terça-feira, 20 de março de 2012

574 - PASSARINHO NA GAIOLA (Pedra de Clarianã há dois anos)







     O agricultor varzealegrense Raimundo Alves de Menezes, conhecido por Mundin do Sapo, por muitos anos, com sua solidariedade, espontaneidade e sabedoria contribuiu para a felicidade do povo do sertão.

      Na década de 80, Mundin passeava por Fortaleza e foi ao BEC dos Peixinhos* receber seu aposento. Na época não havia preferência para os idosos e o agricultor se colocou no final de uma longa fila da agência bancária.

      Para passar o tempo e alegrar o desconfortável ambiente, o simpático agricultor passou a assoviar alguns dobrados, chamando a atenção e divertindo os que aguardavam o atendimento.

     Contudo, as duas únicas mulheres que atendiam vagarosamente no guichê do banco passaram a caçoar da atitude irreverente do velho matuto. No meio do deboche, uma das caixas falou alto:

     - Vamos arrumar uma gaiola para prender esse canário velho de cabeça branca.

      Ao perceber o tom de menosprezo das bancárias, Mundin respondeu imediatamente:

      - Percure uma gaiola grande que nóis três dento. Apois o cabelo do canário tá branco, mas o talo tá bem verdin.


* conhecida e movimentada agência do falecido Banco do Estado do Ceará localizada no centro de Fortaleza

Colaboração: Izabel Feitosa de Morais, Bebé de Zé de Ana

(imagem Google)

segunda-feira, 19 de março de 2012

573 - SANTO PADROEIRO (Republicado)






     Em fevereiro de 1991 cheguei a Macapá. Além de perceber imediatamente a simpatia e hospitalidade do povo amapaense também fui recebido por fortes chuvas. Gostei. Não poderia ser diferente, pois cearense do sertão adora tempo chuvoso e calor humano.

     Não demorei a descobrir que além de dar nome a uma majestosa fortaleza, construção símbolo do Amapá, São José era padroeiro de Macapá. Bela coincidência, pois o homem descrito nas escrituras sagradas como justo, obediente e trabalhador, também fora escolhido padroeiro do Ceará.

     Chegou março e no dia 19, como nos outros dias do mês, caiu muita água dos céus de Macapá. Fiquei esperançoso, pois esse dia serve de referência para os cearenses na previsão da estação invernosa. Chover no dia de São José é sinal de um ano de bom inverno e de muita fartura.

     Poucos dias depois liguei para o Ceará para falar com minha querida avó Maria Amélia. Ansioso, fui logo dizendo:

     - Vovó, este ano o inverno vai ser bom, caiu a maior chuva no dia de São José.

     Porém, para minha surpresa, vovó falou:

     - Meu , só se foi aí, pois aqui não caiu um pingo d’água. Faça uma prece para São José distribuir melhor essas chuvas com seus afilhados


domingo, 18 de março de 2012

572 - A PINTURA DE DELFONSO






O varzealegrense Ildefonso Vieira Lima tornou-se conhecido no centro-sul cearense por suas habilidades na difícil arte da pintura. Vários jovens passaram por seu modesto ateliê e aprenderam a manejar o pincel. Uns permanecem até hoje no ofício e outros, com os ensinamentos do mestre, galgaram profissões diversas ao longo da vida.

Além do incontestável desempenho artístico, o pintor Delfonso também marca pela original forma de contar histórias. De um jeito singelo, simples e ingênuo, narra situações do cotidiano sertanejo.

Outro dia, Delfonso contou que um morador do sítio Panelas, em Várzea Alegre, descia uma íngreme ladeira de bicicleta quando avistou uma pessoa com as calças arriadas e acocorado no meio de uma roça de milho. Ao ver a cena, o indiscreto ciclista gritou:

- Eeeei cagão!

O homem, flagrado na desconfortável situação, levantou as calças rapidamente e buscou localizar o impertinente no leito da estrada vicinal. Ao ver o rapaz que seguia distante, sem saber o que falar, improvisou:

- E tu andadô de bicicleta...

