segunda-feira, 19 de março de 2018

977 - SANTO PADROEIRO (Republicado em homenagem a São José(



     Em fevereiro de 1991 cheguei a Macapá. Além de perceber imediatamente a simpatia e hospitalidade do povo amapaense também fui recebido por fortes chuvas. Gostei. Não poderia ser diferente, pois cearense do sertão adora tempo chuvoso e calor humano.

     Não demorei a descobrir que além de dar nome a uma majestosa fortaleza, construção símbolo do Amapá, São José era padroeiro de Macapá. Bela coincidência, pois o homem descrito nas escrituras sagradas como justo, obediente e trabalhador, também fora escolhido padroeiro do Ceará.

     Chegou março e no dia 19, como nos outros dias do mês, caiu muita água dos céus de Macapá. Fiquei esperançoso, pois esse dia serve de referência para os cearenses na previsão da estação invernosa. Chover no dia de São José é sinal de um ano de bom inverno e de muita fartura.

     Poucos dias depois liguei para o Ceará para falar com minha querida avó Maria Amélia. Ansioso, fui logo dizendo:

     - Vovó, este ano o inverno vai ser bom, caiu a maior chuva no dia de São José.

     Porém, para minha surpresa, vovó falou:

     - Meu , só se foi aí, pois aqui não caiu um pingo d’água. Faça uma prece para São José distribuir melhor essas chuvas com seus afilhados

(imagem Google)

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

976 - O MACHADO E O AMAZONAS



            Moro há 27 anos em Macapá, às margens do Amazonas, maior rio do mundo em volume d’água. Mas nasci no centro-sul cearense, em Várzea Alegre, onde o pequeno e intermitente Riacho do Machado representa para o sertanejo local o que o Amazonas significa para a povo da região Norte do Brasil.

            Citado no Hino de Várzea Alegre, na letra do compositor Zé Clementino, as águas do município cearense deslizam mansas no Riacho do Machado. E em férias pelo Ceará, no início de 2018, aproveitei para, com um pequeno grupo de parentes e amigos, melhor conhecer esse córrego tão importante para a agropecuária e para o abastecimento de nossa cidade.

            Estivemos no sitio Mameluco, distrito do Riacho Verde, onde, da encosta da serra do Rubão, duas grotas se unem pra formar o nosso Riacho. Deixou-nos preocupado o baixo volume do Açude Olho D’Água, o seu principal reservatório. Dele sai a água que abastece a sede do município.

            Caminhamos em outros locais por onde o temporário Machado percorre, formando um imenso vale, chamado popularmente de “ribeira”. Compondo a microbacia do Rio Salgado, o riacho molha também terras de municípios vizinhos, até sua desembocadura no Sitio Juazeirin, em Lavras da Mangabeira. Ali conhecemos onde suas águas se juntam ao Salgado e depois seguem em direção ao Jaguaribe, principal rio do Ceará.

            Só quem vive no semiárido nordestino entende porque o encantamento e respeito por um riacho temporário, que passa o maior tempo sem água, especialmente em sucessivos anos de chuvas abaixo da média como ocorrido recentemente. É que a ansiada cheia do Machado representa a esperança do povo por uma boa safra de legumes, de uma pecuária sem perdas e da garantia do precioso líquido nas torneiras das milhares de residências.

            Em breve volto para a capital do Estado do Amapá levando na bagagem essa rica experiência vivida nas férias. E sei que ao passar pela orla do volumoso Rio Amazonas lembrarei do sofrido e seco Machado, esperançoso que a temporada de chuvas deste ano encha de alegria o leito daquele riacho que banha uma parte do sertão cearense.

(Imagem Google)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

975 - O CANTO DOS SAPOS




            O sapo-cururu, no início do período das chuvas do sertão nordestino, deixa os ambientes úmidos e invade os terreiros das casas, em busca de  insetos, seu alimento preferido.  O esquisito animal, de pele rugosa, possui poucos predadores na natureza, por isso se reproduzem em grande escala.

