segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

959 - CHAPADA DO ARARIPE



Neste domingo, acompanhamos nosso pai Luiz Cavalcante em uma visita ao Museu de Luiz Gonzaga, na cidade pernambucana de Exu. Transpomos a Chapada do Araripe, imponente paredão que divide o sul do Ceará do Pernambuco, ouvindo dezenas de sucesso do inesquecível artista nordestino.

Logo após o Crato, após subir grande parte da íngreme “muralha” que abriga a Floresta Nacional do Araripe, paramos em pequenas vendas para adquirir alguns produtos regionais, como a siriguela, a jaca e o famoso pequi, fruto nativo responsável pela maior fonte de renda dos moradores da região. Como ainda íamos ao Exu,  decidimos comprar um saco do aromático fruto do pequiziero somente no retorno do passeio.

No Parque “Aza” Branca, grafado propositalmente com a letra Z, revivemos a história da vida e da música do maior artista nordestino de todos os tempos. Certamente não apenas por coincidência, em determinado momento da emocionante visita, no serviço de som do Museu do Gonzagão, tocava uma das muitas músicas da prodigiosa parceria ente o sanfoneiro com o iguatuense Humberto Teixeira:

La no meu pé de serra
Deixei ficar meu coração
Mas que saudade eu sinto
Eu vou voltar pro meu sertão

Inebriados com a fabulosa obra musical de Luiz Gonzaga, sentimos a falta no acervo do museu de qualquer referência ao varzealegrense Zé Clementino, parceiro do velho Lua em várias músicas de sucesso tais como Xote dos Cabeludos, Xeeem, Capim Novo, O Jumento É Nosso Irmão e Terra dos Contrastes. 

    Na retorno de Exu, decidimos visitar outros importantes pontos Turísticos da Chapada do Araripe. Na margem da rodovia CE-292, a 9 quilômetros de Nova Olinda,  conhecemos a lendária Ponte de Pedra, formação rochosa natural semelhante a uma ponte.

            Em Santana do Cariri, no Museu de Paleontologia da Universidade Regional do Cariri (URCA),  amostras do rico patrimônio geológico da região se misturam a imponentes réplicas de dinossauros.

Também em Santana do Cariri, a apenas 4 km da sede do município, subimos para apreciar a vista a partir do Pontal de Santa Cruz, que, segundo a crença popular, serviu para afastar as assombrações que habitavam o local. Eu e o primo Augusto Cesar, preferimos encarar a subida por uma estruturada trilha que também leva à pequena capela e a grande cruz fincada no panorâmico pontal.
           
      Na volta, no final da tarde, na rodovia, cruzamos com milhares de pessoas acompanhando o carregadores do pau da bandeira da Festa de São Sebastião, padroeiro de Nova Olinda.

Por fim, próximo ao Crato, paramos mais uma vez na estrada para comprar as frutas regionais, especialmente o pequi, ingrediente obrigatório na dieta dos sertanejos. Como havíamos iniciado uma negociação com as vendedoras no inicio da manhã, saímos em busca das sumidas proprietárias das barracas:

            - Ei, ei... Onde as muié do pequi tão ?

(imagem Google)

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

958 - OS ÓCULOS DO COMPADRE

-->

Na boca da noite, em uma pequena cidade do nordeste brasileiro, após mais um estafante dia de trabalho, o jovem marido voltou cansado para casa. Enquanto a dedicada esposa esquentava o jantar, decidiu descansar um pouco no quarto do casal.

Ao deitar na cama, o homem se incomodou com um objeto estranho sob o confortável travesseiro. Tratava-se de óculos de grau deixados estranhamente no inviolável leito conjugal. Inexplicável pois o casal gozava de saúde oftalmológica e nenhum dos dois carecia de qualquer correção visual.

Ao acender a luz do quarto, o pobre homem imediatamente reconheceu detalhes da refinada armação. Não havia qualquer dúvida, os óculos pertenciam ao seu querido compadre, padrinho do filho primogênito do casal. 

