sexta-feira, 21 de julho de 2017

968 - NÓ INFIEL



O nó segue a humanidade em sua história, facilitando a vida e provocando mudanças de comportamento. Há nó adequado para cada situação, desde os mais simples, de fácil execução, aos mais elaborados. 

Usados no alpinismo, escoteirismo, salvamento, navegação, no trato com os animais e em muitos outros momentos do nosso cotidiano, são diversos os tipos de nó: de pescador, lais de guia, em oito, de gancho, corrediço, fiel e etc.

Em Várzea Alegre, sertão cearense, em meados do século passado, no fim da tarde, uma agricultora voltou da mata e chegou em casa com um feixe de lenha amarrado por uma corda.

O desconfiado marido, apontando para o feixe jogado ao chão, perguntou:

- Muié, cum quem você tava na roça ? Quem fez esse nó de poico? Isso é nó de homi...

A jovem mulher, agoniada, respondeu:

- foi eu, foi eu...

Intrigado com a resposta, o inseguro marido desatou o difícil nó de porco, também conhecido como nó de barqueiro, e desafiou:

- Apois faça o nó de novo que eu quero ...

Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

967 - A ANTIGA SUBIDA DA SERRA



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Por muito tempo a simpática comunidade da Serra dos Cavalos, também conhecida como Serra das Flores, permaneceu isolada da sede do município de Várzea Alegre. O acesso com automóveis, por uma tortuosa estrada, era muito distante, razão pela qual os moradores desciam e subiam a serra por um estreito e sinuoso caminho,  à pé ou em lombo de animais. Os agricultores traziam para negociar na feira da cidade rosário de coco catolé, coco babão, pitomba, araçá, gaiola de palito de carnaúba e puçá, fruta nativa do lugar.

Dias atrás, acompanhei um grupo de queridos caminhantes de Várzea Alegre, sertão cearense, refazendo o íngreme percurso. Do Sítio Coité, em um penoso caminho, subimos por cerca de três quilômetros em direção ao alto da chapada.

Entre uma parada e outra, guiados pelo agricultor Pedro de Nascimento, conhecemos a falada casa do meio, tradicional construção em taipa, na metade do caminho, onde os antigos moradores descansavam na difícil jornada de descer e subir a serra.

No trajeto, na busca do lendário rastro de mãe velha, pegada gravada em pedra, encontramos a áspera folha da caroba, usada antigamente pelas mulheres da região para lixar a unha.

No alto da serra, após pouco mais de uma hora e meia de caminhada, o grupo se deparou com um velho forno usado pelas louceiras para queimar a artesanal panela de barro, dando-lhe a consistência final.

Não bastassem as lindas paisagens do percurso, logo ao chegar à comunidade, como recompensa, fomos gentilmente recebidos pela família de Zé de Ademir Mulato, morador nativo da região, que nos brindou com um delicioso café e saborosas capas(favos) de mel de abelha italiana retiradas há poucas horas da mata.

O pouco fastiento grupo de caminhantes, como de hábito, finalizou o passeio em um jantar, dessa vez na casa de Josa de Jaime Quelé. No farto cardápio, um apetitoso baião de dois com fava, galinha caipira e pão de milho. 

(imagem Google)

sábado, 15 de julho de 2017

966 - TORNOZELEIRA DE COURO

Em tempos de operações policiais, prisões e liberdades provisórias, um instrumento chegou ao conhecimento popular: a tornozeleira eletrônica. O moderno equipamento, empregado para monitorar a prisão domiciliar, usa sinal de gps para localizar o usuário via satélite.

Mas no sertão brasileiro há muito tempo se usa um apetrecho para limitar a capacidade de locomoção dos animais.  A peia, laço em couro que liga dois pés de jumentos, burros e outros animais ariscos, amansam, reduzem seus movimentos e impedem que transponham cercas e outros obstáculos.

Na segunda metade do século passado, o agricultor Zé Severino comprou uma peia para uso em seus animais do sítio São Cosme. Porém, logo no dia seguinte à aquisição, a peça nova desapareceu.

Bastou um rápido levantamento, e Zé Severino descobriu o contumaz autor da subtração. Ao encontrá-lo, o experiente agricultor, trazendo uma antiga e surrada peça em couro, propôs:

- Hômi, fique pelo meno com a véa, que essa pêa aí que você levou eu comprei onte...

