quinta-feira, 22 de setembro de 2016

945 - LAGOSTA (Blog há 7 anos)


     Depois de estudar alguns anos no Colégio Agrícola de Lavras da Mangabeira, o varzealegrense Paulo Danúbio se mudou para Fortaleza no início da década de setenta. No Liceu do Ceará, foi cursar o primeiro ano do ginasial – hoje sexta série do ensino fundamental.

     O aluno, que mais tarde se formou em biologia pela Universidade Estadual do Ceará e se tornou um bem conceituado professor, adorava as aulas de ciências. Já nos primeiros dias, logo que chegou ao tradicional colégio da Capital Alencarina, buscou participar ativamente das aulas. Certo dia, a professora de ciências, falando sobre os aspectos alimentares e nutricionais dos crustáceos, fez uma pergunta aos alunos:

     - Quem aqui da sala já comeu lagosta?

     Para a surpresa da educadora, o aluno Paulo Danúbio foi o único a levantar o braço.

     - Mas, Paulo. Você acabou de chegar do interior, não sabia que os crustáceos faziam parte da culinária de Várzea Alegre.

     - Desculpa, professora, eu não entendi direito. Lagosta era uma jumentinha que vivia lá pelos tabuleiros, perto do colégio agrícola das Lavras.




(imagem Google)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

944 - LANTERNINHA (Blog há 7 anos)


     O sinal de televisão com qualidade, sem chuvisco e chiado, demorou a chegar ao sertão cearense. Somente no final da década de setenta, com o surgimento das antenas parabólicas e outros meios modernos de retransmissão, foi que passamos a acompanhar com regularidade os programas televisivos.

      Em férias escolares, quando eu viajava para Fortaleza me contentava em ficar o dia inteiro diante do aparelho de televisão vendo desenhos animados. Nada desviava minha atenção da Pantera Cor de Rosa, do Tom e do Jerry ou do Marinheiro Popeye. E se a televisão em preto e branco de minha avó Maria Amélia já me encantava, imagine ver uma comédia infantil na tela gigante de um moderno e confortável cinema. Pois, em uma dessas viagens, no ano de 1977, meu tio Paulo Danúbio me levou junto com meu primo Sergio Ricardo para assistirmos no famoso cine São Luiz ao filme campeão de bilheteria daquele ano: O Trapalhão Nas Minas do Rei Salomão.

     Encantados com a beleza do cinema, eu e Serginho nos divertíamos com as graças e estripulias dos personagens de Renato Aragão, Dedé Santana e Mussum. No meio do filme, fomos surpreendidos com um avião de papel que voara pela projeção e caíra sobre nós. Eu, de imediato, apanhei o avião, e o arremessei novamente. A sombra do avião foi projetada na grande tela.

     Pouco tempo depois chegou um senhor com uma lanterna na mão e chamou tio Paulo.  Os dois conversaram baixinho por algum tempo. Embora concentrado no filme, eu percebi que meu tio gesticulava muito e nos apontava insistentemente.

     Logo na saída do cinema, ainda na movimentada e tradicional Praça do Ferreira eu perguntei:

     - Ti Paulo, o que aquele homem da lanterna queria com o senhor?

     - Comigo nada. Ele queria era botar vocês pra fora. Não pode jogar papel pra cima. Atrapalha o filme. Ele só desistiu quando eu disse a ele assim: “Seu lanterninha esses mininos vieram do interior. Viajaram quase quinhentos quilômetros só pra ver os Trapalhões”.


(imagem Google)

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

943 - BAIÃO 'VERSUS' PIZZA (Blog há 7 anos)


     Com cerca de quatorze anos de idade, no à época isolado sertão cearense, meus hábitos alimentares eram bem ortodoxos. Em casa, como comum, o fogão funcionava de acordo com a rotina do mercado de carnes da cidade. Em cada dia da semana minha mãe servia um prato diferente. Lembro que toda sexta, dia da matança dos animais, tinha fígado de boi no jantar. No almoço do sábado, apreciávamos a “carne batida”, conhecida em outros lugares como picadinho. A deliciosa galinha caipira só enfeitava o cardápio do almoço dos domingos.