        Próximo aos pântanos e lagoas, ouve-se repetidamente o coachar dos sapos. Os pesquisadores descobriram que a insistente vocalização, comuns aos machos, serve para marcar território e atrair as fêmeas para o acasalamento.

            No sítio Lagoas, município de Várzea Alegre, como o próprio nome sugere, repleto de pequenos lagos naturais, o canto dos conhecidos anfíbios interrompem o silêncio das noites sertanejas. Gilson Primo, conhecido produtor rural da região, bem humorado observador, não discorda dos estudiosos. O varzealegrense sustenta que o cantar dos sapos escondem um repetido e sensível diálogo. Na beira da lagoa, um dos sapos mais velhos, líder do grupo, em voz alta, emendando uma palavra na outra, pergunta:

           - Quando eu morrer quem é que vai ficar com mia muiéééééééééééé ??

            Sem pestanejar, os outros sapos do grupo, em um cantado soluço, aos pulos, respondem:

 -    É’ieu, é’ieu, é’ieu, é’ieu, é’ieu, é’ieu... 

Colaboração: Rafael Primo
(imagem Google)

sábado, 13 de janeiro de 2018

974 - CAMINHOS DO SERTÃO




         Caminhando pela zona rural de Várzea Alegre, cuidamos da nossa saúde física, realizamos uma profilática higiene mental e melhor conhecemos a nossa querida terra natal. 

         Hoje, o percurso escolhido nos rendeu um gosto especial. Eu, meu irmão Fernando, meu primo Antônio Costa e o amigo Valdin Viana, com início no fim da tarde, caminhamos por cerca de uma légua – seis quilômetros - do sítio Caldeirão à Lagoa das Panelas.

         Na antiga estrada carroçal, refizemos parte do caminho usado durante anos por camboeiros, retirantes e romeiros. Ali nos deparamos com uma cruz fincada à beira da estrada para lembrar a morte de um trabalhador, ocorrida em 1932. 

        No pouco habitado percurso, percebemos, praticamente intocadas, árvores espinhosas e outras comuns à vegetação típica da caatinga. No meio do ermo trajeto cruzamos o leito seco do Riacho do Machado, principal córrego do município cearense. 

         Na parte final da nossa atividade, no escuro da noite, no topo de uma íngreme ladeira, no sítio denominado Taba Lascada(Mulungu), paramos para descansar e beber água na residência do simpático casal Joaquim Nosa e Emília Frutuoso. Após uma rápida conversa, na despedida, da calçada alta, comentamos sobre um alvissareiro relâmpago que se repetia no poente, indicando, para nós, a chegada de uma ansiada chuva no sertão.

         Dona Emilia, nos seus 86 anos de experiência e sabedoria, desanimada por conta dos sucessivos anos de estiagem, com bom humor, retrucou:

         - Esse relampim aí é veaco, num confio nele não...

(imagem Google)

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

973 - CASAMENTO EM GUARAMIRANGA

   
      Guaramiranga, nome dado a uma pequena e hospitaleira cidade do interior cearense, em tupi guarani significa pássaro vermelho. Encravada em pleno sertão cearense, situada a pouco mais de 800 metros de altitude,  a cidade goza de um clima pouco comum ao calorento semiárido nordestino. Na sexta à noite, na bem frequentada praça principal do município, o termômetro  marcou 16°C.

         E nessa aprazível região, remotamente habitada pelos índios Canindés, passamos um inesquecível final de semana. Foram poucos dias, com frio serrano, calor humano e fortes emoções.

         Mas não foi o clima ameno e a beleza do lugar que nos levou a subir a Serra. Na verdade, ali estivemos para acompanhar a emocionante cerimônia e a perfeita recepção que marcaram o casamento da minha prima e afilhada Natália com João.

         Em um deslumbrante fim de tarde de sábado, o belo, jovem e equilibrado casal recebeu o sacramento do casamento na igreja de Nossa Senhora de Lourdes - da Gruta, celebrado pelo descontraído padre Fernando. Logo em seguida, com familiares e amigos, os recém-casados festejaram a união em um maravilhoso ambiente de congraçamento.

