pois a moça passava o dia no interior da casa. Nas raras saídas, era acompanhada do seu pai, e, temendo possíveis punições, os soldados não se atreviam a olhar para aquela jovem.

       Certa tarde, quando Antônio Ulisses cumpria seu mister no portão de entrada da mansão, a moça, por várias vezes, apareceu na janela da casa e dirigiu o olhar em direção à guarita onde estava o Sd Costa Filho. Toda vez que a moça surgia, o coração de Antônio Ulisses batia forte, pois sentia que a jovem estava lhe paquerando.

       Os colegas de farda não iriam acreditar quando soubessem que ele em breve namoraria a cobiçada filha do Comandante. Por um instante, sonhou entrar naquela mansão de braços dados com a linda moça. Seu conseqüente casamento com a donzela, além de preencher seu coração, abriria as portas para uma promissora carreira militar. Logo deixaria a difícil vida de praça e alcançaria o cobiçado oficialato. Por várias horas aquela agradável fantasia habitou a mente do jovem militar, até porque a moça continuou a olhar em direção à frente da residência-oficial.

         No entanto, de repente, chamou a atenção o barulho de um avião que sobrevoava a cidade. Não demorou, em frente à residência, estacionou um táxi trazendo um jovem rapaz vestindo galante uniforme azul da Aeronáutica. Infelizmente, o elegante oficial que desembarcava era o namorado da filha do General. A moça, ansiosa, não aguardou a entrada da sua paixão. Veio correndo do interior da residência e, chamando-o de meu amor, se jogou nos braços do rapaz.

       A romântica cena aconteceu a poucos metros da guarita e diante dos olhos frustrados do nosso humilde soldado. O castelo de sonhos construído naquela tarde desabou completamente.


*extraído do livro "Conte Essa, Conte Aquela - Histórias de Antônio Ulisses

(Charge Edricy)

sábado, 20 de abril de 2013

747 - O GÁS ACABOU





Anos atrás, um fortalezense descansava em casa na manhã de domingo quando recebeu a notícia vinda da cozinha de que o gás acabara. Assim, era preciso ir a um ponto de vendas, pois naquele dia não acontecia a cômoda entrega em domicílio.

Para garantir o almoço, o cearense da capital carregou seu botijão vazio até a calçada. Em um ponto de ônibus, aguardou o transporte que o levaria à venda de gás mais próxima. Enquanto esperava, deixou o vasilhame vazio no chão e mirou para o fim da avenida, observando por alguns segundos se o coletivo se aproximava. Ao voltar o olhar para baixo não viu mais seu botijão, comentando com as pessoas presentes:

- Macho véi, me desliguei um minutin e já afanaram o meu bujão de gás…

O descarado ladrão, com impressionante cinismo, carregando o botijão furtado nas costas, completou tranquilamente: 

- É devera. Tem amigo do alei demais nessas banda. Por isso num tiro o meu bujão do ombro.


Colaboracão: Paulo Danúbio Carvalho Costa
(imagem Google)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

746 - O CONGA DA "NIKE" (Pedra de Clarianã há dois anos)


     


      Caminhando pelas cidades brasileiras, olhando cartazes, placas ou vitrines, nem parece que vivemos em um país de língua portuguesa. Pra todos os lados observa-se considerável abuso na utilização de vocábulos estrangeiros. Mas em partes do Brasil algumas dessas palavras recebem uma pronúncia diferente, recheada de regionalismo e sotaque.

       Anos atrás, Francisco das Chagas, operário aposentado conhecido como Chico Nenen, residente há cerca de duas décadas no bairro Ferrazópolis, em São Bernardo do Campo, veio passear em sua terra natal, Várzea Alegre.

      O nordestino voltou ao sertão com guarda-roupa moderno, vestindo bermuda e calçando vistoso tênis. No centro da pequena cidade cearense, foi abordado por um amigo e conterrâneo que disse:

        - Chico, eita conga* bonito!

       Vaidoso, o operário aposentado, sem atentar para pronúncia inglesa da letra “i”, falou:

        - É um Nique que eu comprei do Paraguai.

      Um jovem rapaz, que escutava a conversa, conhecedor da famosa marca norte americana de calçados e roupas esportivas, corrigiu:

       - Chico, num é Nique não, é Naique.

       - É danado!! Quer dizer que meu nome agora é Chaico, num é mais Chico não? – Finalizou o autêntico cearense radicado na grande São Paulo.



* Conga, segundo o Wikipédia, é um tipo de calçado barato, com cadarços e sola de borracha, muito comum por ser adotado por escolas públicas como parte componente do uniforme.