          Hoje lembrei que graças ao meu padrinho José Iran Costa conheci a culinária de outros lugares. Eu estava no Crato para passar apenas o dia curtindo o parque de exposições, e Iran Junior e seu pai convenceram meus genitores para que eu ali permanecesse no tradicional evento do interior nordestino.

          Assim eu fiquei por mais uns dias no progressista Crato junto com doutor Iran e sua família. Foram dias inesquecíveis, repletos de divertimentos e novidades. Em um fim de tarde, fomos a um restaurante e nos foi servido algo diferente. Uma massa com coberturas coloridas trazida em uma forma arredondada. Eu estava sendo apresentado à pizza. Quando madrinha Lolanda me ofereceu o tradicional prato italiano, eu, garoto tímido, mesmo sem nunca ter provado da estranha comida, por não saber sequer como me servir, disse:

          - Obrigado madinha, eu num gosto de pizza.

          Assim, eu jantei com o meu padrinho Iran um tradicional baião de dois, enquanto com o canto do olho observava seus filhos Guilherme e Iran Junior, usando estranhos molhos vermelhos e amarelos, degustar a aparentemente saborosa massa italiana.

(imagem Google)

sábado, 3 de setembro de 2016

942 - ENTERRO DE AMIGO



     Participar das últimas homenagens aos falecidos trata-se de um costume comum a povos de todas as épocas e de todos os continentes. No entanto, por variados motivos, há pessoas que preferem não testemunhar esses sensíveis e dolorosos momentos de despedida.

     Em Várzea Alegre, cariri cearense, na década de 1970, faleceu um grande amigo do agricultor José de Souza Lima (Pé Véi). Passou o velório, houve a missa de corpo presente e nada do agricultor se movimentar para acompanhar as cerimônias fúnebres.

     No final do dia, um conhecido passou apressado pela estrada vicinal do aprazível sítio Buenos Aires, e, vendo o agricultor sentado no chão e preparando um cigarro de fumo, questionou:

     - Pé Véi, hômi. Tu num vai na rua pro enterro do teu amigo, não? É daqui pa’pouco...

     - Vou não, respondeu, o indolente lavrador.

     - E por que tu num vai? Era tão teu amigo...

     Pé Véi continuou sentado, deu uma pitada no cigarro de fumo, e, com o ócio criativo digno de Macunaíma*, completou:

     -Que é que tem? Ele também num vai no meu...

*personagem do romance de Mário de Andrade
(Imagem Google)

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

941 - A QUEDA DA TORRE (Republicado em homenagem ao dia de São Raimundo Nonato)


         Ontem, dia dedicado a São Raimundo Nonato, de longe recebi notícia da grande manifestação religiosa em Várzea Alegre. Ao saber das milhares de pessoas na procissão em homenagem ao Santo Padroeiro  recordei abril de 1977, quando parte da torre da igreja matriz ruiu, consternando e mobilizando a comunidade católica da região.

          Equipe do Corpo de Bombeiros veio à pequena cidade cearense para retirar a imagem de São Raimundo Nonato  que permaneceu intacta na única parte da torre que não caiu.

 Na época eu era escoteiro e nosso grupo ajudou no isolamento da área para a ação dos bombeiros. Assistimos maravilhados à ação daqueles corajosos homens, com suas enormes escadas, variadas cordas e protegidos por capacetes.

         Toda cidade admirava a agilidade e bravura dos equipados bombeiros, quando, em determinado momento, o querido e saudoso menino Antônio Clécio Clementino, conhecido como Bodoga, referindo-se a um varzealegrense que sempre realizava serviços no alto da torre,  gritou:

Oh besteira, Calabaço sobe aí em cima só de chinela japonesa.


