sábado, 31 de dezembro de 2011

517 - A FROTA DA CAPITAL




Quando criança, nas férias em Fortaleza, um dos meus divertimentos prediletos era contar os carros que passavam pela rua onde morava minha querida avó Maria Amélia.  

Todo aquele movimento da cidade grande me impressionava. Até porque, naquele tempo, transitavam poucos veiculos automotores pelas ruas de paralelepípedos da minha pequena cidade natal, Varzea Alegre.

         Na mesma época, chegou do calmo interior cearense uma moça simples para trabalhar na casa da minha avó. Também pouco acostumada com o intenso trânsito,  a jovem varzealegrense permanecia horas na frente da residência, só observando os carros passarem pela Barão de Aratanha, movimentada rua de mão única da região central da capital alencarina.

          Após vários dias da sua chegada, acompanhando o constante fluxo pela importante via, com os veículos sempre no mesmo sentido, a jovem e acanhada moça perguntou à patroa:

- Do’Maria, pradonde todo esses carro vão que nunca volta?


(imagem Google)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

516 - BEBENDO E APRENDENDO (Pedra de Clarianã há dois anos)



      Muito embora os grandes debates e descobertas científicas ocorram quase sempre nas cátedras das universidades, a sabedoria também habita os lugares mais simples.

       Todo mundo que viveu na década de cinquenta em Várzea Alegre conheceu o Bar de Zé de Souza. Localizado na antiga Rua Major Joaquim Alves, bem no centro comercial da cidade, o lugar era bastante freqüentado naquela época.

       Certo dia um cliente do bar, encostado ao balcão, depois de consumir várias pingas, tomou coragem e falou:

        - Zé, tua muié é miudinha demais!

        O dono do bar, arrumando as garrafas de cachaça nas prateleiras, olhou para o indiscreto freguês e disse sem gaguejar:

        - É assim mermo. Muié num tem isso de tamanho. São tudo boa. Tanto faz uma roça grande de duzentas tarefa* como uma rocinha pequena de tarefa e meia. A cancela pra entrar é tudo quase duma largura só.

 

* medida de área típica do sertão nordestino

colaboração: Luiz Cavalcante

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

515 - SEU ACELINO




A série televisiva Chaves, entre os seus divertidos personagens, consagrou a figura de seu Barriga, senhorio e cobrador de aluguel.  Mas não só na fictícia vila mexicana surgiram originais e marcantes locadores. 

Durante a segunda metade do século passado, Acelino Leandro disputou e exerceu cargos de relevo na política varzealegrense. Comerciante por várias décadas, também escreveu uma importante obra para o entendimento da origem das famílias de Várzea  Alegre.

Na pequena cidade do sertão cearense, Acelino possuiu vários imóveis, entre os quais um onde funcionava um bar alugado a Zé Batista Dantas, localizado próximo ao mercado velho. O aluguel vencia sempre no dia 30 de cada mês.

Todos os dias, no fim da tarde, vestindo a engomada e abotoada camisa de mangas compridas, o vaidoso Acelino passava  em frente ao imóvel. Da calçada, com seu característico vozeirão, cumprimentava o inquilino:

- Boa!!!!!

A medida que se aproximava a data do vencimento da locação, o cumprimento aumentava de tamanho e de tom:

- Boaaaaaa!!!!!

No dia do vencimento, a saudação do conhecido senhorio se tornava ainda mais forte:

- Boaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!


Colaboração: Geovani da Costa
(imagem Google)

sábado, 24 de dezembro de 2011

514 - VIDEOCHAMADA




A  atual e moderna telefonia permite a conexão de duas pessoas usando recursos de áudio e vídeo. Significa dizer que hoje não basta ouvir,  também é possível ver com quem se fala, independente da distância entre os  interlocutores. 

Mas em Várzea Alegre, sertão cearense, essa novidade teconológica parecia existir desde a  segunda metade do século passado. 

Meu tio Antônio Ulisses contava que certa manhã da década de oitenta ligou para o escritório do primo Hélio Costa, no momento em que este competente engenheiro, com outros técnicos, examinava a planta de uma obra e realizava cálculos estruturais. O desligado doutor Hélio retirou  o velho aparelho do gancho e o encostou no ouvido. 

Percebendo que alguém atendera o telefonema, o corretor de algodão Antônio Ulisses, do outro lado na linha, perguntou:

- Dotô Hélio tá poraí ?

O capaz e dispersivo engenheiro, em vez falar, apenas confirmou gesticulando, mexendo a cabeça para cima e para baixo. 

Sem ouvir nada, Antônio Ulisses continuou:

- Dotô Hélio ocupado ? 

 Ainda com o pesado telefone no ouvido, sem abrir a boca, o desatento engenheiro, como se já naquela época existisse a videochamada, apenas com gestos, respondeu ao primo Antônio Ulisses girando a cabeça para os lados.