Colaboração: Carlos Leandro da Silva (Carlin de Dalva)

(imagem Google)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

745 - CHEQUE RASURADO







Meu pai Luiz Cavalcante exerce a atividade de bodegueiro há mais de cinquenta anos na cidade de Várzea Alegre. Nesse longo período sempre desconfiou da relação com os bancos e recusou insistentes ofertas de créditos, poucas vezes buscando financiamentos para incrementar a sua atividade comercial.


Muito cauteloso, temendo endividamento desnecessário, meu querido pai, em sua bodega, exerce um ritual sempre que recebe pelos correios cartão de crédito das administradoras. Com uma grande tesoura, mantida amarrada ao balcão por um elástico, ele corta o cartão em pequenos pedaços, jogando-os no lixo. Assim, impede qualquer tentação financeira ou o uso indevido do dinheiro de plástico por terceiras pessoas.


Na cidade cearense há outros experientes comerciantes com a mesma prudência no uso dos produtos bancários, entre os quais, meu tio Sérgio Carvalho, hoje aposentado. Em seu armazém, quando errava no preenchimento de um cheque, rasgava a folha em pedaços muito pequenos, guardando-os momentaneamente no bolso fundo da calça. Após fechar seu estabelecimento, na volta para casa, o metódico comerciante seguia espalhando os pedacinhos de papel pelo caminho, tirando-os discretamente do seu bolso.


Dessa forma, nem mesmo aquele que conseguisse a façanha de colar as pequenas partes do cartão de crédito do meu pai, seria capaz de encontrar as minúsculas peças e montar o quebra-cabeça das folhas de cheques espalhadas por tio Sérgio pelas tranquilas vias da cidade do sertão cearense.



Colaboração: Luiz Fernando Costa Cavalcante

(Imagem Google)


segunda-feira, 15 de abril de 2013

744 - SERRA DOS CAVALOS





Há algumas semanas, na agradável companhia dos meus irmãos Fernando e André, do meu primo Francisco Otávio e do meu tio Paulo Danúbio, fui visitar o primo Antônio Costa, recente morador da distante Serra dos Cavalos, região limítrofe do município de Várzea Alegre.

Não é tão simples chegar ao deslumbrante topo da serra e avistar de longe várias localidades varzealegrenses, entre as quais a sede do município. A tortuosa estrada vicinal possui íngremes ladeiras a vencer e várias cancelas para abrir. Mas os modernos veículos superam os obstáculos com desenvoltura e rapidez. Para abertura das cancelas, houve uma divisão de tarefas entre os passageiros. Em menos de uma hora cumprimos o temido percurso que os antigos moradores, com suas montarias, faziam lentamente, com muita dificuldade e enorme esforço, tanto que, em algumas subidas, era preciso desmontar do animal.

Para nos orientar no divertido e inusitado passeio, levamos o agricultor e madeireiro Antônio Lourenço, nascido e criado naquela antes isolada região do município cearense. No caminho, após o sítio Caiana, passamos por uma vereda chamada "Passe Ligêro", que, segundo nosso guia, ganhou o nome porque fica logo abaixo de uma grande pedra que os moradores temem que role e caia sobre quem trafega pelo local.

No meio de uma das mais íngremes e desafiadoras subidas, com a potente caminhoneta engrenada em marcha de força, meu tio Paulo interrompeu o momentâneo silêncio dos viajantes, dizendo:

- Essa ladeira é grande, mas é besteira perto da ladeira do Rubão*...

- E tem pior? - Perguntou o assustado Francisco Otávio, empresário radicado em Fortaleza e pouco acostumado a essas aventuras rurais.

Para ilustrar o acidentado relevo do lugar, meu irreverente tio contou:

- Dizem que a ladeira do Rubão é tão inclinada, mas tão inclinada, que quando o jumento vem descendo, se inventar de cagar, a merda rola por riba do espinhaço...


* Rubão é um sítio do município de Várzea Alegre.

(Imagem Google)

sábado, 13 de abril de 2013

743 - CARTOMANTE






Em um fim de tarde, na década de oitenta, em Várzea Alegre, um grupo de ciganos bateu à porta da residência do mecânico de automóveis Luiz de Marechal, na Rua Doutor Leandro, via pública também conhecida como Rua da Baixa ou Rua do Juazeiro. 


Luiz, ainda com a roupa suja de graxa, foi à calçada para observar o que acontecia. Uma das ciganas, vestindo roupas coloridas, aproximou-se, segurou a mão do varzealegrense e propôs:

- Por apenas cinco cruzeiros eu leio sua mão e adivinho o seu futuro...
 

Luiz olhou com desconfiança para a cigana e provocou:


- Acertar o futuro é moleza. Num dá nem pra conferir. Dou o dobro é se você adivinhar o meu passado.



(imagem Google)