Colaboração: Ropson Frutuoso
(imagem Google)

sexta-feira, 16 de março de 2012

571 - O EPITÁFIO DO BOÊMIO




Após uma semana de intensos estudos no Rio de Janeiro, recebi o convite de um simpático vizinho, Carlão Medeiros, para conhecer alguns bares dos movimentados, bonitos e agradáveis bairros da zona sul.

Mesmo sem consumir bebida alcoólica há mais de dez anos, aceitei prontamente o convite. Afinal, para sentir a cidade, conhecer as pessoas e entender o verdadeiro espírito carioca, torna-se imprescindível passar por esses reveladores e bem frequentados ambientes.   

No périplo por Ipanema, caminhando por elegantes ruas, paramos inicialmente ao lado do balcão do lotado Popeye, na Visconde de Pirajá. Em seguida, sentamos no tradicional e histórico Garota de Ipanema, onde Tom Jobim e Vinicius de Moraes se inspiraram para compor umas das mais belas e conhecidas canções brasileiras.

No vizinho Leblon, conheci o Bracarense, Azeitona e Cia e o Belmonte. Por fim, estivemos no Chico e Alaíde, chamado de dissidência, pois montado por antigo garçom e cozinheira do Bracarense. Ali, fomos recebidos pelo simpático sócio Chico, cearense de Crateús, que, por sua paixão por corridas de cavalo, recentemente foi objeto de reportagem no Jornal O Globo sob o título “do Jegue ao Jóquei”.  

Em todos esses bares, enquanto provava deliciosos  petiscos e bebia água, sucos e refrigerantes, o meu hospitaleiro cicerone tomava gelados chopps e contava boas e divertidas histórias da boemia carioca. Em certo momento da conversa, Carlão, com seus mais de dois metros de altura, com o copo erguido após um grande gole, disse:   

- Eu já escolhi a frase pra ser escrita em minha lápide quando eu morrer: Aqui jaz Carlão Medeiros. Enfim parou de beber.


(imagem do sitio eletrônico do Bar Chico e Alaíde)

quarta-feira, 14 de março de 2012

570 - O MALABARISTA




No final da década de oitenta, os jovens varzealegrenses Alexandre Guedes, Ropson Frutuoso e os irmãos Samoel, Antônio Carlos e Gean Claude dividiram um pequeno apartamento no bairro Rodolfo Teófilo, em Fortaleza.

Os esforçados pais dos estudantes, desejando ampliar os horizontes e conhecimentos dos filhos, superaram dificuldades para manter a residência na capital alencarina. Mas  as limitações materiais não impediram que os rapazes tornassem o ambiente leve e descontraído, numa divertida  época que marcou fortemente suas vidas.

Certa noite, após um dia de intensa atividade escolar, Gean chegou ao apartamento e abriu a velha geladeira em busca de tempero para sua refeição noturna. Como de costume, encontrou na bandeja apenas um solitário ovo.

Enquanto o óleo fervia na frigideira, Gean, com habilidade, em frente ao fogão, fazia malabarismo com o ovo, jogando-o para cima com uma mão e aparando com  a outra. Sob o olhar dos demais moradores do apartamento, o  espirituoso estudante, narrando sua apresentação circense,  falava:

- E ele arrisca a própria janta....


(imagem Google)
Colaboração: Ropson Frutuoso

segunda-feira, 12 de março de 2012

569 - CEARENSE POLITICAMENTE CORRETO




Os tempos modernos exigem a busca do equilíbrio entre o politicamente correto e a liberdade de expressão. Assim, somos livres para pensar e dizer o que quisermos mas sem atingir, diminuir ou discriminar qualquer outra pessoa.

Na aplicação dessas novas regras exige-se a troca de algumas palavras. Negro mudou para afro-descendente e, deficiente, para portador de necessidades especiais.

Recentemente, meu querido tio Paulo Danúbio, em uma das suas constantes viagens à Várzea Alegre, conversou com minha mãe sobre essas polêmicas normas de comportamento. Se referindo à minha estatura, que não superou a média do cearense, o extrovertido professor disse:

- Terezinha, baixin agora é politicamente incorreto. Só posso chamar Flavin de deficiente vertical.