(imagem Google)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

940 - OS MENINOS DO PARQUE MAIA (Republicado)


Durante os dez últimos dias do mês de agosto, em Várzea Alegre, vive-se o animado período da festa do padroeiro São Raimundo Nonato. Enquanto os adultos participam dos eventos religiosos e circulam pelas barracas do arraial, as crianças acompanham a movimentação do parque de diversões que se instala na cidade cearense. O sonho da meninada dura até o dia 31, quando começa a rápida, triste e angustiante desmontagem da pesada estrutura.

No final da década de 1970, os meninos Júlio Bastos Leandro, Geraldo Leandro Filho e Fernando de Zé de Zacarias moravam na antiga Getúlio Vargas, uma das ruas onde o tradicional Parque Maia* era montado. Sem dinheiro, passavam os dias e as noites de festa circulando pelo “carrossel”, buscando uma forma alternativa de “rodar” nos brinquedos.

Uma vez, cedo da manhã, os garotos cataram do chão os bilhetes usados e rasgados na noite anterior e colaram com  grude de goma. Mas os atentos funcionários do parque descobriram facilmente a grosseira montagem.

No mesmo ano, em uma noite movimentada, encostados à grade, os meninos da Getúlio Vargas conseguiram abrir um pouco as barras de ferro e acessar o brinquedo conhecido como Cavalinho pela alargada brecha do gradil. O primeiro a entrar clandestinamente, Geraldo Filho, montava alegremente em um dos animais de madeira, quando Fernando alertou:

- Geraldo, bora voltá, seu irmão Julin ficou com cocão inganchado na grade...

* Parque de diversões que, junto com o Parque Lima, por várias décadas, montou seus brinquedos em Várzea Alegre.

939 - FESTA DE AGOSTO NO JAPÃO (Republicado)



       Na década de 1990, minha prima Rosiana de Carvalho Costa, contadora e enfermeira, morou no lugar mais distante possível da nossa Várzea Alegre. Ela viveu por alguns anos no Japão, do outro lado do planeta. Basta lembrar que, mesmo de avião, a viagem do Brasil à Terra do Sol Nascente demora cerca de vinte e quatro horas.


Imagino que morar tão longe e em um país com cultura tão diferente multiplica ainda mais a saudade dos familiares, dos amigos e da terra natal.

Todo varzealegrense que vive fora de sua cidade sofre especialmente nos últimos dias de agosto, época em que o município cearense recebe inúmeros visitantes e realiza os festejos em homenagem ao seu padroeiro São Raimundo Nonato.


Em um desses dias de agosto, com o coração apertado, Rosiana ligou do Japão para Várzea Alegre. No meio da conversa com sua mãe Rosa Amélia, perguntou:


- Como tá por ai ? Como tá festa? Tá animada? Tem muita gente?


A experiente mãe testemunha todos os anos o crescente movimento de pessoas nos festejos religiosos e no arraial. Mesmo assim, buscando acalentar o coração da filha, respondeu com uma bem intencionada mentira:


Ziana, você num tá perdendo nada. Esse ano tá fraquin demais. Num tem quase ninguém...



Colaboração: Terezinha Costa Cavalcante

(imagem Google)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

938 - TURISTA (Pedra de Clarianã há 7 anos)


       Minha tia Rosa Amélia aceitou meu convite e dias atrás veio conhecer o Estado que me acolheu. Em apenas uma semana de passeio, com sua simpatia e contagiante disposição, saboreou da deliciosa vida no Amapá.

        Comeu várias doses de camarão no bafo na praia do bucólico distrito de Fazendinha. Ao lado da histórica igreja de São José, provou uma cuia do tradicional tacacá, servido na calçada da central e movimentada Rua São José. No Igarapé da Fortaleza tomou açaí "do grosso" misturado com farinha de tapioca. Foi à feira do produtor rural comprar castanha-do-pará, cupuaçu e molho de tucupi. Depois de visitar a Casa do Artesão, bebeu latas de cerveja com sal e limão preparada por Lourival. Em passeios pela orla, especialmente no “lugar bonito”, contando com a proteção das centenárias muralhas da bem conservada Fortaleza de São José de Macapá, se refrescou com a brisa soprada nas margens do gigantesco Rio Amazonas.