No dia seguinte, logo ao amanhecer, após uma noite mal dormida, o homem, sem contar nada à esposa, decidiu tomar providências. O velho amigo, que abria as portas do comércio com dificuldades para acertar a chave no buraco da fechadura, estranhou:

- Cumpade, o que traz você aqui tão cedo? Aconteceu alguma coisa? Meu afiado tá bem ?

- O Minino tá bem. O problema é com o cumpade...

Desconfiado, o experiente comerciante foi se afastando:

           - Mas, entonce, o que há de ser?

Antes que o velho amigo morresse com a falta de sangue circulando no seu rosto pálido, o compreensível marido, retirando os óculos do bolso,  completou:

- Taqui seu picenez, Cumpade. Deixe de lerdeza. Você tá muito esquecido. Anda largano seus óculo em tudo que é canto... 

(imagem Google)

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

957 - DE CANOA QUEBRADA AO MORRO BRANCO

-->
Mesmo apaixonados pelo sertão, não dispensamos uma boa praia. Assim, nos últimos dias de 2016 viajamos com a família para algumas das famosas e paradisíacas praias cearenses, nos municípios litorâneos de Aracati e Beberibe. 

Na diferenciada Praia das Fontes, como o próprio nome indica, nos molhamos com a água salgada do mar e, em seguida, a poucos passos, nos enxaguamos com a água doce que jorra das falésias.

Bem próximo ao mar, também nos refrescamos na belíssima Lagoa de Maceió, local onde a Lagoa do Uruaú se encontra com o oceano, formando um cenário encantador.  

Na famosa Canoa Quebrada, pacata vila de pescadores descoberta por cineastas franceses na década de 1960, sobrevoamos a deslumbrante praia a bordo de parapentes e depois caminhamos pela “Brodway”, agitada rua de bares e restaurantes.

         Na Praia de Morro Branco conhecemos o famoso Buraco da Sogra e o deslumbrante labirinto de areias coloridas, cenário de novelas, filmes e séries. Entre uma informação e outra, o nosso guia José Maurício nos ensinou truques fotográficos e nos falou sobre a origem do nome do lugar. 

         -  Querem saber como tirar fotografia sem barriga ? – indagou o bem humorado guia.

        Eu, em causa e interesse próprio, respondi:

-  Com certeza. Me diga logo como é...

Fingindo seriedade, o guia ensinou:

- É só focar do pescoço pra cima...

        Sobre a origem do nome do lugar, José Maurício nos ensinou que os pescadores, ao voltar do alto-mar, guiavam-se pela enorme duna, chamando-a de Morro Branco. Não bastasse, o guia também nos apresentou outra versão para a denominação da vila praiana de Beberibe:

           - O povo aqui também diz que a praia tem esse nome em homenagem a Michael Jackson.

- Como assim? Ele andou por aqui ? – perguntei.
- Não, num teve aqui não. Mas ele dizia: nasci negro mas morro branco...
(imagem Google)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

956 - NATAL INESQUECÍVEL (Republicado de novo)


         Em 1993, meu querido primo Hudson Batista Rolim recebeu um irrecusável convite para passar a noite de Natal na casa da nova namorada, no Bairro Cidade dos Funcionários, em Fortaleza. Cedo da noite, o apaixonado estudante vestiu a melhor roupa e apanhou o ônibus para cear na casa dos sogros.

       Depois de cruzar toda cidade, Hudson se impressionou ao chegar à bela e enfeitada casa da namorada. Semana antes, após um animado forró, na madrugada que a deixara ali em frente, não observara quão bonita era a casa da sua amada.

        Naquela noite natalina esperava conhecer muito mais da sua futura família. No portão, Hudson foi recebido friamente pelo dono da residência, seu futuro sogro. Mesmo assim foi conduzido a uma mesa, onde, sozinho, recebeu completa atenção dos bem vestidos garçons. Não sabia que a família de sua namorada vivia em tão boas condições. Consumindo uísque 12 anos e provando saborosos petiscos, o filho de varzealegrenses pensou: “dessa vez eu amarrei o meu burrin na sombra”.