(imagem Google)

sexta-feira, 9 de março de 2012

568 - DIETA SEXUAL (Pedra de Clarianã há dois anos)





         O agricultor cearense Zuza Lemos sempre gozou de uma saúde de ferro. Mas certo dia, depois de um mal estar súbito, por insistência de sua esposa Zefinha, decidiu procurar o médico da cidade de Lavras da Mangabeira. O doutor, analisando os sintomas descritos, desconfiou que o paciente sofresse de algum problema cardíaco. No fim da consulta, o clínico geral recomendou:



        - Seu Zuza, enquanto eu não receber o resultado dos exames e fechar o diagnóstico o senhor não deve fazer extravagância. O caso merece cuidado. Durante esse período de trinta dias é bom que o senhor pare seu trabalho da roça e também não namore dona Zefinha.



        - Dotô, trinta dias eu não agüento não. – ponderou o agricultor.



        - Se o senhor desobedecer quem não agüenta é o seu coração. E o senhor morre. – finalizou o médico.



       Zefinha, que acompanhou toda consulta, deixou o hospital preocupada com a saúde do marido. Para garantir o resguardo, a esposa decidiu dormir em quarto separado e de porta trancada.



        Passados alguns dias, Zefinha acordou tarde da noite com o barulho de fortes pancadas da porta. Era seu marido Zuza que batia e gritava desesperado:



       - Zefinha, abra a porta. Eu quero morerrrrrrr.



Colaboração: Eliomar Gonçalves de Lemos Gomes
(imagem Google)

terça-feira, 6 de março de 2012

567 - DE CALÇAS NA MÃO





Toda manhã, em uma pacata cidade do nordeste brasileiro, uma senhora saía cedo para trabalhar, voltando somente no horário do almoço, horas depois. Porém, naquela segunda-feira, minutos após se despedir do marido e sair, o tempo mudou e começou repentinamente a neblinar. Para se proteger,  precisou retornar à sua casa para apanhar um guarda-chuva.

Ao abrir a porta da residência, a pobre senhora se deparou com uma surpreendente cena na sala. Seu aposentado esposo, de calças arriadas, agarrado com a jovem e faceira empregada.

Assustada, com as mãos na cabeça, a esposa gritou:

- Seu cachorro, que é que você me diz duma coisa dessa? O que é isso que tou veno?

O assustado marido, buscando vestir as calças rapidamente, respondeu:

- Muié, isso só pode ser um azar grande.


Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

segunda-feira, 5 de março de 2012

566 - DÍVIDA DE JOGO




Na década de oitenta, no sertão cearense, um modesto e bem intencionado lavrador mandou o filho estudar na cidade. No entanto, em vez de se dedicar aos livros e buscar novos horizontes profissionais, o jovem se viciou no baralho. Em pouco tempo acumulou várias dívidas nas casas de jogos.

Ao saber do inesperado desvio de rumo, o velho agricultor foi à cidade e trouxe o filho de volta para o sítio. Para quitar as várias contas trazidas das mesas de jogo, o jovem passou a trabalhar intensamente na preparação das terras secas para o plantio da próxima estação chuvosa.

Passados alguns dias do retorno, certa tarde, o rapaz arrancava tocos em uma roça com o pai e outros trabalhadores rurais. Em determinado instante, sofrendo com o ardente sol de setembro, o jovem interrompeu a árdua tarefa, descansou os braços sobre o cabo da chibanca*, olhou para o céu azul e disse:

- Oh meu Deus, quem terá sido o infeliz que inventou a roça?

O velho agricultor  parou os golpes de enxada, tomou um gole de água da cabaça, enxugou o suor do rosto com a manga da camisa e respondeu:

- Meu fii, quem inventou a roça foi um bicho chamado barai...


Antiga ferramenta para cavar buracos, parecida com a pá de corte, porém mais curta e mais estreita, também parecendo-se com a lâmina de uma picareta com um cabo reto na vertical com a pá.