       No interior, no aprazível Município de Ferreira Gomes, antes de se deliciar com uma bem servida caldeirada de peixe, minha tia banhou-se feito criança nas águas límpidas do Rio Araguari, bem longe de sua foz e de onde acontece o famoso fenômeno da pororoca.

        É bem verdade que faz muito bem viajar, conhecer novos lugares, contatar pessoas e culturas diferentes. Mas para tia Rosa Amélia sua vinda ao Amapá trouxe ainda mais benefícios. Ao voltar para Várzea Alegre, fez o seguinte comentário:

        - Gostei tanto do passeio que cheguei me sentindo mais jovem e mais bonita. Só quando me vi no espelho do meu quarto notei que ainda continuava com as marcas dos meus setenta e cinco anos de idade.


(imagem Google)

terça-feira, 23 de agosto de 2016

937 - CAIXOTE MÁGICO (Blog há 7 anos)



     Fundada em setembro de 1950, por Assis Chateaubriand, a TV Tupi de São Paulo foi a primeira emissora de televisão do Brasil. Porém, a revolucionária invenção do escocês John Baird demorou a se espalhar pelo restante do país, especialmente pelas pobres regiões do nordeste.

     Também naquela metade do século passado, fugindo das intempéries do sertão cearense, o ferreiro Chico Basil viajou para São Paulo. Na progressista região teve a oportunidade de conhecer o impressionante invento.

     Depois de um bom tempo trabalhando na terra da garoa, na volta para o Ceará Chico explicou para o seu velho pai, Antônio Basil de Oliveira, a novidade do sul:

     - Papai, o sinhô carece vê uma coisa que tem no São Paulo. É uma caixa de madeira que daqui de Várzea Alegre nós enxerga e ouve uma pessoa que tá conversano lá nas banda das Lavras da Mangabeira.

      O cético sertanejo Antônio Basil logo retrucou:

    - Chico, meu fi, deixa de leriado*. Eu ainda tou custano** a acreditar na caixa que só fala e ocê vem com outra que enxerga o povo que noutras paragens.

* vocábulo cearense que significa “conversa fiada”
** flexão do verbo custar, que, no ceará, é sinônimo de demorar
(imagem Google)

domingo, 21 de agosto de 2016

936 - O JEITO DELFONSO DE SER





O artista varzealegrense Idelfonso Vieira Lima não acumulou riquezas, bens materiais. Viveu sempre com simplicidade, sem luxo, sem ambições. Produziu, no entanto, um enorme patrimônio de conhecimento e fez questão de dividi-lo com um grande número de discípulos.

Com seu jeito simples, simpático e bem humorado, o grande pintor desenvolveu características que marcaram sua vida, fácil e imediatamente percebidas por aqueles que com ele conviveram.

Na década de 1980, Delfonso adquiriu uma Brasília vermelha e fez uma viagem de Várzea Alegre a Juazeiro do Norte. Na condução do primeiro e único automóvel do talentoso pintor, seguia um dos seus aprendizes, Airton de Sinhô.

No meio do percurso, após a sede do município de Farias Brito, Delfonso dormia tranquilamente no banco do passageiro, quando acordou com um enorme barulho. Sobressaltado, o artista indagou:

- O que foi isso, Airton?

Ainda nervoso com o susto, o jovem motorista respondeu:

- Foi um cachorro, Delfonso, que atravessou a estrada e eu não consegui desviar.

O saudoso Delfonso, nem quis saber se o choque danificara o seu carro. Curioso, perguntador inveterado, revelando uma das características que marcou sua vida, arrumou os óculos e interrogou:

- E de quem era cachorro?

(imagem Google)

Colaboração: Samoel Moreira de Holanda Junior

terça-feira, 16 de agosto de 2016

935 - DELFONSO E O BOLO DE FORMIGA



Idelfonso Vieira Lima nos deixou, mas permaneceu em todos os que o conheceram a sensação de que ele cumpriu com méritos e simplicidade sua missão na Terra.

