sexta-feira, 17 de maio de 2013

756 - RIQUEZA ACUMULADA (Pedra de Clarianã há dois anos)



         Todo ano, a revista americana Forbes divulga a lista dos homens mais ricos do mundo. Na relação sempre aparecem os nomes do mexicano Carlos Slim e dos Americanos Bill Gates e Warren Buffett. Neste ano, o brasileiro Eike Batista figura na oitava posição da lista entre os maiores afortunados do planeta.

        Certa manhã de sábado, na década de oitenta, em Várzea Alegre, modesto sertão cearense, como de costume, o corretor de algodão Antônio Ulisses, o ferreiro Chico Basil, o agricultor Joaquinzin, o manipulador de fantoches Damião dos Bonecos e outros amigos se reuniram em uma animada conversa no Bar de Jonas. No meio da divertida prosa surgiu o assunto riqueza. Como exemplo de homem próspero e endinheirado o corretor citou o seu patrão, o usineiro Inácio Parente.

       O espirituoso ferreiro, após escutar a opinião do amigo, tomou uma dose de cachaça, mordeu um caroço de cajarana e, se referindo ao destacado patrimônio imobiliário do Coronel Dirceu Carvalho,  disse:

       - Antôi Ulisse, é bem facin o caba ser rico. É só eu butá na cabeça que essas casa de seu Dirceu aí da Rua dos Peru são tudo minha e eu num faço nem questão de vender.

  (imagem Google)

terça-feira, 14 de maio de 2013

755 - A CARNE DO TROPEIRO





Até a década de sessenta do século passado, grande parte das mercadorias era transportadas no lombo de animais, em difíceis e cansativas jornadas pelo interior do Brasil. Francisco Tavares Borges, conhecido popularmente como Bogin, foi um desses tropeiros que percorreram as terras nordestinas, desbravando novas rotas.

Certa vez, no Estado do Maranhão, após várias semanas de difícil viagem, com os mantimentos rareando, Bogin encontrou na beira da estrada uma vaca caída, dando os últimos suspiros. Bogin parou sua tropa, sangrou a vaca e retirou vários pedaços de carne.

Retomada a viagem, o tropeiro seguiu pelo pouco habitado caminho até encontrar uma modesta casa, coberta de palha, com uma mulher à porta. Mesmo com pouca comida, sugeriu:

- Dona Maria, vou deixar esse saco de carne aqui com a sinhora?. Pode ir comeno da carne. Perpare uma paçoca pra nóis comer na volta e saigue o resto pra nóis levar. Nós vorta daqui uns dias…

Cerca de uma semana depois, pela manhã, Bogin voltou pela mesma estrada viscinal e parou na simples casa onde deixara a carne. A pobre senhora preparou um delicioso almoço para Borgin e seus peões. Após a farta refeição, o tropeiro preparava os animais para partir e enchia os embornais de paçoca e carne seca, quando a mulher agradeceu:

- O sinhô é hômi de bom coração. Aqui em casa nós nunca teve tanta fartura de carne…

O experiente tropeiro interrompeu, dizendo:

- Dona Maria, carece agradecê não. A sinhora e sua famia que foi boa cum nós. Provaram que a vaca morreu foi de tingui*, num foi picada de cobra não...


* Arbusto que pode matar o gado que o come sem que a carne do animal se torne tóxica.
Colaboração: Igor Borges
(imagem Google)
 

sábado, 11 de maio de 2013

754 - TROPEIRO





Por várias décadas do século passado, Francisco Tavares Borges, conhecido como Bogin, conduziu animais de carga pelas rudimentares estradas do Ceará, Piauí e Maranhão. 


O tropeiro também negociava burros, jumentos e cavalos. Certo dia, foi procurado em sua casa, no município cearense de Várzea Alegre, pelo exigente agricultor Doca Nunes, que desejava comprar um animal:


- Tem um burro pra mim vender? Pago à vista.


Negociante nato, o experiente Bogin indicou um velho animal que pastava em um quintal próximo. O comprador se interessou e perguntou:


- Esse burro tem defeito?


- Só na sua vista. - Respondeu Borgin.


Doca Nunes pagou o preço pedido e a compra se efetivou. Mas, dias depois, o agricultor voltou à casa do tropeiro e reclamou:


- Bogin, você mim vendeu um burro cego. Vim desmanchar o negócio...


- Eu avisei o defeito na vista dele.- Lembrou Bogin.