         Mas já se aproximava da meia-noite e nada da namorada aparecer na festa. Até que finalmente ela ingressou pelo portão da garagem e passou a cumprimentar e desejar feliz natal a todos. Ao ver o namorado, a jovem se surpreendeu e falou:

         - Credo, tu tá é aqui Hudson? E eu esperando você lá em casa. Num sabia que tu conhecia doutor João, nosso vizinho.

        Assim, os namorados se despediram, atravessaram a rua e entraram na modesta casa, onde um casal de velhos cochilava na poltrona assistindo na TV ao especial de Roberto Carlos. Dali, o resto da noite, tomando coca-cola e comendo pedaços de um duro e frio peru,  Hudson, tentando esconder a decepção, observou pela janela o movimento e as luzes do animado castelo em frente que por poucas horas foi seu.

Colaboração: Hudson Batista Rolim

(imagem Google)

sábado, 3 de dezembro de 2016

955 - O CORTE DE COSTA (Republicado)



Por muitos anos meu querido e saudoso primo José Costa Neto não soube o que era uma barbearia ou um salão de beleza. Nesse período, cortava seus cabelos loiros em casa ou nas feiras livres de Fortaleza, quando acompanhava nossa avó Maria Amélia nas compras. O serviço era rápido e sem luxo. O próprio freguês segurava o espelho enquanto o improvisado barbeiro trabalhava com a tesoura.

Mas naquela manhã de dezembro da década de 1970, Costa estava animado. Seu tio Paulo Danúbio recebera o décimo-terceiro salário do novo emprego de ascensorista e levou o sobrinho adolescente ao Salão Presidente, espaço luxuoso e bem frequentado do centro da capital cearense. Ao chegar ao local, uma bonita moça pediu ao novo freguês:

- Venha aqui. Primeiro vamos lavar o seu cabelo...

Costa seguiu a bela jovem mas, desajeitado, em vez de sentar-se normalmente à cadeira apropriada para o serviço, abaixou a cabeça em frente à torneira usada para molhar o cabelo. Percebendo que o cliente não costumava ir ao salão, a funcionária indicou a posição correta para o rapaz sentar e lavar os cabelos.

À medida que a moça usava aromáticos shampoos e condicionadores e alisava o couro cabeludo de Costa, o tímido e carente rapaz se animava. Ao fim do serviço o freguês apresentava nas calças um volume que não trouxera ao salão. Quando Costa, buscando disfarçar a incontrolável ereção, saiu caminhando em direção à cadeira do cabeleireiro, o tio Paulo Danúbio indagou:

- Meu sobrin por que você tá andando corcunda desse jeito? Você impenou a coluna?


Colaboração: Paulo Danúbio Carvalho Costa
(imagem Google)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

954 - FECHANDO O GOL (blog há 7 anos)


           Grande parte do povo brasileiro acredita e faz uso de simpatias, feitiços, magias, mandingas, encantamentos, orações, amuletos, talismãs, feitiçarias, benzimentos e tudo mais relacionado com as ciências ocultas.

           No popular ambiente futebolístico as crenças estão ainda mais presentes. Os torcedores e os próprios atletas mantêm comportamentos supersticiosos buscando elevar o rendimento, pois acreditam que ajudam a equipe no alcance de suas metas. Há jogadores que não trocam a chuteira ou a cueca porque na primeira vez que as usou fez gols ou jogou bem.

          Eu não acreditava muito nessas coisas, mas recentemente minha amiga e conterrânea Klébia Fiúza me ensinou uma mandinga infalível. A simpatia cita um popular e irreverente varzealegrense, conhecido por suas histórias engraçadas. Consiste simplesmente em repetir umas palavras no momento em que o time adversário ataca. A frase, repetida com fé, fecha a nossa meta, impedindo o gol da equipe contrária.

         Neste final de semana, quando meu Fortaleza joga suas últimas chances de permanecer na série B e o querido Flamengo tem jogo decisivo na disputa pelo título do Brasileirão, usarei mais uma vez a frase mágica. No momento em que a bola chegar ao campo de defesa dos meus times eu repetirei insistentemente:

       - Cu de Zé de Lula. Cu de Zé de Lula. Cu de Zé de Lula...