Homem de muita sabedoria e inesgotável bondade, desenvolveu e compartilhou com inúmeros jovens habilidades para a pintura, a escultura, a música e outras artes. Não bastasse, Delfonso adorava contar suas histórias, com um estilo próprio e bem-humorado.

Certa vez, na década de 1980, o conhecido artista varzealegrense comprou uma fatia de bolo fofo na Padaria e Lanchonete de Sinhô, localizada na antiga Rua Major Joaquim Alves, no centro da cidade cearense. Em vez de comer no local, Delfonso preferiu levar o bolo para o seu ateliê.

Dias após, Delfonso encontrou com Gean Claude, filho do proprietário e atendente da padaria, e comentou:

- Gean, naquele dia, quando eu lembrei de comer, o bolo tava chein daquelas formiguinhas pequenas. Fiquei com dó de não saborear o bolo. Mas tive uma ideia e todas as formiguinhas ligeiro desapareceram...

- E o que você fez, Delfonso ?? – Perguntou, o curioso Gean.

- Foi simples. Tirei os óculos...

(imagem Google)

Colaboração Gean Claude Alves de Holanda 

sábado, 13 de agosto de 2016

934 - A PINTURA DE DELFONSO (Homenagem do Blog)

 
     O varzealegrense Ildefonso Vieira Lima tornou-se conhecido no centro-sul cearense por suas habilidades na difícil arte da pintura. Vários jovens passaram por seu modesto ateliê e aprenderam a manejar o pincel. Uns permanecem até hoje no ofício e outros, com os ensinamentos do mestre, galgaram profissões diversas ao longo da vida.

Além do incontestável desempenho artístico, o pintor Delfonso também marca pela original forma de contar histórias. De um jeito singelo, simples e ingênuo, narra situações do cotidiano sertanejo.

Outro dia, Delfonso contou que um morador do sítio Panelas, em Várzea Alegre, descia uma íngreme ladeira de bicicleta quando avistou uma pessoa com as calças arriadas e acocorado no meio de uma roça de milho. Ao ver a cena, o indiscreto ciclista gritou:

- Eeeei cagão!

O homem, flagrado na desconfortável situação, levantou as calças rapidamente e buscou localizar o impertinente no leito da estrada vicinal. Ao ver o rapaz que seguia distante, sem saber o que falar, improvisou:

- E tu andadô de bicicleta...

Colaboração: Ropson Frutuoso
(imagem Google)

Obs.: Hoje, o nosso querido Delfonso nos deixou, mas seu legado de simplicidade, afeto e bondade continuará conosco por muito tempo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

933 - GRAVIDEZ INDESEJADA (Blog há 7 anos)



     Nesta época de rígidas imposições estéticas, a busca pelo corpo perfeito virou obsessão para inúmeras pessoas. Os homens anseiam possuir formas de Deus grego; as mulheres, silhuetas de atrizes e modelos famosas. Embora o excesso de peso se torne cada vez mais comum, ser gordo está completamente fora de moda.

     Não bastasse, os obesos são alvos preferidos de maliciosas piadas e tratados por ridículos apelidos. Ninguém consegue escapar ileso, nem mesmo o famoso jogador de futebol “Ronaldo Fenômeno”, costumeiramente tratado por gorducho.

     O varzealegrense Alberto, proprietário da Casa Zé Augusto, por conta do seu aguçado apetite, sempre cultivou uma barriga protuberante.

      Certo dia, em seu concorrido bar, escutou o comentário e a maliciosa pergunta de um gaiato freguês:

     - Eita que barriga grande, Alberto! Quando a criança vai nascer?

       A resposta do espirituoso comerciante foi imediata:

     - Tá nascendo. O braço já tá no lado de fora. Puxe aqui.