Colaboração:  Antônio Alves da Costa Neto

(imagem Google)

domingo, 4 de março de 2012

565 - MULHER MELANCIA (Pedra de Clarianã há dois anos)





        Recentemente os canais de TV apresentaram para o público brasileiro várias beldades com apelidos de fruta, como a Mulher Melancia, Mulher Melão e Mulher Jaca. Cada uma dessas jovens traz nas belas formas do seu corpo uma qualidade que lembra o formato das frutas tropicais.

        Mas a comparação das mulheres com frutas sempre aconteceu, inclusive no criativo e irreverente sertão cearense.

        Anos atrás, em um sábado pela manhã, o agricultor mangabeirense José Tomaz Lemos, conhecido como Zuza Lemos, adquiriu na feira uma grande melancia. Ao chegar em casa, pôs a fruta sobre a mesa da cozinha e falou para a jovem e faceira empregada:

       - Bota essa melancia na geladeira.

       Quando a formosa mulher apanhou a melancia e saiu requebrando as belas ancas, o agricultou veio por trás e a agarrou. No mesmo momento, surgiu repentinamente Dona Zefinha e falou:

       - Zuza, que é isso?

       Imediatamente, o esperto agricultou, reconhecendo a voz de sua esposa Zefinha, apertou ainda mais a mulher e comentou:

       - Eu num disse que tu pesava mais que essa melancia? Ou muié teimosa!



Colaboração: Luís Onofre Gomes Cruz

sábado, 3 de março de 2012

564 - DESPEDIDA DO INATIVO




No início da década de noventa, eu trabalhava em uma pequena cidade quando um colega completou a idade para a merecida aposentadoria. Eu e outro amigo decidimos realizar uma festa de despedida para o honrado homem que passaria à inatividade. Sua face enrugada, seus poucos cabelos, todo seu corpo sofrido trazia a marca de décadas de intenso trabalho.

A reunião festiva transcorreu em um restaurante local com muita alegria e com a participação de seletos convidados. Algumas moças compareceram ao evento, e, uma delas, de apelido Babalu, chamou a nossa atenção pela graça e beleza. Desde o começo da noite eu e o colega mais jovem passamos a cortejar e disputar a bela garota. Uma hora ela dançava comigo, outra hora com o outro organizador da festa.

O velho homenageado não se interessou por nenhuma das mulheres presentes, cuidando apenas em receber os cumprimentos e distribuir simpatia a todos.  

Já na madrugada, a maioria dos convidados bateu em retirada. Restamos, apenas, eu, o outro colega patrocinador do encontro festivo, o homenageado e a dengosa Babalu. Como estávamos apenas em um carro, eu combinei com o amigo mais jovem:

- Vamo levar  primeiro o véi em casa. Depois a gente disputa quem fica com Babalu.

Ao chegar em frente à sua residência, o experiente colega, depois de cochilar bastante no trajeto, emocionado, agradeceu pela homenagem e se despediu. Contudo, antes de deixar o veículo, segurou o braço da faceira moça e disse:

- A jovem fica comigo.

A garota não hesitou, desceu de mãos dadas com o homenageado da noite e nem olhou para trás. Ela nem viu a cara de desapontamento dos dois bobos que desmereceram o velho concorrente.


(imagem Google)

sexta-feira, 2 de março de 2012

563 - SEGUNDA-FEIRA





Funcionando desde 1996, o Bar Pirata, na Praia de Iracema, em Fortaleza, mantem até hoje a fama de proporcionar a segunda-feira mais animada do mundo.  Os inúmeros frequentadores do famoso bar contrariam o costume geral de guardar o primeiro dia útil da semana para curar a ressaca e retomar as atividades laborais.

Em uma segunda-feira da década de oitenta, no começo da noite, em Várzea Alegre, pacata cidade do sertão cearense, João Geraldo Souza, após um agitado fim de semana, caminhava tranquilamente pela Praça do Abrigo quando decidiu cruzar o portão do Mercado Velho e ver o movimento no Bar Fina Flor. Ao chegar, observou o estabelecimento praticamente vazio. Encostados ao balcão, bebiam apenas alguns  amigos, entre os quais  Vanderley de Zé de Zuza, Fernando de Luiz Silvino e o proprietário do bar, de apelido Pingo.