(imagem Google)

terça-feira, 15 de novembro de 2016

953 - CHIFRES DO BEM

-->

Vários momentos marcaram a nossa rápida mas agradável viagem em família do último final de semana e feriado, cujo destino principal foi Brasília. 

Começamos o passeio acompanhando a etapa brasiliense da meia maratona Asics GoldenRun, suntuosa corrida que contou com a importante participação de atletas do Estado do Amapá, entre os quais minha querida esposa Eliziê. 

No dia seguinte à prova, 14 de novembro, comemorando o aniversário da minha mulher, conhecemos Pirenópolis, cidade goiana localizada a cento e sessenta quilômetros da Capital Federal, pródiga em paisagens e rica em histórias. Mesmo em um dia chuvoso, degustamos um pouco das lindas cachoeiras da região, provamos da diversificada culinária local e conhecemos parte de suas inusitadas histórias.

Logo ao chegar,  nos chamou atenção um personagem presente em todos os cantos da bucólica cidade do cerrado: uma imponente figura com corpo de homem e cabeça de boi, ostentando enormes e pontiagudos chifres.

Ficamos curiosos para saber por qual razão a cidade se orgulha de tão gozado símbolo. Após rápida e superficial pesquisa, descobrimos que o chifrudo se trata do Mascarado, um dos personagem das Cavalhadas, animada manifestação religiosa do município, com origem em tradições portuguesas, ocorrente durante a Festa do Divino Espírito Santo.

Com roupas coloridas e espalhando alegria durante o evento festivo, acredita-se que o chifrudo Mascarado também espanta os maus espíritos. Se os cornos causam vergonha e traduzem conotação negativa em muitas regiões do gigantesco e diversificado Brasil, em Pirenópolis, nas praças, comércios e residências, os Mascarados realçam os seus enormes chifres sem qualquer cerimônia, embelezando e alegrando o atraente município do centro-oeste brasileiro.


(imagem google)

sábado, 5 de novembro de 2016

952 - SHAOLIN DE VÁRZEA ALEGRE






A grande tela do cinema me levou de volta à infância. Hoje, com minha filha Alice Maria, assisti ao filme SHAOLIN DO SERTÃO, maravilhosa comédia cearense que conta a história de Aluísio Li, um padeiro de Quixadá que sonha em ser um grande lutador.
Não bastassem as imagens, os figurinos e as falas típicas do meu sertão natal, a película me trouxe a lembrança da época em que eu e todos os meninos da minha geração sonhávamos ser lutadores chineses como Shaolin ou Bruce Lee.
Na década de 1970 vivia-se o auge dos filmes de Kung Fu, produzidos na antiga colônia britânica de Hong kong. Essas obras se espalharam pelo mundo e chegaram ao à época isolado sertão cearense.
Ao sair do Cine Alvorada, dos irmãos Zé e Raimundo de Borgin, em Várzea Alegre, os meninos da minha época de criança pulavam, gritavam e golpeavam como se fossem um dos  protagonistas de sucessos como  “Dragão Chinês” ou “Shaolin Contra os Filhos do Sol”.
Eu e meus amigos só acordávamos do sonho e descobríamos não possuir os poderes e as técnicas dos heróis do cinema chinês quando alguém, do meio da rua, nos alertava insistentemente:
- Larguem de besta.  Vão infiá bufa em cordão. Vocês vão é rachá o quengo* com esses pinote** desmatelado...
* cabeça
** salto
(imagem Google)

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

951 - ÁGUA MINERAL (Blog há 7 anos)



        Se comunicar sempre foi uma necessidade entre os seres humanos. Nos tempos remotos, para se entender, os homens usaram gestos, sinais, códigos, que só depois de um longo período se organizaram em uma linguagem. Mas aquilo que surgia como fator de integração entre os povos nem sempre cumpriu completamente esse papel. Os indivíduos traduzem as informações recebidas de acordo com fatores sociais, culturais, religiosos e muitos outros.