Colaboração: Antônio Alves da Costa Neto
(imagem Google)

sexta-feira, 30 de junho de 2017

965 - PEDAL DOS 50


A bicicleta é capaz de nos levar a lugares inimagináveis e de nos proporcionar fortes emoções. De 23 a 26 de junho de 2017, esses veículos de duas rodas nos transportaram  por grande parte do território amapaense. Eu e um grupo de amigos enfrentamos o desafio de percorrer cerca de seiscentos quilômetros pedalando de Macapá ao Oiapoque. 
Desde criança curti andar de bicicleta. Assim, prestes a completar cinquenta anos de idade, decidi comemorar  meio século de vida de maneira lúdica: pedalando com amigos. 
Sobre duas rodas cruzamos imensas áreas de campos, florestas e cerrados do Amapá. Subimos e descemos íngremes ladeiras. Não bastasse, também enfrentamos extensos e quase intransponíveis atoleiros, formados no trecho não pavimentado da Br 156. Na parte final, percorremos áreas indígenas do Uaça, circundando as aldeias Piquiá, Curipi e Estrela. 
Como trabalhei em todos os municípios do Amapá, por inúmeras vezes, de carro, trilhei esses caminhos. Dessa última vez, de bicicleta, tornou-se mais fácil observar os lugares e manter contatos com as pessoas. Na comunidade do Carnot, município de Calçoene, conhecemos o senhor Manoel Souza, experiente carpinteiro, nascido na localidade de Cunani, que, enquanto concluía a construção de uma canoa em madeira,  nos contou, com orgulho, histórias dos habitantes da região.
No início da noite do dia 26, esquecemos as dificuldades do percurso ao alcançar o famoso marco ficado às margens do Rio Oiapoque, na cidade do mesmo nome. No ponto onde se cunhou a frase "aqui começa o Brasil" terminou o pedal para o nosso grupo. Findou para a maioria, pois os incansáveis Coutinho e Washington, cedo do dia seguinte, voltaram de bicicleta para Macapá, realizando,  em sete dias, uma pedalada de mil e duzentos quilômetros. 
Esses momentos marcarão para sempre as nossas vidas. Não esqueceremos jamais os sons vindos das matas, os refrescantes banhos nos igarapés e cachoeiras, as expressões de espanto dos  poucos moradores ao longo da rodovia ao saber que rumávamos de bicicleta ao extremo norte do Brasil.
A cada dia creio mais intensamente que todo ciclista possui um parafuso solto, cultiva um pouco de loucura. E isso é bom.  Pois a ditadura da sanidade nos impediria de enfrentar  desafios, de provocar emoções e de viver dias inesquecíveis como os saboreados no maravilhoso “Pedal dos 50”.

(imagem Google)


quarta-feira, 1 de março de 2017

964 - O LADRÃO ESFAQUEADO *


Logo após o seu casamento com Maria Aparecida Feitosa Costa, ocorrido em 1976, Antônio Ulisses foi residir na rua Coronel Pimpim, em Várzea Alegre, no imóvel onde funcionou a Sorveteria Ki-Delícia. Certa madrugada, foi acordado por sua esposa, que, assustada com um estranho barulho, desconfiava que havia um ladrão dentro de casa. 

Assim, Antônio Ulisses tomou coragem e foi ver o que acontecia. Na cozinha, percebeu que o larápio havia desarrumado algumas coisas e preparado outras para levar. Como a porta do banheiro estava entreaberta, desconfiou que o ladrão se escondera naquele cômodo.

Empunhando uma faca tipo peixeira, decidiu enfrentar o meliante. Tentou entrar no banheiro, mas o ladrão segurava a porta, impedindo sua passagem. Disposto a encará-lo, Antônio Ulisses planejou empurrar a porta com força e desferir uma única facada no perigoso bandido.

Não deu outra. Em uma ação rápida e eficiente, com extrema força, empurrou com o ombro a porta do banheiro e desferiu um golpe transfixante na barriga do elemento.

Felizmente não se tratava do larápio, a facada atravessou um saco com roupa suja que sua esposa guardava pendurada dentro daquele cubículo. Era o saco que impedia a total abertura da porta. Em vez de atingir o abdômen do ladrão, furou várias peças de roupa, inclusive algumas das que mais gostava, como a calça do conjunto de mescla azul que usara em seu casamento.


 extraído do livro "Conte Essa, Conte Aquela - Histórias de Antônio Ulisses"


*Publicada originalmente no blog em 27 de fevereiro de 2009

(imagem google)

domingo, 26 de fevereiro de 2017

963 - FUTEBOL NO CEDRO*


Na segunda metade do século passado o time de futebol de Várzea Alegre se preparava para viajar até o vizinho município do Cedro, onde, ainda no final da tarde daquele dia, as duas seleções protagonizariam um esperado embate. A rivalidade entre os dois pequenos municípios cearenses não se limitava ao esporte, tudo motivava discussão entre os moradores das duas cidades. Os cedrenses se gabavam por ter suas terras cortadas pela estrada de ferro, responsável por impulsionar seu desenvolvimento. Do outro lado, os varzealegrenses respondiam dizendo que pouco adiantava a linha do trem se no Cedro não havia água suficiente distribuída nas torneiras.