         Além de acompanhar o concorrido casamento da minha afilhada, aproveitamos para visitar interessantes locais da exuberante região serrana.  Do Pico Alto, a 1115 metros acima do nível do mar, segundo ponto mais alto do Ceará, curtimos uma magnífica vista do árido sertão cearense. No Parque das Trilhas, percorremos estreitos caminhos e conhecemos a rica e variada vegetação serrana. Ali também ouvimos atentamente sobre a lenda de Judite, que deu nome a uma das íngremes trilhas do parque. Segundo o nosso guia, às seis horas da tarde, Judite, uma jovem que há décadas morreu triste por um amor não correspondido, reaparece no local e leva consigo os homens que por ali se encontram.

         No final do domingo, descemos a serra com a feliz certeza de que nossa afilhada e prima Natália realizou seu sonho de princesa. E, ainda,  com a possibilidade de alguns dos muitos dos rapazes solteiros e encalhados da família não encontrarem sua alma gêmea, traremos para um passeio às seis da tarde na lendária Trilha da Judite.


(imagem Google)

domingo, 17 de setembro de 2017

972 - ROCK IN RIO 2017

  
Na primeira edição do  festival de música idealizado pelo empresário Roberto Medina, em 1985, eu, lá no Ceará, sonhei em assistir ao vivo, aos shows de Queen, Rod Stewart, Barão Vermelho, Alceu Valença, Paralamas do Sucesso e muitos outros.

Passaram várias edições para que eu realizasse em 2017 o sonho do jovem cearense e curtisse o desejado Rock In Rio. As atrações mudaram, o público mudou, eu mudei e o amor às minhas filhas Alice Maria e Ana Luiza me levou ao Rio de Janeiro. As duas adolescentes escolheram as datas com espetáculos de Shawn Mendes, 5 Seconds Of Summer, Maroon 5, Fergie, Whindersson Nunes, Skank e Ivete.

No sítio eletrônico do festival, não consegui os concorridos ingressos do segundo dia, justamente na data onde se apresentaria o canadense de 19 anos, Shawn Mendes,  principal atração do festival para as minhas filhas e para milhões de outras adolescentes do planeta. Mas, no Rio, a preço de ouro, de cambistas, adquiri os ingressos do dia tão desejado.

Na véspera do show de abertura recebemos a triste notícia do cancelamento da apresentação de Lady Gaga. Uma grande decepção que virou festa em frente ao hotel reservado para a estrela pop. Se não veríamos a famosa novaiorquina, vibramos ao assistir na calcada de Ipanema a performance da divertida cover brasileira Penelopy Jean, que roubou a cena do dia e depois subiu aos palcos do Rock In Rio.

Este ano, estrelas da internet também brilharam, como Whindersson Nunes que juntou multidão para ouvir suas divertidas paródias. Numa delas, o fenômeno  piauiense ensina a cantar em inglês com a música "não sei o que lá", recriando famosa obra da banda americana Guns N' Roses.

Depois de dois dias de grandes espetáculos, volto pra casa, em Macapá, na companhia de Alice Maria e Ana Luiza com a bagagem abarrotada  de emoções e lembranças.  Espero que em 2030 ainda tenha força e energia para voltar ao Rock in Rio e refazer a divertida e emocionante viagem, dessa vez acompanhando nossa filha caçula Ana Flávia, que hoje conta com apenas 2 anos de idade.


(imagem Google)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

971 - SEBINHO (republicado)



Nesta manhã de domingo, um grupo de amigos pedalou até o Igarapé da Fortaleza, Distrito de Santana, para uma visita ao veterano atleta Francisco Dias Macedo, que se recupera de uma cirurgia. Mesmo com carência de identificação das ruas, foi fácil encontrar o endereço, pois vários moradores do local se prontificaram a apontar orgulhosamente onde mora o simpático senhor conhecido como Sebinho, hoje com 73 anos.

