domingo, 26 de janeiro de 2014

826 - LUIZÃO NO CABARÉ (Pedra de Clarianã há dois anos)




       Após fraca feira no mercado de carnes de Várzea Alegre, o açougueiro Luizão de Pajé decidiu dar uma volta no Engein Véi, zona do baixo meretrício da pequena cidade do interior cearense. Naquele sábado da década de setenta,  sofrera grande prejuízo, pois só negociara metade do porco exposto no açougue, e parte considerável da venda ainda foi fiado.

       Era noite e no cabaré havia intenso movimento. Em um dos bares, casais dançavam ao som da música de Bartô Galeno: “No toca-fita do meu carro, uma canção me faz lembrar você. Acendo mais um cigarro e procuro esquecer você...” Sentado em um canto, com cigarro de fumo no canto da boca, Luizão bebia umas pingas, observando as mulheres do lugar. Lá pelas tantas, após seguidas recusas das prostitutas mais antigas, o açougueiro finalmente acertou com uma jovem e a levou para o quarto.

      No pequeno aposento, a mulher, seminua, logo se deitou, enquanto Luizão de Pajé, de costas, despia-se e pendurava as roupas em um cabide. Quando o açougueiro se virou para o lado da cama, a prostituta pôs as mãos no rosto, e, assustada, perguntou:

        - VixeLuizão. Isso tudo é pra eu?

      O conhecido açougueiro, com sua voz grave e arrastada, do alto dos seus dois metros de altura, respondeu:

  - Do jeito qu’eu tou mole hoje, num dá trabai ser pra eu... 


Colaboração: Francisco Fiúza Bitu (Titico) 

(imagem Google)

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

825 - FESTA DO BARREIRO



Há várias décadas, no sítio Barreiro, zona rural de Várzea Alegre, a comunidade organiza uma animada festa em homenagem a São Pedro.  O evento sempre contou com a participação de moradores locais e centenas de pessoas de outras regiões do Município de Várzea Alegre.

Por muitos anos a parte não religiosa da festividade atraiu os homens comprometidos da cidade e provocou a desconfiança e o ciúme da mulherada.

Em um mês de junho de meados do século passado, em Várzea Alegre, pela madrugada, o comerciante José Batista Rolim  entrou de mansinho em casa mas encontrou a esposa Francisca Meneses Rolim, Iacy, ainda acordada:

- Rolim, isso é hora? Foi na festa do Barreiro, não foi?

- Eu num queria ir. Tava chegando em casa mais cedo quando Toin Costa e André Meneses passaram de Jipe* e me levaram pra lá...

A desculpa esfarrapada do marido provocou o imediato  e irônico comentário da mulher:

- Verdade. Eu escutei mesmo você gritando em toda altura: “Me acuda, me acuda. Meus amigos querem me levar à força pra festa do Barreiro...”

* aportuguesamento do termo em inglês Jeep, marca do rústico veículo que inaugurou o segmento off road e fez bastante sucesso no sertão nordestino.
Colaboração: Isla Monica Meneses Rolim
(imagem Google)

sábado, 18 de janeiro de 2014

824 - ZAQUEU E O FALSO CORRETOR




Na década de 1980, em uma viagem à Fortaleza, o agricultor varzealegrense Zaqueu Guedes demorou algumas horas pela orla da cidade, deslumbrado com as belas praias e as lindas paisagens da beira-mar.  Admirado com a grandeza do oceano, o matuto sentou na areia e mirou seu olhar em direção ao horizonte.

O visitante, com trajes e comportamento típicos do sertanejo, chamou a atenção de um estelionatário que caminhava pela praia em busca de ingênuas vítimas. Apresentando-se como corretor de imóveis, o bem vestido malandro se aproximou do agricultor, e, apontando para o oceano, propôs:

- O senhor tem interesse em comprar um lote desse mar? Está uma enorme procura! Eu vendo do tamanho que o senhor quiser...

O esperto matuto tirou o chapéu da cabeça, olhou para o ardiloso vendedor e, com sua acumulada experiência e valiosa inteligência, respondeu:

- Me dê Ceicado. Ceique qu'eu compro umas trezentas tarefa*...

* medida de área comum no sertão cearense
Colaboração: José Cavalcante Cassundé ( do Norte)
(imagem Google)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

823 - ROMANTISMO CADENTE (Pedra de Clarianã há dois anos)


    

          Há alguns anos, o varzealegrense Gean Claude iniciou namoro com Agatângela, moradora do sítio Tupuiú, em Aquiraz, região metropolitana de Fortaleza. Apaixonados, os dois curtiam passar a noite ao relento, sentido a brisa e observando a lua e as estrelas.

        Certa madrugada, na tranquilidade do sítio, o casal olhava para o horizonte quando surgiu no céu uma estrela cadente. A namorada encostou a cabeça no peito do amado e perguntou:

          - Gean, tu viu?

