terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

555 - RETIRO MOMINO (Pedra de Clarianã há dois anos)





          Na década de oitenta, o Clube Recreativo de Várzea Alegre – CREVA – promovia quatro bailes de carnaval. A folia, iniciada nos desfiles matutinos de irreverentes blocos e organizadas escolas de samba, culminava com os concorridos eventos noturnos do tradicional clube da cidade cearense.

         Contudo, no ano de 1987, o jovem bancário Júlio Bastos, após certa resistência, aceitou o convite de Dalva e foi passar os feriados mominos em Fortaleza. Na verdade, Dalva pretendia afastar seu querido irmão dos ambientes festivos. Júlio andava exagerando no consumo de bebida alcoólica, preocupando bastante sua família.

          Desse modo, para tranqüilidade dos seus pais, naquele ano, o bancário fugiu da agitação, curtindo programas alternativos e saudáveis na capital alencarina. Porém, como trabalharia a partir do meio-dia da quarta-feira de cinzas, na noite de terça viajou de volta.

          Às quatro horas da madrugada chegou a Várzea Alegre. Já em casa, se preparando para dormir, Júlio escutou os acordes dos Originais do Frevo, vindos do CREVA: taran, taran, taran, taranranranran. Foi o suficiente para despertar a vontade de ver os últimos momentos do baile final daquele ano. Contra a vontade da cuidadosa Delmir, Júlio falou:

         - Mãe, se preocupe não, tá no finzin. Vou só dar uma espiadinha.

         Na entrada do clube se deparou com sua namorada agarrada a outro rapaz. A cena aguçou ainda mais a vontade de tomar um gole. Não bastasse, a orquestra tocava “oh, quarta-feira ingrata, chegou tão depressa...” O folião retardatário rumou direto para o bar e pediu:

        - Zé de Zuza, uma dose dupla pra mim.

        Após o primeiro gole seguiram muitos outros. Acabou o baile, findou o carnaval, e Júlio não retornou para casa. Raiou o dia pelos bares da cidade. Às onze da manhã, foi visto descalço e sem camisa pulando em cima do caput de uma velha rural. Naquela quarta-feira de cinzas não foi trabalhar.

        Depois de alguns anos Júlio felizmente conseguiu vencer as armadilhas do álcool. Neste Carnaval, em uma mesa de animado botequim, o bancário, com brilho nos olhos, falou para os amigos:

          - Faz dezoito festas de agosto* que eu não bebo.


* período festivo do mês de agosto em homenagem ao padroeiro de Várzea Alegre, São Raimundo Nonato.

Colaboração: Júlio Bastos

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