Ao ver a turma na farra naquele dia, João Geraldo, com ar sério, censurou:

-  Mas, rapaz, vocês em plena segunda-feira bebendo...

Vanderley, com o copo de cerveja na mão, estranhando o comportamento do colega, convidou:

- O que é isso, John Gerald? Bora tomar uma com a gente?

Mesmo com o simpático convite, o recém chegado, ainda em pé, continuou a criticar:

- Beber no sábado, domingo, feriado, é bom. Mas todo dia...

João Geraldo fez uma ligeira pausa e, sob o olhar  perplexo de todos, completou:

- Beber todo dia é bom demaisssssssssssssss.


(imagem Google)
Colaboração: Varderley de Souza Freire

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

562 - O SPC DE SÉRGIO PINTO DE CARVALHO




Recentemente, meu querido tio Sérgio Pinto de Carvalho, após décadas de incansável trabalho, decidiu encerrar suas atividades comerciais. Desde 1959 manteve em Várzea Alegre um sortido e movimentado armazém, com atuação na venda de vários gêneros, entre os quais zinco, cimento e arame farpado.

Semanas atrás, em uma descontraída conversa na aprazível cidade do centro-sul cearense, o comerciante, com oitenta e quatro anos de idade, nos revelou alguns cuidados que sempre tomou na sua exitosa atividade comercial.

Antes de vender fiado, buscava informações com os vizinhos e parentes do novo freguês. Para nossa surpresa, Tio Sérgio disse que a informação era muito boa e proveitosa mesmo quando nada colhia sobre o cliente.

Quando o novo freguês propunha uma compra à crédito, antes de liberar a venda, o experiente comerciante entrava em contato com alguém próximo e perguntava:

- O que você me diz de fulano, seu vizin, é bom pagador?

Buscando não se comprometer, o vizinho apresentava uma resposta vazia, mas com indicação suficiente para que o perspicaz comerciante não vendesse ao velhaco:

- Num seeeeeiiiiiiii...


(imagem Google)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

561 - OVO COZIDO (Pedra de Clarianã há dois anos)





           Após permanecer várias décadas na árdua atividade agropecuária, José Tomaz Lemos, de apelido Zuza, resolveu estabelecer uma pequena bodega em sua casa, na sede da sossegada vila de Mangabeira.

          Na trabalhosa atividade comercial, Zuza Lemos manteve a mesma desenvoltura, bom humor e espontaneidade que marcaram sua vida.

         Certa manhã, uma mulher chegou ao seu estabelecimento e pediu um quilo de “feijão de corda*”. Quando o comerciante terminava de embrulhar o pedido, a desconfiada cliente perguntou:

           - Seu Zuza, esse feijão é bom mesmo?

           - Bom demais! Cozinha que só ovo. – Respondeu o velho bodegueiro.

           No dia seguinte, logo cedo, a cliente, “soltando fogo pelas ventas”, voltou ao estabelecimento:

           - Seu Zuza, o senhor me engabelou. Disse que o feijão era bom, que cozinhava igual ovo. Esse feijão num presta não. Passou duas horas no fogo e continuou duro que nem pedra.

           O comerciante, pendurando uma corda de cebolas, de imediato replicou:

            - Oxe, e ovo não é assim não? Quanto mais cozinha mais fica duro.




* nome popular do Vigna unguiculata, feijão predominante no interior nordestino

Colaboradora: Eliomar Gonçalves de Lemos Gomes.

(imagem Google)

domingo, 26 de fevereiro de 2012

560 - TERCEIRO ANIVERSÁRIO





Na última semana, dia 21 de fevereiro, o blog Pedra de Clarianã completou três anos.  O aniversário foi ofuscado pela invencível folia momina. Em meio a confetes e serpentinas, não deu para cortar o bolo e apagar as velinhas.

