sábado, 31 de agosto de 2013

790 - OS MENINOS DO PARQUE MAIA




Durante os dez últimos dias do mês de agosto, em Várzea Alegre, vive-se o animado período da festa do padroeiro São Raimundo Nonato. Enquanto os adultos participam dos eventos religiosos e circulam pelas barracas do arraial, as crianças acompanham a movimentação do parque de diversões que se instala na cidade cearense. O sonho da meninada dura até o dia 31, quando começa a rápida, triste e angustiante desmontagem da pesada estrutura.

No final da década de 1970, os meninos Júlio Bastos Leandro, Geraldo Leandro Filho e Fernando de Zé de Zacarias moravam na antiga Getúlio Vargas, uma das ruas onde o tradicional Parque Maia* era montado. Sem dinheiro, passavam os dias e as noites de festa circulando pelo “carrossel”, buscando uma forma alternativa de “rodar” nos brinquedos.

Uma vez, cedo da manhã, os garotos cataram do chão os bilhetes usados e rasgados na noite anterior e colaram com  grude de goma. Mas os atentos funcionários do parque descobriram facilmente a grosseira montagem.

No mesmo ano, em uma noite movimentada, encostados à grade, os meninos da Getúlio Vargas conseguiram abrir um pouco as barras de ferro e acessar o brinquedo conhecido como Cavalinho pela alargada brecha do gradil. O primeiro a entrar clandestinamente, Geraldo Filho, montava alegremente em um dos animais de madeira, quando Fernando alertou:

- Geraldo, bora voltá, seu irmão Julin ficou com cocão inganchado na grade...


* Parque de diversões que, junto com o Parque Lima, por várias décadas, montou seus brinquedos em Várzea Alegre.

Colaboração: Júlio Bastos Leandro
(imagem Google)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

789 - APOSENTADORIA DE CHICO BASIL





 
Os moradores da pacata cidade de Várzea Alegre, especialmente os fiéis frequentadores da antiga Rua dos Perus, atual Coronel Pimpim, adoravam ouvir as infindáveis histórias do ferreiro Chico Basil

Por vários anos, todos os dias, nas suas inúmeras passagens pela movimentada rua, o velho ferreiro encontrava grupos de amigos e narrava uma situação pitoresca vivida por ele ou talvez criada por sua fértil imaginação.

Certa vez, Chico contou que viajara ao vizinho município de Iguatu para encaminhar o seu pedido de aposentadoria rural. No balcão de atendimento, o funcionário do instituto de previdência, após analisar a documentação do ferreiro, com uma dose de frieza burocrática, questionou:

- Seu Francisco, o senhor só pode pleitear a aposentadoria rural se provar que trabalha no campo. Qual a sua ligação com o meio rural?

O velho ferreiro, apertou o olho cego, esfregou as mãos entre as pernas e disse:

- Eu boto o povo praí pra roça na vazalegre...

- Como assim, seu Francisco? Indagou o intrigado servidor da previdência.

Chico Basil completou:

- Sou eu que bato o ferro na brasa, amolo o facão e faço a enxada pru mode eles levá pra roça...


Colaboração: Paulo Roberto Bezerra Bitu
(Imagem Google)

domingo, 25 de agosto de 2013

788 - AULA VAGA





Nasci em Várzea Alegre, sertão cearense, mas, no início da década de 1980, me mudei para Fortaleza, onde cursei o segundo grau, atual ensino médio, no tradicional Colégio Cearense Sagrado Coração.


Certa manhã, um dos professores faltou e, para nossa tristeza, o rígido e antipático coordenador foi substitui-lo. Para ocupar o espaço ocioso, propôs aos inquietos alunos que compusessem versos usando as últimas palavras da estrofe do soneto O Vinho de Hebe do poeta parnasiano Raimundo Correa:  


Quando do Olimpo nos festins surgia

Hebe risonha, os deuses majestosos

Os copos estendiam-lhe, ruidosos,

E ela, passando, os copos lhes enchia...


         Vários colegas compuseram belas e românticas poesias e até hoje não entendo porque a minha foi a mais votada da sala. Ganhei o prêmio e adquiri a permanente vigilância e "simpatia" do carrasco servidor da escola, com os despretensiosos versos:


Ao longe o coordenador surgia

Com ares de arrogância e majestosos

E a turma de alunos ruidosos

Agora de raiva se enchia…


(imagem Google)

sábado, 24 de agosto de 2013

787 - RETROVISOR INDISCRETO (Pedra de Clarianã há dois anos)



          Em Várzea Alegre, na década de noventa, no mês de julho, um popular vereador, mesmo casado, convidou uma jovem paquera para irem juntos à Exposição do Crato, uma das maiores e mais animadas festas do interior nordestino. Porém, quando o político iniciava a preparação para a desejada viagem, sua esposa manifestou o desejo de ir ao passeio.