            Na proximidade de mais uma disputa, os atletas da Terra do Arroz subiam no velho caminhão que os transportaria ao campo de chão batido da vizinha cidade. Muitos assistiam à saída da equipe, outros buscavam subir no caminhão para acompanhar o jogo. Não havia espaço suficiente na carroceria para acomodar a equipe de futebol, a comissão técnica, os dirigentes e os inúmeros torcedores que desejavam ver o clássico regional.


            No meio daquela confusão, um conhecido e assumido homossexual de Várzea Alegre, com seus trejeitos afeminados, tentou subir no caminhão. A reação foi imediata. Vários jogadores e torcedores recusaram a presença do diferenciado torcedor. Um mais afoito empurrou o pobre rapaz e gritou:


            - Baitola não sobe nesse caminhão.


            O torcedor pederasta, aborrecido com a cruel recusa, humilhado com a ação preconceituosa ainda mais comum naquela época, olhou seriamente para os jogadores, comissão técnica e torcedores, e gritou:


            - Eu não vou nesse caminhão, mas aí em riba tem mais dois com o mesmo gosto que eu.


            Fez-se silêncio tumular entre os presentes. Ninguém, nem mesmo os mais esquentados jogadores esboçou qualquer reação. Nenhum outro torcedor quis acompanhar o grupo. Outros não desceram do caminhão temendo que a atitude levantasse suspeita sobre a sua orientação sexual.



Mesmo assim, o veículo deu partida e seguiu na antiga estrada em direção ao município do Cedro. No percurso de várias léguas não houve as conversas de costume, como os importantes debates sobre as estratégias para o confronto. Os passageiros se olhavam discretamente procurando pistas de quem seriam os dois outros com o mesmo gosto do torcedor excluído.


            No fim da tarde a equipe de futebol varzealegrense não repetiu os bons desempenhos dos enfretamentos anteriores. Os torcedores e os dirigentes que acompanharam o time não conseguiram elevar o ânimo dos atletas. Desde o primeiro minuto o escrete vizinho tomou conta da partida e venceu facilmente o clássico. 

  No término do jogo ninguém falou sobre a vexatória derrota, não houve qualquer menção aos motivos do fracasso daquela tarde. Afinal, cada um admitia a impossibilidade de se concentrar na partida.

       No caminho de volta, os pensamentos dos passageiros do velho caminhão continuaram empenhados em descobrir quem seriam os dois outros homossexuais que foram disputar ou assistir ao jogo de futebol no Cedro.

(imagem Google)
*postagem publicada originalmente em 23 de fevereiro de 2009

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

962 - PEDRA DE CLARIANÃ, A ORIGEM


Desde criança, lá pelas bandas do sertão cearense, escutei uma interessante história, narrada inicialmente por seu Alberto, empregado do meu avô materno.
Aquele humilde homem, de mãos calejadas pela dura vida de lavrador, nos intervalos de sua faina diária, falava sobre a existência de um reino distante, onde habitava uma linda princesa. Uma donzela, plena de virtudes e beleza, que ansiosa, de braços abertos, aguardava a chegada do seu príncipe, o próprio Alberto.
Além de possuir o coração da linda herdeira, seu Alberto também era proprietário de uma pedra de ouro. Não se tratava de uma pedrinha ou de uma pepita qualquer, era uma pedra imensa, gigantesca, a Pedra de Clarianã. Toneladas e toneladas de ouro maciço, pertencente a seu Alberto.
A fortuna em metal precioso transformava aquele pobre  agricultor no homem mais rico da terra. Tamanha propriedade também espantava qualquer dúvida sobre a existência do amor distante. Claro que havia uma linda princesa encastelada, esperando a chegada do príncipe Seu Alberto. 
  A rica imaginação do modesto homem habitou por muito tempo a fantasia de inúmeras crianças. Eu, mesmo não ouvindo a história contada diretamente por seu Alberto, também viajei na lúdica narrativa da enorme pedra de ouro e da bela princesa.


Outro dia, por acaso, descobri que realmente existe uma pedra enorme com nome parecido, cantada por poetas populares: A Pedra do Claranã, localizada no outro lado da chapada do Araripe, no sertão pernambucano, no município de Bodocó.
Não sei se a pedra de Bodocó tem toneladas de ouro ou se naquele sertão existe um reino com bela princesa. Porém, ninguém duvida que seu Alberto e as crianças que ouviram aquela história jamais perderam a esperança de encontrar a verdadeira Pedra de Clarianã.
Lúdicas histórias, com reinos, castelos, princesas e fortunas sugerem um final feliz. Nós todos ainda encontraremos a verdadeira pedra de Seu Alberto.

*Postagem número 1, publicada originalmente em 21 de fevereiro de 2009
(imagem Google)


961 - 8 ANOS D0 PEDRA DE CLARIANÃ


      

      Nesta semana, o Pedra de Clarianã completou 8 anos. Nos próximos dias comemoraremos o aniversário do blog renovando postagens de fevereiro e março de 2009, quando a brincadeira começou.

(imagem Google)