       Certo dia, um novo garçom foi apresentado para gentilmente servir água, café e outros lanches em todas as inúmeras salas do nosso trabalho. Com atenção, cuidou em verificar as particularidades de cada um dos diferentes doutores que trabalhavam naquele importante órgão público. Uns preferiam café preto, outros com leite. Uns com açúcar, outros com adoçante. Uma bela e jovem doutora, cuidadosa com os seus dentes e estômago, atenta às orientações dos especialistas, logo alertou:

        - Eu gosto da minha água natural, tá? Sempre natural.

        A partir daquele dia, o dedicado garçom não deixou faltar a água solicitada. Antes mesmo de ser chamado aparecia na sala trazendo em sua equilibrada bandeja o precioso líquido. Porém, passados alguns meses, no meio de uma manhã, recebeu uma ligação para ir imediatamente ao gabinete. Ao chegar, foi logo cobrado pela chefe:

        - Por que ainda não trouxe minha água? Você não sabe que eu costumo beber bastante água pela manhã?

        - Perdão, doutora, mas desde cedo tá faltando água. Tão trocando uns canos da rua. Desculpa eu perguntar. Por que a senhora prefere água da torneira?


(imagem Google)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

950 - PEDAL DA LUA DE MEL

-->





Neste último final de semana recebi o convite da Equipe Extrema para acompanhar os amigos William Tavares, Raphael Bruno, Washington Magalhães, Odinircio Coutinho e Cleibe Junior em um desafio titânico. Os cinco ciclistas, partindo de Macapá,  resolveram encarar de uma só vez dois radicais percursos: Volta da Nova Colina e Volta do Camaipi.



Como pouquíssimos ciclistas do Amapá já completaram, isoladamente, um desses pedais, seria inimaginável alguém enfrentar as duas difíceis jornadas, de cerca de trezentos e cinquenta quilômetros, em uma só tocada.



Afora poucos mais de cem quilômetros de asfalto, o restante do pouco povoado percurso, singrando campos e florestas, segue em estradas rudimentares, com sucessivas e íngremes subidas. Não bastasse, em várias descidas, quando se aproveitaria para imprimir mais velocidade, os ciclistas se surpreendiam com perigosas pontes em madeira.



O fundamental apoio ao grupo coube aos solícitos Adriano Fioresi, Dilma Barbosa e Luciano Baia. Eu me encarreguei apenas de registrar em fotos e vídeos o esforço dos insanos ciclistas.



Mesmo encarando sol causticante, intensa poeira e inesperada chuva na parte final do trajeto, Washington, Coutinho e Junior, com raras paradas para descanso, conseguiram finalizar a peleja em pouco mais de um dia.



Acompanhei e testemunhei grande parte do roteiro, suficiente para compreender porque essa ciclomaluquice ganhou o apelido de PEDAL DA LUA DE MEL. Afinal, no brutal e desafiante percurso, como nos dias após o casamento, os guerreiros ciclistas encararam uma foda atrás da outra.



(imagem Google)


terça-feira, 18 de outubro de 2016

949 - ARTILHARIA (Blog há 7 anos)


     O menino que nasceu Raimundo se transformou em João Sem Braço logo após passar pelo infortúnio de perder o membro superior esquerdo em um acidente. Mas a falta do braço não impediu o conhecido varzealegrense de atirar de baladeira, jogar sinuca e realizar com habilidade outras atividades que em regra exigiriam a utilização dos dois membros.

     Em um campeonato realizado na quadra de esportes da Escola Presidente Castelo Branco, João Sem Braço foi escalado para jogar futebol de salão, hoje futsal, pelo time de alunos do Colégio São Raimundo Nonato.

     A equipe iniciou bem o campeonato, mas, na última partida, contra o rival Presidente Castelo, sofreu dois gols ainda no primeiro tempo. Descontrolado, João Sem Braço, para surpresa da torcida, passou a chutar contra a baliza defendida pelo goleiro do seu time. Bastava a bola chegar aos seus pés que o descontrolado jogador chutava fortemente contra o próprio patrimônio. Após sofrer uns cinco gols contra, o técnico finalmente pediu um tempo e, com rispidez, se dirigiu ao seu atleta;

     - João Sem Braço, você ficou doido? Por que ta fazendo gol contra?

     Com seu jeito irreverente, o jogador apresentou sua justificativa:

     - Já que vamos perder o campeonato, quero ser pelo menos o artilheiro.