Doca Nunes coçou a cabeça e musmurou:


- Vixe, e num era na nossa vista, não? Pensei que era só porque o burro é fêi que dói…


Colaboração: Igor Borges
(Imagem Google)

quarta-feira, 8 de maio de 2013

753 - O TRABALHO DE "PÉ VÉI" (Pedra de Clarianã há dois anos)



        No Brasil e em vários outros países, o 1º de maio, dia do trabalho, é um feriado marcado por festas, manifestações e atos reivindicatórios. Mas, atualmente, com o enorme crescimento das empresas, o contato entre empregados e empregadores tornou-se muito mais raro. Patrão e trabalhador só se comunicam por email, ofício circular e outros frios instrumentos.

         Em Várzea Alegre, no Sítio Bonizário*, na segunda metade do século passado, uma relação de camaradagem entre patrão e empregado marcou época. Por vários anos, a saudável convivência entre José de Souza Lima(Pé Véi) e o produtor rural Francisco Fiúza de Lima (Fatico) deixou muitas e divertidas histórias.

         Na década de setenta, bem cedo da manhã, Fatico pediu que Pé Véi fosse ao mercado público, na sede do município, comprar um quilo de carne de gado. Só por volta do meio-dia, com Risalva, esposa do patrão, reclamando a chegada do tempero para o almoço, o empregado voltou ao sítio trazendo a carne pendurada em um fio de palha. Ao ver a compra, Fatico reclamou:

       - Pé Véi, eu pedi carne de gado e você trouxe de porco. Você num sabe que Risalva num come carne de porco?

        - Sei sim, seu Fatico. Mas eu como... – Respondeu tranquilamente o empregado rural.



* Bonizário – Aprazível sítio de Várzea Alegre que recebeu o nome em homenagem à capital da Argentina, Buenos Aires.

Colaboraçao: Carlos Leandro da Silva (Carlin de Dalva)

sábado, 4 de maio de 2013

752 - "BENÇA"





Certa manhã, na metade do século XX, o comerciante Zé Teixeira, estabelecido em Várzea Alegre, em viagem de negócio ao vizinho e progressista município do Crato, conheceu uma jovem e bela moça e passou a cortejá-la.


Em um banco de praça, a conversa com a bonita mulher fluía normalmente até que surgiu um varzealegrense e resolveu estragar o galanteio. Entregando o comprometimento conjugal de Zé Teixeira, o rapaz estendeu-lhe a mão e tomou-lhe a benção como se filho fosse:     


- Bença, pai...


Surpresa, a moça olhou  para o pretendente, e, com rispidez, cobrou:


- Valha, Zé. Você num me disse agorinha que era desimpidido?


O experiente comerciante, rápido e espirituoso nas respostas, indo à forra com o inconveniente conterrâneo, imediatamente justificou: 


- Sou sim, minha linda. Ele filho meu não. É que eu fui muito tempo amancebado com a mãe dele e ele se acostumou a me chamar de pai...



Colaboração: Oneide Teixeira

(Imagem Google)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

751 - PACIÊNCIA DE SERTANEJO





A seca sempre maltratou o semiárido nordestino, provocando prejuízos na economia e desespero ao povo simples que sofre com a inconstante estação das chuvas.


Na cidade de Várzea Alegre, sertão cearense, certa manhã de sábado, em meados do século passado, o modesto agricultor conhecido como Tibúrcio Preto, encostado ao balcão da bodega de Raimundo Silvino, lamentava a estiagem daquele ano:


- Se num chuvê nesse mês nós num bota nem nos "borrobrós*"...


Naquele momento, um abastado fazendeiro e dono de engenho comprava uns grampos de cerca e ouviu a lamentação do lavrador. Com voz firme, ponderou:


- Tenha paciência, hômi. Uma hora a chuva vem.


O falante agricultor ouviu atentamente as palavras confortadoras do rico dono de terras, mas, em seguida, completou:


- É divera. Só que em 32** eu já tive muita paciença e quase me lasco de fome...


* referência aos últimos meses do ano: setembro, outubro, novembro e dezembro.
** Ano de grande estiagem no sertão nordestino
Colaboração: José Cavalcante Cassundé (Zé do Norte)
(Imagem Google)

sábado, 27 de abril de 2013

750 - CONSULTA MÉDICA







Certo dia, na década de oitenta, a mãe levou a jovem filha para realizar uma consulta médica no Posto de Saúde da cidade de Várzea Alegre, no centro-sul cearense.


Com cerca de dezoito anos de idade, a moça se portou com muita timidez desde a chegada à unidade de saúde. No consultório, sentada ao lado da mãe, a jovem mal abria a boca para responder às perguntas feitas pelo experiente médico. Só após muita insistência do profissional, falava monossilábicos sim ou não


No meio da consulta, não mais suportando a timidez da filha,  a mãe da jovem se intrometeu:


- Dotô, ela num quer dizê. Mas ela tá cum doença na serventia dos hômi...



Colaboração: Paulo Danúbio Carvalho Costa

(imagem Google)