          - Vi sim - respondeu o namorado.

        - O povo acredita que quando cai uma estrela dessa a gente tem direito a fazer um pedido. Gean, tu fez? – indagou, Solângela, com os olhos brilhando de felicidade.

          Gean abraçou ainda mais fortemente aquela que seria sua futura esposa, e disse:

           - Fiz sim.

          - E o que tu pediu? - continuou a romântica namorada, já sonhando com o casamento.

      - Pra ela num cair aqui – finalizou, Gean, com seu incontrolável bom humor.

Colaboração: Gean Claude Holanda

(imagem Google)

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

822 - GOL ANULADO




Na segunda metade do século passado as partidas de futebol entre as seleções de Várzea Alegre e Cedro aconteciam em um clima de intensa rivalidade.

Certa vez, o varzealegrense Antônio Valdemar de Sousa, de apelido Balá, foi escalado para arbitrar um desses importantes clássicos do sertão cearense. No Juremal, campo de futebol de Várzea Alegre, o certame foi bastante disputado, com as seleções perdendo inúmeras chances de gol.

A peleja caminhava para um empate sem gols, porém, a um minuto do fim, o time cedrense abriu o placar. A euforia dos jogadores visitantes durou pouco, pois o juiz decidiu anular o gol. Uma enorme confusão se formou dentro do campo e no meio da torcida. O alto e forte capitão da seleção de Cedro, autor do gol, bufando de raiva, reclamou:

- Isso é uma vergonha! Num teve falta, nem impedimento...

 Buscando justificar a anulação do gol, o árbitro Balá disse ao autor do gol:

- Você chutou de longe demais!

Colaboração: Júlio Bastos Leandro
(imagem Google)

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

821 - O AJUDANTE DA CAMINHADA




    A prática de atividade física regular traz valiosos benefícios para o corpo e para a mente. A cada momento, nos mais variados lugares, pessoas de todas as idades aderem a essa onda saudável.

      Há alguns dias, em um final de tarde, eu e meu irmão Luiz Fernando passeávamos pela tranquila Várzea Alegre quando nos deparamos com um novo e surpreendente atleta, de tênis e  camiseta. Era o até então sedentário e obeso Raimundo Leandro Filho, pecuarista conhecido como Bujãocaminhando lentamente pelo acostamento do trecho urbano da BR 230.

Ao nos ver, o irreverente conterrâneo falou:

    - Foi o dotô que recomendou. Disse que era bom pra baixar aquele negócio e subir o outo...

     Com alguma dificuldade decodificamos a linguagem do velho amigo, que se referia às suas altas taxas do diabetes e ao seu órgão genital. Para provocar ainda mais o bom humor do velho amigo, Luiz Fernando perguntou:

- E dá certo mesmo, Bujão? Será que tem jeito de subir?

Referindo-se aos populares comprimidos para disfunção erétil, o simpático varzealegrense, continuando nas suas vagarosas passadas, completou:

- Se num certo a gente toma o ajudante...

(imagem Google)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

820 - O FIM DA PICADA




No início da década de 1990 eu já namorava com Eliziê e todo início de noite esquentava o banco de ferro da entrada da casa do meu sogro Antônio Nogueira, no centro de Macapá. O nosso romântico encontro coincidia com o horário de ataque dos carapanãs, mosquitos sugadores de sangue também conhecidos como muriçocas. As trocas de carinho eram sempre interrompidas pois, a todo momento, o casal precisava se defender de picadas dos pequenos e insensíveis animais.

Nos fins de tarde minha querida namorada limpava cuidadosamente o local, aplicava fortes inseticidas, tudo para evitar que os pernilongos perturbassem o nosso ansiado encontro das oito e meia da noite. Contudo, o esforço era em vão. Bastava que nos sentássemos no banco para a aproximação das muriçocas com seus incômodos zumbidos e suas irritantes picadas.

Felizmente, através de uma propaganda na televisão, conheci um eficiente aparelho, capaz de afastar os insetos e impedir a praga que perturbava nosso namoro. A solução era simples e inteligente. O equipamento imitava o som emitido pelo carapanã macho e afastava as fêmeas ovadas, que nesse período tem aversão aos insetos. Segundo os pesquisadores que desenvolveram o inovador produto, as fêmeas são as únicas responsáveis pelas picadas.

Imediatamente encomendei o produto e logo o recebi pelos correios. À noite, com o equipamento fixado no cinto cheguei à casa da namorada e anunciei a novidade para todos.  Com a amada ao lado, sentei no banco, liguei o aparelho e estufei o peito. Nenhum carapanã se aproximaria para atrapalhar nosso namoro.

O resultado foi surpreendente. Nada da lenta chegada dos insetos, como acontecia até então. Dessa vez, mesmo com o caro aparelho ligado, uma nuvem de ousadas carapanãs avançou sobre nós e aplicou fortes, dolorosas e decepcionantes picadas. 


(imagem Google)