Colaboração: Klébia Fiúza

(imagem Google)

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

948 - CICLOEXPEDIÇÃO DO RIACHO DO MACHADO AO VELHO CHICO



     "Nasci pela Ingazeiras,

     Criado no oco do mundo.

     Meus sonhos descendo ladeiras,

     Varando cancelas,

     Abrindo porteiras..."


     Pedalando por 560km pelos terrenos secos  e acidentados do sertão nordestino, na  CICLOEXPEDIÇÃO DO RIACHO DO MACHADO AO VELHO CHICO, me peguei várias vezes cantarolando esses versos do cearense Ednardo.

     
     Eu, Lanussi, Jorgin, Reginaldo, Carlin, Batista, Thales e Lamark, todos do cariri cearense, neste mês de outubro de 2016, saímos de Várzea Alegre-CE, terra do intermitente Riacho do Machado, e, após setenta e quatro horas queimando pneu de bicicleta pelo semiárido do Ceará, Paraiba, Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe, alcançamos as margens do belíssimo Rio São Francisco, na cidade alagoana de Piranhas.

     No difícil percurso, nas noites de descanso, recuperamos as energias em pousadas de Barro-CE, Salgueiro-PE e Petrolândia-PE


     Vivemos dias de hercúleo esforço, intensa emoção e grata superação. Para cumprir a planejada meta contamos com o fundamental apoio de vários colaboradores e com a estrutura disponibilizada por meu irmão Luiz Fernando.


     Ainda vestidos com as armaduras(camisas)  do evento e ao lado de nossas bicicletas, no Centro Histórico da cidade de Piranhas, na Cachaçaria Altemar Dutra, comemoramos o inesquecível feito.


     No fim da noite, extenuados e felizes, nos dirigimos ao hotel para o merecido descanso. Ali, como em todos os lugares que passamos, as pessoas se admiraram e elogiaram a nossa coragem. Um jovem e humilde funcionário do estabelecimento, ao escutar breve relato do nosso longo percurso, falou:


     - Meu avó também já foi duas vez numa barra circular* daqui até o Juazeiro pagar promessa pro Pade Ciço.


     Eu, ainda retirando alguns equipamentos da minha moderna e levíssima bicicleta de carbono, cantando vitória por nosso insuperável feito retruquei:


    - Com certeza seu avô demorou mais duma semana pra chegar daqui de Piranhas no Juazeiro do Norte,  ?


      O jovem rapaz respondeu:


     - fez em três dia e três noite, descansado pouco e dormindo ao relento no mei da estrada...


* modelo simples de bicicleta da marca Monark
(Imagem Google)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

947 - DESPERTADORA



     Em minha vida, por dádiva de Deus, gozo sempre do privilégio de conviver com pessoas especiais, que me ensinam, me acolhem, me estimam, e, sobretudo, me toleram.

      Por alguns anos, na década de 1980, morei em Fortaleza com minha avó materna Maria Amélia. Ela, professora aposentada, tutora de vários filhos e netos, me tratava com regalia, me mimava, me punha dengo. Porém, como todos nós humanos, desenvolveu algumas manias. Mantinha hábitos como acordar bem cedo e, de certo modo, se incomodar com aqueles que amanheciam o dia dormindo.

     Eu, naquela época, estudante do período noturno, nem todo dia precisava levantar cedo e informava com antecendência à minha querida avó os dias da semana que possuía atividade no início da manhã. Para facilitar a comunicação avó-neto, colava na porta do meu quarto uma agenda escrita em letras garrafais com os horários dos meus compromissos semanais.

     Minha avó, esbajando vitalidade, iniciava sua rotina diária na madrugada. Ainda escuro, rezava o terço, ouvia programas de rádios, arrumava os guarda-roupas, mexia em sacos plásticos e trocava móveis de lugar. E, mal entrava os primeiros raios de sol pela janela do quarto, caso todo esse barulho não bastasse para  despertar o sonolento adolescente, ela ia à minha cama, me sacodia e perguntava:

     - Flavin? Flavin? Hoje é dia de te acordar cedo????

(Imagem Google)