A modesta casa do corredor e ciclista conta grande parte da história do esporte amapaense. Nos cômodos, falta espaço para expor os inúmeros troféus e medalhas conquistados pelo incansável atleta. Segundo seus cálculos, desde 1972, quando se iniciou nas disputas, são 974 provas vencidas. 

Nascido no Estado do Pará, entre Oriximiná e Juriti, Sebinho chegou ao Amapá em 1970, para trabalhar na área de telecomunicações da ICOMI, empresa que por décadas explorou o minério de manganês nas minas da Serra do Navio. 

Mas foi na atividade esportiva que se destacou e adquiriu fama. Suas vitórias ultrapassaram os limites geográficos impostos pelo majestoso Rio Amazonas. Representando o Amapá, Sebinho ganhou provas em vários estados brasileiros.

E o melhor da visita foi ouvir as inúmeras histórias e aprender com o lendário atleta amapaense. A origem do seu apelido diz muito sobre a sua vitoriosa trajetória.

Na década de 1970, em uma prova disputada em Fortaleza, nos últimos metros, Francisco disparou e ultrapassou vários concorrentes, cruzando em primeiro lugar a linha de chegada. Ao final, diante de todos, o técnico da forte equipe catarinense, inconformado com a perda do título, reclamou rispidamente com seus atletas:

- Que vergonha! Como vocês conseguiram perder para esse ciclista franzino do Amapá?

Esgotado, ainda ofegante, um dos atletas de Santa Catarina, usando uma comparação que passou a substituir o nome do simpático Francisco, respondeu:

- Ora, o que a gente poderia fazer?  Ele é pior que “sebo”, um "sebinho", muito liso,  depois que fugou não deu para mais pra segurá-lo...

(imagem Google)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

970 - JARILEX



            No último feriado de 7 de Setembro, um grupo de amigos saiu de Macapá com destino ao Laranjal do Jari, município localizado no sul do Estado do Amapá.

            A distância entre as duas cidades amapaenses, de aproximadamente 290km, mesmo com grande parte de estradas não pavimentadas e embaladas por íngremes ladeiras, seria vencida  com relativa  facilidade não fosse o meio de transporte escolhido: a bicicleta.

            Mas a prestimosa equipe de apoio, os refrescantes rios, a exuberante floresta, a hospitalidade do povo amazônico e a união dos cicloexpedicionários facilitaram a consecução do objetivo.

          Em dois dias de incansáveis pedaladas conseguimos alcançar o rico, desejado e espoliado Vale do Jari, superando limites pessoais e escrevendo mais uma página da nossa história de aventuras.

           Como recompensa, ao final do desafio batizado como JARILEX, nos banhamos alegremente na Cachoeira de Santo Antônio, no rio Jari,  que, mesmo afetada pela recente construção de uma hidrelétrica, ainda encanta pela sua beleza, força e exuberância.

            A pequena embarcação - catraia - que nos levou para as lindas quedas d'água também parou em um pequeno cemitério, na beira do rio Jari, onde, em meio a várias cruzes, destaca-se uma com a suástica. Ali foi sepultado Josefh Greiner, falecido em decorrência de malária, um dos oficiais de uma expedição alemã da década de 1930, que explorou a região pouco anos antes da Segunda Grande Guerra Mundial.

            Em tempos de polêmica sobre a exploração de áreas protegidas, a história da expedição germânica realçou a pouca importância e o minguado tempo que dedicamos às nossas riquezas. Ainda hoje,  nós do Amapá, nós brasileiros, pouco conhecemos da extensa e isolada Amazônia. Por outro lado, há quase 100 anos, uma expedição alemã colheu profundas informações da fauna, flora e geologia da região.


      Esperamos que a bicicleta nos leve a outros encantadores lugares e nos ajude a despertar e refletir sobre o futuro da grandiosa, desconhecida e incompreendida Amazônia brasileira.

(Imagem Google)