(imagem Google)

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

932 - ROMEIRO EM SALVADOR (Blog há 7 anos)



     Todo turista costuma trazer lembranças de suas viagens, especialmente miniaturas dos pontos turísticos que visita. Assim, quem vai a Paris compra miniaturas da famosa torre construída por Gustave Eiffel para Exibição Universal de 1889. Indo ao Rio de Janeiro é de praxe adquirir pequenas cópias do belo monumento Cristo Redentor, inaugurado em 1931. Aqueles que vêm à Macapá não deixam de buscar pequenas réplicas da imponente Fortaleza de São José, encravada na margem do Rio Amazonas desde a segunda metade do século XVIII.

     Meu querido primo Sérgio Ricardo, no início da década de 70, ainda criança, acompanhou seu pai Sérgio Carvalho em uma viagem para a distante cidade de Salvador. Logo na visita ao centro histórico do Pelourinho, Sergin não esqueceu de pedir dinheiro ao pai a fim de comprar lembranças para suas irmãs Romélia, Rosélia, Rosânia, Rosiana, Rogéria e Romênia.

     No retorno para a pequena Várzea Alegre, o garoto imediatamente entregou as recordações da viagem. Para surpresa das seis irmãs, em vez de réplica do conhecido Elevador Lacerda ou de outros belos monumentos da capital baiana, Sergin trouxe para cada uma das Ro’s uma caneta bastante fabricada e vendida na vizinha Juazeiro do Norte. No singelo presente continha a frase "lembrança de Padre Cícero Romão Batista".

(imagem Google)

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

931 - XÔ STRESS (Blog há 7 anos)


     
      Não há como evitar os aborrecimentos naturais do dia-a-dia. No curso natural da vida o homem vive inúmeros momentos de stress, quando acontece uma reação do corpo a fatores externos desfavoráveis.

      O mal já existia antes mesmo do termo stress ser usado pela primeira vez na primeira metade do século passado. Contudo, encontrou ambiente ainda mais favorável a sua disseminação no apressado, agitado e competitivo mundo dos dias atuais.

      Os profissionais da área de psicologia recomendam várias maneiras de combater o problema, que vão desde a busca de uma alimentação saudável, a prática de exercícios físicos regulares, até a ingestão de medicamentos.

      Porém, o honesto e trabalhador Joaquim Bitu, agricultor que se tornou um próspero comerciante em Várzea Alegre, na sua simples sabedoria de matuto, há décadas desenvolveu uma técnica especial para combater os momentos de turbulência do cotidiano.

      Diante de um aborrecimento ou chateação provocado por qualquer pessoa, o saudoso Joaquim Bitu não deixava transparecer o seu sentimento de indignação. No mesmo instante praticava um gesto que aliviava suas tensões. Com discrição, montava com o dedão da mão direita um obsceno cotoco, escondendo-o no bolso da frente de sua folgada calça de brim bege.


(imagem Google)

domingo, 31 de julho de 2016

930 - DA "MADAREIA" AO 'QUINCUNCÁ"

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Segundo trabalho científico apresentado no V Encontro Nordestino de Biogeografia por Antônia Eliene Duarte e outros especialistas, havia, no alto da serra, um descampado arenoso onde o gado costumava malhar, que, ao longo do tempo, de malhada da areia se transformou na corruptela “madareia”. Por sua vez, no consagrado livro “Os Sertões”, o escritor fluminense Euclides da Cunha cita quincuncá como vocábulo de origem tapuia, grupo indígena que habitava o interior brasileiro, usado para designar acidente geográfico.



Pois no último dia de julho, realizando desejo de nosso pai Luiz Cavalcante, saímos em busca de conhecer essas duas localidades serranas. Madareia, situada no limite dos Municípios de Várzea Alegre e Cariús, e, Quincuncá, no vizinho município de Farias Brito.



Sentindo os fortes ventos e a amena temperatura do local, da bela vista do alto da Serra da Madareia observamos grande parte de Várzea Alegre, mas outras elevações geográficas encobriam a sede do município. Poucos moradores da pequena localidade se arriscaram a abrir portas ou janelas das suas modestas casas, certamente estranhando os inesperados visitantes ou temendo o vento frio da manhã de domingo.