Mas há muitos motivos para festejar. Ao longo de mais de mil dias, o blog já trouxe quinhentas e cinquenta e nove postagens. Sempre com a imprescindível colaboração dos seus leitores, que acessaram o endereço eletrônico por mais de cem mil vezes.

Tudo começou com o sonho de “seu Abel” e sua gigante pedra de ouro e continua com o nosso desejo de reviver  preciosas e alegres histórias do povo simples e inteligente do interior brasileiro.

Obrigado a todos e continuem nos presenteando com as colaborações, visitas e comentários.
  

559 - A PROFECIA DE INACIN




Desde que surgiu, há algumas décadas, até os dias atuais, a telefonia celular passou por várias transformações. Apareceram novas tecnologias, inúmeros e sofisticados modelos de aparelhos e, principalmente, milhões de usuários em todo o mundo.

Certa manhã, no final do século passado, em Várzea Alegre, pequena cidade do interior cearense, o jovem Marcio Diniz, deslumbrado com a novidade, desfilava pelas calçadas da antiga rua Major Joaquim Alves. O simpático e extrovertido rapaz falava alto em um aparelho de telefonia celular, chamando a atenção dos traseuntes. Aquele grande telefone móvel custava caro e era acessível a poucas pessoas.

Ao observar o rapaz esnobando o uso do raro aparelho,  o experiente comerciante Inácio Gonçalves da Costa, conhecido como Inacin, profetizou:

- Marcin, deixe de eguagem. Isso aí é igual a isqueiro, daqui uns dia todo mundo tem um...


(imagem Google)
Colaboração: Pedro Jorge Clementino

sábado, 25 de fevereiro de 2012

558 - PERDENDO O AMIGO (Pedra de Clarianã há dois anos)





          A sabedoria popular ensina que ao emprestar dinheiro a um amigo o prejuízo torna-se praticamente inevitável. Como na maioria das vezes não há como negar, perde-se em dobro: o dinheiro e o amigo.

          Em Várzea alegre, interior cearense, o saudoso Francisco das Chagas Bezerra, com seu bom senso e bom humor, sempre contornava com esperteza esses delicados momentos. Certo dia, Chico Piau, como popularmente conhecido, estava em sua casa quando foi procurado por um velho amigo com uma solicitação de empréstimo:

          - Me arrume cinqüenta reais, Chico. É só por um dia, amanhã eu pago a você.

          Chico Piau, com sua invejável capacidade de reação, respondeu de imediato:

          - Hômi, seno assim passe por aqui amanhã.



Colaboração: Jonas Moraes

(imagem) Google)

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

557 - PEDRA DA GALINHA CHOCA




Sempre que volto à minha cidade natal, Várzea Alegre, faço uma longa e interessante viagem pelo sertão cearense.  Por mais que o percurso se repita há décadas, a bucólica paisagem do sertão sempre me encanta e fascina.

Na maioria das vezes costumo parar em Quixadá, município, conhecido internacionalmente por suas diferentes formações rochosas. A também chamada Terra dos Monólitos  impressiona por suas gigantes rochas em vários formatos, entre as quais a famosa Pedra da Galinha Choca, cenário de vários filmes brasileiros.

A recente passagem pelo próspero município do sertão central me trouxe à memória  um triste episódio que aconteceu com um querido conterrâneo. Apaixonado por uma bela e faceira moça de Quixadá, o jovem não teve o seu amor correspondido. Após várias desilusões perdeu a esperança de conquistar em definitivo a jovem quixadaense.

Até hoje, quando alguém pergunta sobre o rápido namoro com a moça, o  desapontando e revoltado varzealegrense responde:

- Hômi, eu lá quero sabê. Aquela muié é do Quixadá, terra onde até as peda são galinha.


(imagem Google)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

556 - O TEIMOSO AGRICULTOR




No começo da  década de sessenta, no tradicional sítio Atoleiro, zona rural de Várzea Alegre, nas frequentes conversas sobre doenças, um agricultor, arrotando vitalidade, com voz arrastada, costumava dizer:

- Eu tenho quarenta ano e nunca abri nem vou abri a boca pra tomar uma piula*.