          Para administrar a complicada situação, o edil se socorreu do amigo, correligionário e companheiro de farra Antônio Costa:

          - Antôi, a muié lá de casa quer ir po Crato. Disse a ela que a outa pequena que vou levá é sua namorada.

          Tudo combinado, os quatro seguiram viagem para a Capital Cultural do Ceará. O vereador guiava o carro e a esposa ia ao seu lado. No banco traseiro seguiam Antônio Costa e a bela moça. Mesmo dirigindo, o político não tirava o olho do retrovisor, toda hora piscando para a jovem.

          A viagem iniciou normalmente até que, na altura do sítio Cachoeira Dantas, o atento motorista percebeu que o amigo começara a se aproveitar do momento, exagerando na sua atuação. Fazendo-se passar por carinhoso namorado, Antônio Costa se encostou, lançou o braço sobre o ombro da bonita passageira, e aplicou-lhe ardentes beijos.

         Nessa hora, decepcionado com o comportamento do amigo, o vereador ligou o toca-fitas do veículo e, com seu sotaque cadenciado, sem desviar o olho do retrovisor, passou a reclamar para a esposa:

         - Muié, incumendei essa fita de forró pensano que era dos Brasa*. É outa banda que num sabe nem levá a cantiga em riba do ritmo. Ou coisa danada de rim é o caba ser inganado!!!


* referência aos Brasas do Forró, banda cearense de muito sucesso que surgiu na década de oitenta.

Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto

(imagem Google)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

786 - PARQUE DA FESTA DE AGOSTO






Agosto sempre foi um período especial na vida dos varzealegrenses de todas a idades. Entre os dias 21 e 31,  festejam o padroeiro São Raimundo Nonato, vivendo momentos de muita devoção e alegria. As crianças, desde os primeiros dias do mês,  esperam ansiosamente pela chegada do parque de diversões à cidade do centro-sul cearense.  


Certa vez, na década de 1980, no início da animada da Festa de Agosto, no Sanharol, localidade próxima a zona urbana de Várzea Alegre, os filhos de Maria Cavalcante insistiam:


- Mãe, dinheiro pra nos ir na rua rodá no parque…


A modesta mãe, com poucos recursos, sem poder atender aos pedidos dos filhos, entregou um pequeno caderno comumente usado para anotar as compras à crédito no comércio e disse:


- Minino, taqui a caderneta da budega de Luiz Silvino. Se o dono do parque aceitá fiado e anotá na caderneta pode rodá as nove noite de festa...


Colaboração: Raimundo Cavalcante de Morais

(imagem Google)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

785 - JANTAR DE APRESENTAÇÃO (Pedra de Clarianã há dois anos)



          Anos atrás, o varzealegrense Gean Claude decidiu visitar os familiares de sua namorada Agatângela, na localidade de Tupuiú, município de Aquiraz, região metropolitana de Fortaleza. Com pouco tempo de namoro, chegara o ansiado momento de conhecer os futuros sogros.

          Em face do isolamento da pequena localidade, da falta de telefone, os namorados chegaram no início da noite, sem avisar, apanhando todo mundo de supresa. A namorada cuidou logo de apresentar Gean aos familiares dela.

         A simpática e humilde sogra, despreparada para a visita, sem muito a oferecer naquele momento, perguntou ao genro:

          - Você gosta de uma sopinha de noite?

      O apetitoso Gean, já demonstrando o seu jeito irreverente, respondeu:

           - Depois da janta é bom...



Colaboração: Antônio Carlos Holanda

(imagem Google)


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

784 - MUDANÇA DE NOME





Há alguns anos, um modesto cidadão do interior nordestino, após refletir bastante, tomou coragem e se dirigiu a um escritório de advocacia da sua pequena cidade. Ao entrar no gabinete, o cliente, claramente constragido, falou:

- Dotô, percurei o sinhô pra mode mudá meu nome...

- Para mudar é preciso saber se o seu nome lhe causa algum constrangimento. Só assim o juiz vai autorizar a troca. Qual o seu nome?  – explicou e perguntou o advogado.

- Pinto. Num gosto desse nome. Sei que é comum, mas desde pequeno fico sem graça…
   
Em pé e abrindo um dos vários livros da sua estante, o causídico perguntou:

- E como o senhor deseja se chamar?

O tímido cidadão levantou o rosto, olhou para o advogado e respondeu:

- Ontôe Pinto….


Colaboração: Carlos Leandro da Silva (Carlin de Dalva)
(imagem Google)