Saindo da Serra da Madareia, seguimos imediatamente em direção à Farias Brito para também conhecer a do Quincuncá. Ali, a íngreme subida foi facilitada pela recente pavimentação da sinuosa estrada que dá acesso às localidade  serranas.



Bem no alto, paramos para conhecer o Pontal do Padre Cícero,  mirante com belíssima vista para o Município de Farias Brito. Reza a lenda que o local foi indicado pelo venerado Padre de Juazeiro como um dos poucos pontos da região para se escapar de uma temida enchente causada por águas das fontes do Cariri, caso houvesse o deslocamento da famosa Pedra da Batateira, no Crato.



Por fim, no alto da serra, após passar pela comunidade do Umari, finalmente chegamos à progressista  Quincuncá, antiga Araticum, onde visitamos a capela de São José e nos encontramos com simpáticos moradores do distrito.  Na conversa, indagamos sobre a origem do nome Quincuncá, ouvindo várias versões.



Porém, de todas, a melhor justificativa para o nome da serra de Farias Brito, escutei há alguns anos da prima Wellen Liberalino. Segundo ela, há muito tempo na localidade dos seus avôs paternos havia apenas uma pessoa que sabia ler e escrever, responsável por redigir as cartas postadas pelos moradores da antiga localidade de Araticum. Quando perguntavam o seu nome, dando origem à denominação do local, ele respondia: “Sou Kinco, Kinco Com K”.

(imagem Google)

sábado, 30 de julho de 2016

929 - RAPADURA

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Hoje, no sitio Macacos, distrito de Mangabeira, Município de Lavras da Mangabeira, visitamos um dos últimos engenhos de rapadura em funcionamento na região centro-sul do Ceará.  Segundo o proprietário, senhor Gabriel Holanda Nunes, conhecido como Bié, de 79 anos, a “moagem” funciona desde à época do seu avô, quando ainda movida pela força animal, por juntas de boi. Dos 36 engenhos que funcionavam em Mangabeira, apenas o do sítio Macacos continua ativo, produzindo a tradicional e deliciosa rapadura.


Em meio roças,  moendas e fornalhas, vários profissionais desempenham suas atividades na produção do saboroso tijolo, tais como os plantadores da cana, bagaceiro, caldeireiro e cacheador. Entre eles, o mestre, que, com sua experiência e prática, decide o momento exato em que o mel pode se transformar em rapadura.


Além dos conhecimentos práticos, adquiridos ao logo de séculos de observação e experiências, várias crenças e superstições envolvem o funcionamento do engenho. Uma delas consiste em parar toda a produção na primeira segunda-feira de agosto, pois esse dia é considerado de “má sorte” e pode causar um acidente ou uma pane nas máquinas.


No engenho dos Macacos, ao contrário de outras indústrias modernas, não há a adição de produtos químicos para aumentar o teor de sacarose na rapadura. Utiliza-se apenas as misturas tradicionais, como a cal, logo após a moagem da cana, que serve para limpar a garapa. No fim do processo, o mestre da rapadura também adiciona o sebo de gado, para endurecer o mel e fazer jus ao conhecido nome do produto final.


Ouvindo atentamente a explicação, meu tio Paulo Danúbio, professor aposentado, perguntou:


- Seu Bié, o sinhô vende esse balde de Sebo de Gado?

- E o senhor vai botar um engenho de cana? – indagou o simpático proprietário da moagem.

- Não, seu Biê, quero ver se esse sebo serve pra endurecer outras coisa...
(imagem Google)

terça-feira, 26 de julho de 2016

928 - II GINCANA CULTURAL E ESPORTIVA DO JUAZEIRINHO

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     Neste último final de semana, a convite de Edinaldo Rodrigues e Sandro Santos, estivemos na zona rural de Várzea Alegre,  sertão cearense, acompanhando alguns momentos da segunda edição da gincana cultural e esportiva do distrito de Juazeirinho.