Passados alguns meses, o lavrador contraiu paratife** e caiu enfermo. Mesmo em estado grave, o opinioso doente não quis tomar os comprimidos para se curar da doença. A família, preocupada, chamou várias pessoas para buscar convencer o enfermo a tomar os remédios. Parentes, amigos e  padrinhos, vieram ao pé da cama, mas ninguém conseguiu fazer o teimoso agricultor desistir da birra.

 Por fim, já sem esperanças, os familiares chamaram padre Otávio para aplicar a extrema-unção ao moribundo. Antes de iniciar o último sacramento, o sacerdote tentou mais uma vez desfazer a opinião do doente:

- Pelas graças do nosso Senhor Jesus Cristo, pelas bençãos do padroeiro São Raimundo Nonato, abra a boca pra tomar o comprimido. Num é sua hora ainda não, meu filho.

Depois da insistência do padre da paróquia, o teimoso doente, já agonizando, com a vela na mão, abriu o canto da boca e disse:

- Padre Otávio, em respeito ao sinhô eu abro. Mas tem uma coisa, eu num fecho mais a boca não.

O agricultor se curou da grave doença e viveu por mais trinta anos. Mas, cumprindo a nova opinão, passou o resto da vida e foi enterrado de boca aberta.


* “piula”, no sertão cearense, também significa comprimido.
** A febre paratifoide ou paratifo é uma doença semelhante e relacionada a febre tifóide, causada pela Salmonella paratyphi (fonte Wikipédia)
Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

555 - RETIRO MOMINO (Pedra de Clarianã há dois anos)





          Na década de oitenta, o Clube Recreativo de Várzea Alegre – CREVA – promovia quatro bailes de carnaval. A folia, iniciada nos desfiles matutinos de irreverentes blocos e organizadas escolas de samba, culminava com os concorridos eventos noturnos do tradicional clube da cidade cearense.

         Contudo, no ano de 1987, o jovem bancário Júlio Bastos, após certa resistência, aceitou o convite de Dalva e foi passar os feriados mominos em Fortaleza. Na verdade, Dalva pretendia afastar seu querido irmão dos ambientes festivos. Júlio andava exagerando no consumo de bebida alcoólica, preocupando bastante sua família.

          Desse modo, para tranqüilidade dos seus pais, naquele ano, o bancário fugiu da agitação, curtindo programas alternativos e saudáveis na capital alencarina. Porém, como trabalharia a partir do meio-dia da quarta-feira de cinzas, na noite de terça viajou de volta.

          Às quatro horas da madrugada chegou a Várzea Alegre. Já em casa, se preparando para dormir, Júlio escutou os acordes dos Originais do Frevo, vindos do CREVA: taran, taran, taran, taranranranran. Foi o suficiente para despertar a vontade de ver os últimos momentos do baile final daquele ano. Contra a vontade da cuidadosa Delmir, Júlio falou:

         - Mãe, se preocupe não, tá no finzin. Vou só dar uma espiadinha.

         Na entrada do clube se deparou com sua namorada agarrada a outro rapaz. A cena aguçou ainda mais a vontade de tomar um gole. Não bastasse, a orquestra tocava “oh, quarta-feira ingrata, chegou tão depressa...” O folião retardatário rumou direto para o bar e pediu:

        - Zé de Zuza, uma dose dupla pra mim.

        Após o primeiro gole seguiram muitos outros. Acabou o baile, findou o carnaval, e Júlio não retornou para casa. Raiou o dia pelos bares da cidade. Às onze da manhã, foi visto descalço e sem camisa pulando em cima do caput de uma velha rural. Naquela quarta-feira de cinzas não foi trabalhar.

        Depois de alguns anos Júlio felizmente conseguiu vencer as armadilhas do álcool. Neste Carnaval, em uma mesa de animado botequim, o bancário, com brilho nos olhos, falou para os amigos:

          - Faz dezoito festas de agosto* que eu não bebo.


* período festivo do mês de agosto em homenagem ao padroeiro de Várzea Alegre, São Raimundo Nonato.

Colaboração: Júlio Bastos