(imagem Google)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

513 - NATAL INESQUECÍVEL (Republicado)


 
      Em 1993, meu querido primo Hudson Batista Rolim recebeu um irrecusável convite para passar a noite de Natal na casa da nova namorada, no Bairro Cidade dos Funcionários, em Fortaleza. Cedo da noite, o apaixonado estudante vestiu a melhor roupa e apanhou o ônibus para cear na casa dos sogros.


       Depois de cruzar toda cidade, Hudson se impressionou ao chegar à bela e enfeitada casa da namorada. Semana antes, após um animado forró, na madrugada que a deixara ali em frente, não observara quão bonita era casa da sua amada.

       Mas naquela noite natalina esperava conhecer muito mais da sua futura família. No portão, Hudson foi recebido friamente pelo dono da residência, seu futuro sogro. Mesmo assim foi conduzido a uma mesa onde, sozinho, recebeu completa atenção dos bem vestidos garçons. Não sabia que a família de sua namorada vivia em tão boas condições. Consumindo uísque 12 anos e provando saborosos petiscos, o filho de varzealegrenses pensou: “dessa vez eu amarrei o meu burrin na sombra”.


       Porém já se aproximava da meia-noite e nada da namorada aparecer na festa. Até que finalmente ela ingressou pelo portão da garagem e passou a cumprimentar e desejar feliz natal a todos. Ao ver o namorado, a jovem se surpreendeu e falou:


        - Credo, tu é aqui Hudson? E eu esperando você lá em casa. Num sabia que tu conhecia doutor João, nosso vizinho.


       Assim, os namorados se despediram, atravessaram a rua e entraram na modesta casa, onde um casal de velhos cochilava na poltrona assistindo na TV ao especial de Roberto Carlos. Dali, o resto da noite, tomando coca-cola e comendo pedaços de um duro e frio peru, Hudson, tentando esconder a decepção, observou pela janela o movimento e as luzes do animado castelo em frente que por poucas horas foi seu.


Colaboração: Hudson Batista Rolim

(imagem Google)

domingo, 18 de dezembro de 2011

512 - INTEGRAR PARA NÃO ENTREGAR




Em alguns anos, na década de setenta, Várzea Alegre recebeu a inesquecível visita de jovens universitários do famoso e festejado Projeto Rondon

Moças e rapazes de vários estados brasileiros, especialmente do sul e sudeste, mudavam a rotina do pacato município cearense. Traziam informações, promoviam palestras e patrocinavam várias atividades recreativas para as crianças e os adolescentes da à época isolada cidade

Certa vez, para a concorrida inscrição nas escolinhas esportivas, os rondonistas exigiram exames de fezes e urina dos pequenos candidatos. 

No dia seguinte, o garoto Raimundo Alves Bezerra, de apelido João Sem Braço, interessado em uma vaga nas equipes de futebol de salão, amanheceu na extensa fila da escola Presidente Castelo Branco. Após algumas horas de espera, finalmente entregou aos estranhos visitantes o material para os testes exigidos. 

Ao receber, a bela universitária do curso de biomedicina, vestida de branco e usando luvas, olhou para o varzealegrense e, com seu diferente sotaque sulista, reclamou: 

- Garoto, bastava uma pequena amostra. Não era  preciso misturar tudo e encher uma lata de leite Ninho não.


(imagem Google)

sábado, 17 de dezembro de 2011

511 - A CHAVE DA REZADEIRA




No mês de janeiro, na movimentada semana em homenagem ao padroeiro São Sebastião,  o acolhedor distrito de Mangabeira, no sertão cearense, recebe inúmeros visitantes.  

Certa noite de festa, logo após a concorrida novena na igreja do distrito de Lavras da Mangabeira, uma conhecida vidente e rezadeira se dirigiu ao serviço de som do parque de diversões instalado em meio ao arraial e encomendou um anúncio. O locutor, com voz postada, repetiu várias vezes o aviso:

- Quem encontrou ou vier a encontrar umas chave por gentileza trazer no nosso estúdio que será muito bem gratificado.

O cético bodegueiro Elizeu Casemiro, caminhando pelo meio das barrracas armadas para a festa do santo padroeiro, após ouvir os repetidos anúncios e saber a quem pertencia o molho de chaves perdido, se deparou com a famosa rezadeira. Ao perceber que a agoniada mulher continuava buscando algo pelo chão,  o comerciante contestou:

- Mas a senhora que diz na rádia que encontra animal perdido, faz caba deixar de bebê, arruma casório para moça véia e acha tudo que é coisa sumida? Cuma é que num sabe nem adonde tuas chave?


Colaboração: Vicente Ferreira Lima Filho
(imagem Google)