      Cerca de 100 crianças e adolescentes participaram de atividades promovidas pela Associação Comunitária do Juazeirinho com o apoio do grupo de jovens do vizinho distrito de Canindezinho.

      Foi emocionante e divertido ver jovens e crianças correrem pelos ramais de terra de chão batido. Mesmo sem calçar os tênis apropriados ou até mesmo correr descalços carregando as chinelas nas mãos, meninos e meninas mostraram a força socializante e educativa do esporte.

     Lembrando as tradicionais provas da Semana do Município, ocorreu ainda corrida de jumentos, com os animais montados e guiados por pequenos, corajosos e desenvoltos garotos. Entre as diversas modalidades assistimos à acirrada competição de ciclismo, com a utilização pelos jovens atletas das velhas bicicletas usadas para se deslocar no dia a dia pelas empoeiradas estradas vicinais da região.

      Na parte final das atividades da manhã de domingo, em meio às animadas provas de trancelim e das disputas das cadeiras, fotografávamos algumas frases do mestre Paulo Freire registradas na Escola São Pedro quando o garoto especial Wesley, mesmo com dificuldade para controlar os seus movimentos, fez questão de posar junto com as palavras do consagrado educador.

     O menino Wesley fez brilhar ainda mais a mensagem pintada na parede de que “feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina”. E, ainda, nos fortaleceu a convicção de que abençoada e próspera é a comunidade que permite às suas crianças e aos seus adolescentes conhecer e saborear os deliciosos ensinamentos do esporte e da cultura.

(imagem Google)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

927 - DO RIACHO DO MACHADO AO "VELHO CHICO"

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      Navegar é preciso, navegar pelos rios brasileiros é necessário, fascinante e engrandecedor. Assim, semanas após conhecer as águas amazônicas que banham a ilha do Marajó, aproveitamos as férias pelo nordeste do país para beber um pouco da cultura, história e riqueza do Rio São Francisco.

     Saimos de Várzea Alegre, cidade do cariri cearense banhada pelo temporário Riacho do Machado.  Para chegar a Canindé do São Francisco, próximo à barragem e hidrelétrica de Xingó, nas margens do "Velho Chico", viajamos quase 600km pelos Estados do Ceará, Paraíba, Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe. No percurso, passamos por vários canteiros da grandiosa obra de transposição das águas do São Francisco para áreas distantes do semiárido nordestino.

     Pelas águas do Rio São Francisco, em um catamarã, participamos de um interessante passeio nominado Rota do Cangaço, seguindo rastros das lendárias histórias de Lampião, Maria Bonita e seu bando. No município de Poço Redondo, desembarcamos e percorremos 600 metros de tortuosa trilha até a conhecida Grota do Angico, local onde, em 28 de julho de 1938, tropas comandas pelo Tenente João Bezerra surpreendeu os cangaceiros, matando Lampião, Maria Bonita e mais 9 seguidores do polêmico “Rei do Cangaço”.

     Em parte do São Francisco, paredões sedimentares, avermelhados, conhecidos como cânions, formam um corredor, lindo cenário em contrastes com as cores azulada ou verde das águas do rio.

      Em Piranhas, cidade alagoana tombada pelo patrimônio histórico nacional, chamada Guardiã do Rio São Francisco, visitamos o museu do sertão e admiramos outros conservados prédios do centro histórico. Naquela simpática cidade, o esforço de subir centenas de degraus para conhecer os mirantes secular e da igreja do Senhor do Bonfim nos trouxe a recompensa de lindas paisagens produzidas especialmente pelo Rio São Francisco.

      Na primeira metade do século passado, favorecido pelo isolamento, Lampião escolheu aquele pedaço do Brasil próximo a divisa de vários Estados para atuação preferencial do seu bando, onde, mesmo assim, foi cercado e morto. Hoje, vencido o isolamento, o São Francisco sobreviveu a vários ataques. Produz a energia que impulsionou o desenvolvimento do nordeste e, torcemos, para que logo distribua  água para molhar as áridas e férteis terras da nossa região.  



(imagem Google)